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A droga das elites

Olhar Parcial - Edison Rabuske - 13/01/2017

Os indicadores policiais que tratam do tema das drogas ilícitas, maconha, crack, cocaína, sintéticas dentre outras em nosso País, dão conta de que é um mercado bilionário, que a cada dia atrai para o mundo do tráfico soldados, que via de regra, têm perfil comum de adolescentes e homens jovens, pobres e pouca instrução e vislumbram nesta atividade dinheiro, poder, respeito e talvez até um certo orgulho pessoal por ser temido em sua comunidade. 

O estereótipo acima é a visão do senso comum dos soldados do tráfico onde a morte entre as facções é a forma de manter o domínio do mercado. Mas cabe questionar, quem afinal mantém este negócio fabuloso, que a cada ano cresce em todo o mundo?  

Os investimentos públicos no sentido de conter esta demanda tão latente na sociedade brasileira e mundial têm demonstrado ineficácia. Somente os Estados Unidos, em 2012, gastou um trilhão de dólares em políticas repressivas, o que não evitou o aumento no consumo da heroína. 

Mas voltando à pergunta, quem mantém este mercado? Quando entramos na seara do usuário, o perfil contrasta de forma frontal com o estereótipo dos soldados do tráfico.  

Uma pesquisa do economista Marcelo Neri da Fundação Getúlio Vargas, de 2007, aponta o dedo para uma parcela da elite. Maconha e cocaína no Brasil são bens de luxo, para a população com maior poder aquisitivo. De acordo com o levantamento, o consumidor-padrão de drogas no Brasil é homem, tem entre 20 e 29 anos, é da classe média alta e mora com os pais. Gasta, em média, R$ 45 por mês com drogas (valor de 2007). Também as drogas sintéticas, como ecstasy, LSD e outras certamente estão no mesmo patamar. Segundo a pesquisa, 72% dos usuários tinha renda familiar de mais de R$ 6.000,00 há época. 

As experiências mundiais têm indicado que a criminalização do usuário não tem sido o melhor caminho, e no Brasil a legislação e o Judiciário também têm tido tal entendimento. Desnecessário dizer que prender o indivíduo viciado em drogas em nada resolve o problema deste, e muito menos o problema da sociedade, que paga para manter um doente preso.

Como se percebe, a problemática posta não é de fácil solução, pois se de um lado o tráfico faz suas próprias leis, de outro, os usuários por motivos variados não parecem ter preocupação com a origem da matéria-prima do seu “prazer”.

Não vou propor aqui a discussão sobre a liberalização das drogas, em razão de sua seriedade, que poderá ser objeto de outro momento, bem como, a abordagem sobre o “status” que o mundo artístico tem em relação às drogas, mas apenas tentar dizer que as experiências nacionais em relação ao cigarro e álcool foram bem sucedidas com discussão aberta sobre o tema, devendo aqui destacar o trabalho do Centro de Atendimento Psicossociais/Álcool e Drogas do SUS.

Não há possibilidade de avanço sobre o tema do uso/repressão das drogas ilícitas, se o assunto não entrar nos ambientes familiares e institucionais, mas com a criatividade que resgaste o usuário, mesmo o eventual que é o que melhor paga.

 

*este texto já foi publicado na edição de 20/02/16, e considerei interessante uma nova publicação em razão dos graves fatos ocorridos no País nas últimas semanas e que estão diretamente relacionados com o uso de drogas ilícitas.