Edição do dia 15/08/2017

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ASSEMBLEIA LEGISLATIVA: Evento na Unisc debateu o machismo

Deputada Manuela d'Ávila (PC do B), Procuradora Especial da Mulher do Legislativo Gaúcho, esteve em Santa Cruz do Sul nesta semana

POLÍTICA - 11/08/2017

Cíntia, Marta e Manuela: mulheres debateram sobre o machismo no sistema educacionalCíntia, Marta e Manuela: mulheres debateram sobre o machismo no sistema educacional Crédito: Guilherme Athayde

O machismo pode ser definido como um conjunto de ações de um indivíduo ou coletivo, que negue a igualdade entre mulheres e homens. Ao contrário do que às vezes se divulga, muitas vezes com objetivos excusos em nome de ideologias retrógradas, o machismo não é o contrário de feminismo. Enquanto o indivíduo machista recusa igualdade entre gêneros e acredita na superioridade masculina, o feminismo propõe direitos e deveres iguais, e não a superioridade feminina. O feminismo se constitui em uma luta por direitos, já o machismo é uma agressão à sociedade, um preconceito que desencadeia uma série de atitudes que atrasam o desenvolvimento humano.

Um bom argumento para sustentar a afirmação parte de uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU), chamada “Gender Inequality Index” (Índice de desigualdade de gênero, em português), que mostra que países com maior índice de desenvolvimento humano (IDH), como Holanda, Suécia, Noruega e Dinamarca, possuem os menores indicadores de desigualdades entre homens e mulheres. Essas nações apresentam uma desigualdade menor entre mulheres e homens que exercem atividades remuneradas, menor disparidade salarial entre os gêneros, um índice maior de mulheres nas universidades e maior representação feminina na política.

Uma pesquisa brasileira realizada pelo portal Catho, que reúne milhões de ofertas de empregos em todo o país, concluiu que a diferença média salarial entre homens e mulheres no Brasil é de R$ 489,00, ocupando exatamente os mesmos cargos de trabalho. Em 28 áreas de atuação pesquisadas, os homens ganhavam mais em 25 delas. O estudo concluiu que em funções de coordenação, diretoria e gerência, a disparidade alcança até 46,7%, ou seja, nos cargos mais bem remunerados do mercado, as mulheres ganham, em média, quase 50% a menos que homens.

 Reconhecer e compreender o machismo na sociedade é o primeiro passo para combater o problema, segundo a Deputada Estadual Manuela d'Ávila (PC do B), que esteve no auditório do curso de Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), na última quarta-feira, 10. Para a deputada, que é Procuradora Especial da Mulher na Assembleia Legislativa, o espaço educacional ainda reproduz práticas que colocam mulheres e homens em situaçao de desigualdade. “O mero reconhecimento disso já faz com que o processo comece a ser invertido, que os professores e professoras passem a pensar. Há hoje uma mobilização muito forte das estudantes em torno desta questão”.

Também na quarta-feira, pela manhã, a deputada realizou o mesmo seminário para 500 estudantes do ensino médio em Encruzilhada do Sul. O debate na Unisc foi à tarde. Estudantes universitários, secundaristas e professores estiveram no Auditório do Curso de Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul. Participaram do encontro para contar suas experiências, a ativista do movimento feminista e igualdade racial, Cíntia Luz, a professora da UERGS, doutora em química orgânica e militante dos direitos humanos, Marta Nunes, e a representante do Coletivo Clandestinas, Marília Daniel. Para a ativista Cíntia Luz, debater o machismo é ir de encontro a uma sociedade melhor. “Nós estamos numa sociedade machista, racista e elitista. Colocar essas questões desde a escola, a juventude, os professores, e todos nós refletirmos sobre o assunto é importante porque o machismo mata, ele machuca. Embora as pessoas às vezes não percebam, muitas vezes elas são reprodutoras desses ensinamentos que vêm desde sempre na construção da sociedade”. Ela destaca que atos machistas muitas vezes são vistos como “normais”, como xingamentos à mulher, a tentativa do marido mandar como ela deve ou não se portar ou fazer com o próprio corpo. “Nessas questões esses seminários são muito importantes para a gente começar a desconstruir pensamentos que já estão enraizados na sociedade. Para a professora da UERGS, Marta Nunes, a mudança na questão do machismo na sociedade só irá alcançar resultados com o debate. “Só há condições de haver mudança na hora em que as pessoas começarem a debater sobre o que acontece, a conversar sobre a sua própria formação, a conversar sobre os conceitos que elas tem sobre os outros indivíduos”.

Manuela d'Ávila conversou com professores, alunos e secundaristas, na UniscManuela d'Ávila conversou com professores, alunos e secundaristas, na Unisc Crédito: Guilherme Athayde

A deputada Manuela d'Ávila falou ainda sobre a participação da mulher na política. Em 2014 ela foi a mais votada para a Assembleia Legislativa, com mais de 222 mil votos, número maior do que o dobro do segundo colocado, Lucas Redecker (PSDB), que obteve 96.561 votos. Na época, dos 55 eleitos, apenas seis mulheres conquistaram cargos no Legislativo. Para Manuela, as reproduções diárias do machismo, como o entendimento de algumas pessoas de que cuidar da casa e dos filhos é atributo exclusivo do sexo feminino, são fatores que perpetuam a disparidade entre gêneros na representação política. “A mulher não tem tempo livre, porque o tempo que excede do seu trabalho ela está cuidando dos seus filhos e da casa. Qual é o tempo que ela tem para uma atividade extra, que é a política? Os homens têm esse tempo. É o tempo que eles não dedicam à casa, via de regra. Enquanto as mulheres tiverem majoritariamente responsabilidade exclusiva pela casa e pelos cuidados familiares, será muito mais difícil vermos mulheres na política”.

A deputada do PC do B também relatou que o atual momento econômico pode ser prejudicial aos avanços conquistados a duras penas nos últimos anos. “Não é casualidade que o mundo na última década tem assistido um movimento de mulheres crescente em todos os países. Pra mim, esse movimento é  sobretudo, uma resposta a crise econômica, porque as mulheres são as mais prejudicadas, as mais demitidas, as que mais sofrem com a diminuição do Estado. Volta com força esse debate sobre a diminuição das funções do Estado. Só que quem usa a creche, o posto de saúde, quem vai pra fila quando falta remédio, são as mulheres. Toda essa política de desemprego crescente, com ideia de diminuição de Estado, atinge diretamente as mulheres”. O evento na Universidade de Santa Cruz foi uma realização da Assembleia Legislativa, Escritório Especial da Mulher, Coletivo Clandestinas e Unisc.