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Será que foi o Mia Couto?

Cristian Sehnem

Sociais - Fernanda Zart - 17/11/2012

Na noite do dia 14, tive a oportunidade de assistir o escritor moçambicano Mia Couto. Um homem fantástico, reconhecido internacionalmente, sem deixar de ser simples, calmo, divertido, humano.
Depois do evento, fui para casa, a pé. O caminho era o mesmo de todo o dia, conhecido como a palma da mão. Salvo o trânsito e eventuais obstáculos inesperados sobre a calçada.
Quando chego quase em frente a minha casa, tenho que atravessar uma avenida movimentada. No horário em que eu voltava ontem, cerca de 21h15min, contudo, o trânsito era quase inexistente. Também não haviam mais pessoas caminhando por perto, para eu conseguir ajuda.
Há uma faixa de segurança no local. Parei meio metro após o meio fio da calçada. Passaram três carros em seqüência, vindos da minha esquerda. Silêncio. Então uma moto, da direita. Silêncio, um, dois, cinco, dez segundos. Avancei um passo para ouvir melhor, nada. Eu conseguia ouvir os grilos, incrível. Nem parece que durante o dia acontecem congestionamentos nesse local.
Comecei a cruzar a avenida, pela faixa de segurança. Um passo, dois passos, três passos. Nada de trânsito, que maravilha.
De repente, um som de carro, vindo reto da minha frente!
- De que jeito isso, não tem cruzamento aqui, de onde vem esse troço Meu Deus!!!
A velocidade do veículo era muito alta, um milésimo de segundo e o impacto fulminante. Com a mão ainda consegui sentir o que pensei ser o capô frontal do carro.
Fui arremessado por pelo menos dois metros, no meio da avenida, sobre a faixa de segurança. Como se tivesse dado uma voadora, caí reto no chão, sobre o meu lado esquerdo.
Mas o carro continuava avançando, com o seu ronco assustador. Gritei, já deitado no asfalto. Eu ainda segurava a bengala-guia na minha mão. Bati-a na lataria do monstro que queria me esmagar. Ele parou.
Eu, que já havia quebrado a perna esquerda só de cair no degrau de uma calçada, pensei que meus ossos não tinham resistido àquilo tudo. Mesmo assim, consegui sentar. Sentia dor mas não sabia se física ou de tensão. Desesperado, o dono da lancheria ali ao lado veio me socorrer. Achei que era ele o motorista que havia me atropelado.
Nesse local a avenida faz uma curva e mesmo assim os veículos costumam voar baixo. Por isso tínhamos que sair logo, antes que algo pior acontecesse. Já várias pessoas estavam ao redor. Uma mulher chorava alucinadamente ao meu lado, dizendo que tinha me visto cair no chão. Me preocupei que ainda lhe desse alguma coisa, tipo ataque cardíaco ou algo do gênero.
Com ajuda, apoiei a perna direita, depois a esquerda, parecia tudo bem. Minha bengala-guia, fiel e agora retorcida, continuava na minha mão. Consegui caminhar até a lancheria, uns dez metros adiante. Machuquei apenas os cotovelos, nada grave.
Só então fiquei sabendo que o motorista do carro era outro homem, marido da mulher que chorava sem parar. Eles e uma senhora haviam jantado na lancheria e faziam o retorno com o carro, sobre a faixa de segurança. Estavam estacionados em frente a uma revenda de veículos, numa plataforma onde os mesmos ficavam expostos durante o dia. Não sei como não me viram sobre a faixa de segurança, imprudência total. E depois de sentirem o estouro e me verem caído no chão, levaram alguns segundos até conseguirem sair de dentro do carro.
Mesmo que eu enxergasse, não teria o que fazer. Estaria atento ao trânsito à esquerda e direita da avenida. Quando percebesse aquele carro na minha frente já seria tarde demais.
Fui para o atendimento médico da universidade, que me encaminhou para radiografias no hospital. Uma amiga me acompanhou o tempo todo. Além das dores musculares, duas camadas de pele nos cotovelos e um grande susto, nada mais.
Escrevo esse relato na manhã do dia seguinte e fico arrepiado só de lembrar no que aconteceu, parece até que não foi comigo. Quem sabe uma narrativa alheia que li e fiquei me imaginando no lugar da vítima. Agora, por outro lado, também não entendo o que aconteceu naquele instante que voei e caí no chão. Parecia haver um campo magnético, uma força que me sustentou no impacto.
Sei que alguns lerão isso aqui e no fim das contas acharão que melhor é que as pessoas com deficiência fiquem em casa. Principalmente aqueles que já têm uma conduta superprotetora, seja com os familiares, amigos, conhecidos. Por favor, o objetivo é justamente o contrário, conscientizar os motoristas. Ninguém acharia coerente prender animais selvagens em jaulas para evitar que sejam caçados, antes buscariam conscientizar os caçadores e adequar o meio ambiente para uma vida equilibrada e amistosa.
Não somos animais e muito menos selvagens. E pessoas presas em jaulas também não queremos ser.
Duas ou três vezes perguntei qual era o nome do motorista que me atropelou. Só que eu não conseguia entender, estava muito nervoso. Ele deixou seus dados na lancheria enquanto eu ia para o hospital, tenho ainda que buscar. Mas tinha algo com “ia” se não me engano. Fiquei pensando, mais tarde: será que foi o Mia Couto que me atropelou?
Se as leis de trânsito lá em Moçambique permitirem manobras perigosas como essa de ontem, olha, não é de duvidar!

* Santa Cruz do Sul/RS