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Um defensor da paz e amante do carnaval

GERAL - 20/10/2015

Alyne Guimarães Motta
alyne.mottynha@gmail.com

Faz parte do papel de jornalista escrever histórias. E isso sempre me fascinou. Quando tive a oportunidade real de publicá-las, passei a fazer com mais gosto. Porém não são somente histórias boas que acabamos contando ao longo de uma carreira profissional. Cabe ao jornalista transmitir ao leitor todos os fatos, acima de tudo.

Saí do Riovale Jornal em junho de 2014. Até então, achei que minhas contações de histórias haviam acabado. Até receber um pedido. Falar do meu tio, Dom Irineu Rezende Guimarães, o padre Marcelo, conhecido por muitos em Santa Cruz do Sul e que faleceu na madrugada do dia 10 de outubro, na França, onde morava.

Desde 2008 ele descobriu ser portador da Esclerose Lateral Amiotrófica, a ELA, uma doença degenerativa que vai afetando os neurônios motores no cérebro (neurônios motores superiores) e da medula espinhal (neurônios motores inferiores). À medida que esses neurônios não enviam mais impulsos, os mesmos ficam atrofiados.

A descoberta da doença – o quarto caso na família – me mostrou um tio mais lutador e incansável. Muito mais do que já era e eu conhecia. E, como a doença não tem cura, a cada avanço da ELA, mais uma etapa precisava ser vencida. E foi assim por seis anos, divididos com a família.

Foi um longo combate, embora todos soubessem que era a favor de paz, e não de guerras. Uma batalha que ele não lutou, mas viveu em total entrega, continuando a trabalhar pela paz até o fim, através de seus escritos, através de múltiplos contatos e através da sua prece.

Deixava claro para todos seus desejos: “Eu ofereço a minha doença para que ela se torne paz no mundo”. E, numa fé sem falhas, ele fez suas as palavras de São Paulo (Romanos 8,28): “quando os homens amam a Deus, ele mesmo faz tudo contribuir para o seu bem”.

O sepultamento aconteceu na segunda-feira, 12 de outubro, no cemitério da comunidade, na França. No Brasil, no mesmo horário, aconteceu uma missa no Mosteiro da Santíssima Trindade, situado em Linha Travessa. Porto Alegre e Rio Pardo também prestaram homenagens.

Dedicação à paz

Mas histórias têm fim. Porém, o que fica entre a chegada e a partida é que as tornam especiais. Com o meu querido tio Pepelo (carinhosamente apelidado por minha prima mais velha e seguido por todos os sobrinhos) não foi diferente. Mostrou-se, ao longo da vida, ser uma personalidade e tanto.

Nascido em abril de 1959, em Porto Alegre, o quarto dos cinco filhos de João e Leda Guimarães recebeu uma educação marcada pelo espírito de abertura. Teve sua relação maior com a religião quando ingressou no Seminário em Viamão, em 1979. De lá, em 1985, foi ordenado padre. 

A partir disso, sua caminhada religiosa iniciava na paróquia da Catedral São João Batista. Algum tempo depois passa a ser coordenador diocesano de Pastoral, na Diocese de Santa Cruz do Sul. Era o início de um belo trabalho como padre que renderia grandes frutos.

No ano de 1992, o padre Marcelo segue um outro destino, dessa vez em Goiás. Ele ingressa no Mosteiro da Anunciação do Senhor, realizando sua profissão temporária em fevereiro de 1995. Ali começava sua dedicação para a Paz e uma sociedade de não-violência.

No mesmo ano, após um período como monge, retorna para Santa Cruz do Sul. Ao voltar para sua diocese, ele se empenha convicto no trabalho pela paz. Em 1997 torna-se capelão e um dos criadores do Mosteiro da Santíssima Trindade, dedicado às monjas beneditinas, inicialmente situado na Casa de Retiro de Loyola.

Tantos eram seus estudos pela paz, que buscou especializar-se mais. Licenciado em Filosofia (1981) e Teologia (1990), decidiu no ano de 1999 iniciar os estudos no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Começou com o mestrado e, devido à profundidade de seus estudos, foi passado diretamente ao doutorado, onde defendeu sua tese “A educação para a paz na crise da metafísica: sentidos, tensões e dilemas” em 2003. Desde então passou a atuar com ênfase em Educação Para a Paz.

O pacifismo, a cultura de paz, não-violência, desarmamento e paz tornaram-se os assuntos de seus tantos artigos e livros publicados. Ao voltar para o Mosteiro da Anunciação do Senhor no estado de Goiás, em 2005, o seguidor das regras de São Bento renovou seus votos. 

