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A banalização do conceito de crise

Um Passo a Mais - João Pedro Schmidt - 15/08/2015

A palavra “crise” é usada abusivamente. Tudo parece estar em crise. Há pouco estava ouvindo um programa esportivo, onde se falava do descontentamento dos juízes de futebol com relação a um veto presidencial numa Medida Provisória referente ao esporte, e o comentarista emplacou: “É mais uma crise nesse país!” Haja crise...
Esse uso abusivo da ideia de crise é hoje um elemento da ideologia direitista e conservadora, mas mesmo em outros contextos o uso chega à banalização e à perda do seu sentido original. 
O sentido original de crise – caro à filosofia, à sociologia, à política, à economia e às ciências da saúde – designa algo profundo no plano físico ou simbólico, com severas consequências e acompanhado da revisão de valores e modelos. 
“Crise” e “crítica” têm a mesma origem: os termos gregos “krinein”, que significa julgar, e “krisis”, que significa decisão (tomada por um juiz ou um médico, sopesando os prós e os contras ou conjugando os vários sintomas). Crise tem a ver com uma situação grave, que nos leva a ter que decidir entre os rumos correntes e novos rumos, entre modelos emergentes e modelos assentados.
Uma crise econômica é um momento em que a economia apresenta indicadores fortemente negativos, com encolhimento da atividade econômica, altos níveis de desemprego, aumento da pobreza e falta de perspectivas. É o caso de vários países da Europa nos últimos anos, especialmente Grécia, Espanha, Itália e Portugal, que convivem com desaceleração econômica, taxas de desemprego acima de 20%, especialmente entre os jovens, e ameaça de cortes de benefícios do Estado de Bem Estar. O modelo econômico da Comunidade Econômica Europeia está em processo de revisão. 
No Brasil, o que temos atualmente é uma crise política com reflexos na economia. O governo calcula que somente a Operação Lava Jato já provocou um impacto negativo de 1% do nosso PIB. Mas, não temos uma crise econômica estrita. Há uma retração econômica, com elevação módica da taxa de desemprego (7%), todavia todos os principais direitos sociais continuam assegurados. Por exemplo: o salário mínimo tem o maior valor de compra das últimas décadas; o bolsa família injeta todos os meses cerca de R$ 2,3 bilhões na economia nacional; a injeção proveniente das aposentadorias do INSS é bem maior: R$ 32 bilhões por mês. A desaceleração econômica pode ser revertida em 2016/2017. Crise econômica haverá ser for bloqueado o modelo de crescimento econômico com inclusão social.
Politicamente, o quadro é mais complexo. Há uma crise do governo federal, que se manifesta nos conflitos entre Governo e Congresso, na repercussão negativa das investigações sobre corrupção, nas manifestações de rua dos setores direitistas, entre outros. E há uma crise mais profunda, do modelo democrático afirmado na Constituição Federal. O modelo da Constituição prevê descentralização, inclusão social e participação popular. Esse modelo está sendo bloqueado pela ação da direita política e conservadora. Parte do país quer avançar rumo à democracia participativa; parte quer travar os avanços e tem saudades do passado.