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Hipocrisia sem limites

Olhar Parcial - Edison Rabuske - 30/06/2017

É muito comum ouvirmos em quase todos os meios de comunicação de massa que o Brasil está atravessando um momento de crise política jamais visto, seja no volume de escândalos de corrupção, seja na total falta de entendimento da classe política, ou então de divisão raivosa existente entre os movimentos pró e contra governo.

Acredito que as luzes lançadas pela mídia sobre o atual momento político são legítimas, eis que seu papel constitucional é informar, mas daí dizer que nunca antes o País passou por momentos de discórdia é no mínimo desconhecer a história sangrenta que forjou a República Brasileira. Posso começar por Tiradentes, que foi morto e esquartejado no final de século XVIII, e logo em seguida lembrar de Frei Caneca, que também não teve destino diferente na revolta de Pernambuco em 1825, a sangrenta Revolução Farroupilha que conhecemos muito bem, que durou dez anos (1835/1845), a Revolução Federalista de 1893, diga-se a mais sangrenta da nossa história, e ainda aqui em nosso Estado ainda tivemos a revolução de 1923. Também a revolução de 1930 que levou Getúlio ao poder, a de 1932, que os paulistas comemoram até hoje, e ainda a intentona comunista de 35. E por fim o golpe de 64.

Faço este muito sucinto regaste histórico para dizer que no passado nossas diferenças políticas, e se podemos dizer ideológicas, eram resolvidas da forma muito brutal e violenta, o que não acredito mais ter espaço em nossos dias, mas, como dito acima, retrata de forma muito clara que a República foi construída através de uma cultura do uso da força e das armas, sendo que por muitas vezes o texto constitucional foi rasgado e substituído, de acordo com o novo poder que se estabelecia. 

O atual momento histórico exige uma capacidade enorme dos homens públicos no que diz respeito à Constituição em especial aos ministros do STF, que são guardiões da Carta Magna.  E se o princípio de que “a lei vale para todos”, não pode o Congresso Nacional, caixa de ressonância de vontade popular, ser conduzida por um deputado que faz uso de todos os mecanismos para se proteger e ao mesmo tempo articula de forma imoral a queda de uma presidenta eleita, para tentar colocar no lugar desta um colega de partido.

Se o STF através do ministro Gilmar Mendes, em liminar decidiu cassar uma decisão do Executivo, que proibiu a nomeação de ministro do ex-presidente Lula, sem nenhum receio de estar ferindo a independência dos poderes prevista na Constituição, é no mínimo estranho que o senhor Eduardo Cunha se mantenha na Presidência da Casa Legislativa, e continue de forma despudorada fazendo manobras para derrubar a presidente Dilma e se manter no poder.

Quanto ao vice Michel Temer, com todo respeito, mas não creio que o povo brasileiro vá legitimar um político que faz da deslealdade sua maior virtude para chegar ao poder. Não crível que agora venha dizer que não fazia parte do governo, e que os ministros do PMDB não foram indicados por ele. Hipocrisia de fato não tem limites.

(*) Escrito e publicado em 02.04.2016, sendo que sua elaboração foi sem uso de “bola de cristal”.