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Aprender com o erro e curar as feridas

Um Passo a Mais - João Pedro Schmidt - 05/07/2014

As enchentes e danos provocados pelas fortes chuvas dos últimos dias não se devem apenas às forças da natureza. Decorrem também de desequilíbrios resultantes da ação humana no planeta.
Um dos exemplos de ação humana indevida no ambiente está muito perto de nós: o Rio Taquari Mirim, que percorre localidades como Entrada São Martinho, Linha Andrade Neves e Pinheiral. Esse pequeno rio, mais parecido com um arroio em tempos de pouca chuva, vem apresentando enchentes com alto poder destrutivo desde a década de 1980.
Enchentes sempre houve. Lembro que na década de 1960, meninos, nos víamos por vezes impedidos de ir à escola por receio de passar sobre a ponte devido ao alto nível das águas. Mas, afora o impedimento de deslocamento, os danos sociais resumiam-se ao alagamento prolongado das lavouras próximas ao rio, prejudicando as plantações em função da permanência das águas de um a dois dias fora do leito.
Tudo mudou a partir de 1982. Naquele ano, a Prefeitura de Santa Cruz do Sul iniciou uma intervenção no rio que mudou sua história para sempre. Com recursos federais obtidos via projeto Pró-Várzea, enormes dragas começaram a “endireitar” o rio, cortando as suas inúmeras pequenas curvas. Eram essas pequenas curvas que tornavam lento o fluxo das águas e impediam seu rápido escoamento nas enchentes. A “dragagem” começou na Entrada São Martinho e avançou até Pinheiral.
O objetivo de acelerar o escoamento das águas foi alcançado. Em poucas horas a água retornava ao leito. Mas, veio uma consequência inesperada: por força das águas extremamente rápidas, as margens e o leito do rio foram violentamente modificados nos últimos 30 anos. No Sítio 7 Águas, por exemplo, três robustas pontes foram derrubadas entre 2000 e 2004. A atual nova ponte, inaugurada há dez meses, resistiu, com danos parciais, mas outras pontes da vizinhança foram arrastadas ou danificadas.
As grandes enchentes constituem um espetáculo impressionante, segundo os moradores. O rugido das águas, os estalos das árvores ribeirinhas e a velocidade da correnteza dão a impressão de que se está diante de um rio de grandes proporções. Mas, duas horas depois, a água já está de volta ao leito e então começa a se perceber mais nitidamente os estragos.
Nesses trinta anos, o Taquari Mirim ficou mais largo e mais fundo. Moradores avaliam, com base na altura dos barrancos, que o leito foi aprofundado em cerca de cinco metros e a largura em mais de dez metros. É uma situação provavelmente sem retorno.
Duas lições a aprender. A primeira: não se mexe impunemente no leito dos rios e cursos d’água. O caso do Taquari Mirim é um alerta para que não se façam nunca mais intervenções semelhantes. A segunda: quem provocou a situação (Prefeitura) tem responsabilidade moral permanente com o entorno e com os moradores, buscando mitigar o impacto das águas e apoiar iniciativas de restauração.
Aprender com o erro e curar as feridas. É o que temos a fazer.