Dois anos depois recebeu o nome monástico de Irineu, que significa pacífico, mensageiro da paz, ao contrário de Marcelo, cuja origem está relacionada a “Marte” o deus romano da guerra. Foi o Prior do Mosteiro de 2007 até o fechamento deste no final de 2009.

E sua história ganha outro capítulo. Dessa vez do outro lado do Oceano Atlântico, quando decidiu ir para a Abadia NotreDame, de Tournay, na França. De maio de 2010 a fevereiro de 2013 foi prior, função que resignou quando a ELA atingiu um estágio mais avançado.


Dom Irineu Rezende Guimarães, o padre Marcelo, e sua irmã AlaydeDom Irineu Rezende Guimarães, o padre Marcelo, e sua irmã Alayde Crédito: Divulgação/RJ

Paixão pelo carnaval

Assim como a paz, o samba era sua paixão. Os primeiros desfiles – inicialmente na arquibancada e posteriormente nas ruas – e enredos foram em Rio Pardo, junto à Escola de Samba Candangos. Muitos temas foram sugeridos pelo padre que sabia juntar o sagrado e o profano.

Em muitos deles, assuntos religiosos foram abordados, seja nas letras dos sambas-enredos ou mesmo em alegorias e fantasias. Alguns temas sagraram-se campeões, outros não. Mas sua paixão pelo carnaval aumentava cada vez mais. E essa paixão alçou diversos voos.

Salgueirense de coração, sabia todos os sambas de sua escola querida. Aliás, de qualquer escola de samba do grupo especial do Rio de Janeiro ou mesmo da pequena Rio Pardo. Era só dizer o ano que cantarolava o samba. Mesmo monge, não abandonou o gosto. Morando na França, assistia pela internet, do início ao fim.

Em 2001, no primeiro carnaval do novo século, teve seu sonho tornado realidade. Fez a Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, rezar a Oração de São Francisco. O motivo foi a sugestão de enredo sobre a paz, aceita pela Mocidade Independente de Padre Miguel, transformada no samba “Paz e harmonia, Mocidade é alegria”.

O carnavalesco Renato Lage desfilou até a apoteose uma escola repleta de branco e de muita paz. A bateria veio vestida de Gandhi e conquistou o troféu Estandarte de Ouro de Melhor Bateria. E o padre Marcelo acompanhou de perto. Para os jurados, não foi o suficiente e a escola ficou em 7º lugar, mas para o Marcelo, foi a vencedora.

No mesmo ano, também cantou a paz em Rio Pardo, através de um enredo completo sobre o tema. Entre tantos sambas marcantes, o da Luta pela paz dizia que “um dia as espadas servirão, de arado que lavra o chão, e os tanques de guerra serão ninhos, dos pássaros que voam pelos céus”. Quem sabe um dia, sua profecia se concretize?


Dom Irineu fez a Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, rezar a Oração de São FranciscoDom Irineu fez a Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, rezar a Oração de São Francisco Crédito: Divulgação/RJ
 

Lembranças boas

Tantas histórias, tantos amigos, tantos alunos e colegas. Desde a sua morte, milhares de homenagens foram prestadas ao “Dom Marcelo-Irineu”, como Júlio Lima, oblato do Mosteiro da Santíssima Trindade o denominou. Várias imagens traduzidas em palavras, diversos textos.

Quem o conhecia puxou da memória lembranças boas, algum momento marcante ou mesmo alguma canção ensinada por ele. Foram tantos batizados, casamentos, primeiras eucaristias realizadas, os quais fazia questão de lembrar, um a um, em sua vasta memória. E ela se manteve firme até o fim.

Cada familiar se despediu da forma que podia. Minha mãe, Alayde, o visitou algumas vezes na França. A cada retorno dela para o Brasil, a incerteza de saber se o veria novamente. Na quinta-feira, 8 de outubro, foi a última conversa, no qual fez questão de dizer que não estava tão bem, mas também não estava tão mal.

E no sábado pela manhã na França, madrugada ainda no Brasil, a estrelinha brilhante partiu. Foi se encontrar com São Bento, Mahatma Gandhi, Luther King, Oscar Romero, Ricardo Wangen e outros tantos de quem conhecia os ensinamentos, mas não havia tido o privilégio de conhecer. Ainda. 

E o nosso mestre partiu. E quando isso acontece, cabe aos discípulos se tornarem herdeiros da missão. E foram muitos, deixados em cada lugar que morou ou mesmo passou deixando seus ensinamentos. Agora, não temos mais por quem esperar. Somos apenas ou todos nós.