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141 anos Santa Cruz do Sul: Resgatar a história é uma forma de comemorar

ESPECIAIS - 27/09/2019

Crédito: Divulgação

Rosibel Fagundes
[email protected] 

Santa Cruz do Sul comemora neste sábado, 28, 141 anos de emancipação. Localizado a 155 km da capital do estado, o município possui 130 mil habitantes, sendo considerada a 15ª cidade mais populosa do Rio Grande do Sul de acordo com o Censo do IBGE de 2010.  Uma das principais fontes de economia, emprego e renda é a fumicultura. A cidade também é conhecida por ter a maior Festa Germânica do estado, a Oktoberfest. Para conhecer um pouco mais sobre a criação do município, desde a chegada dos primeiros imigrantes vindos da Alemanha até seu desenvolvimento, a professora de Estudos Sociais e História, especialista em Educação, Patrimônio Histórico Cultural e diretora do Museu do Colégio Mauá, Maria Luiza Schuster faz o resgate desta história. 

Santa Cruz do Sul, 141 anos de emancipação
Por Maria Luiza Schuster 

Nossa cidade tem, em sua essência histórica, a característica do progresso. Sabemos que a Colônia de Santa Cruz criada pelo governo da província recebeu seus primeiros doze imigrantes oriundos da Europa de fala alemã em 19 de dezembro de 1849, portanto há 170 anos. Aqui chegaram e nada encontraram além de uma mata verdejante e que para o viajante alemão Robert Avé-Lallemant de tão densa e vasta tinha aspecto azulado. Ele esteve no Faxinal de Santa Cruz em 1858. Robert em seu livro se expressa assim sobre a colônia: “Começa aqui a colônia alemã de Santa Cruz. O lugar chama-se “Fachinal” e deverá ser, mais tarde, o lugar central, a Vila de Santa Cruz. Um grande quadrado assinala a futura praça principal. Mas agora só existem três ou quatro casas isoladas e as paredes mestras de uma igreja católica em construção, na praça coberta de relva verde” (p. 171). A igreja, a que Robert se refere, é exatamente a primeira igreja católica da Povoação de Santa Cruz, só inaugurada em 1863, chamada pela população de Igreja Matriz.
Imaginem que neste cenário se radicaram e muito trabalharam os imigrantes cheios de esperança e com grande desejo de progredir. Em alemão, explicavam que tinham lutado muito, dizendo “Viel geschafen!”. Impossível não trabalhar com muito esforço numa terra desprovida de confortos, mas com muitas riquezas a serem exploradas para sobreviver e tornar o novo lar agradável e obter uma vida mais qualificada. No coração carregavam muita esperança e fé. Pelo fato de que, em muitas regiões, na velha Europa somente o filho mais velho poder herdar a terra, fazia com que os demais herdeiros sonhassem em ter seu pedaço de chão. Prevalecia lá a cultura do morgadio, o “Erbrecht.” As terras ocupadas pelos imigrantes chegados a partir de 1849, na Colônia de Santa Cruz eram áreas de terra devolutas que estavam desocupadas, na encosta da Serra Geral.
Em outro trecho o médico-viajante relata a beleza natural da nossa região: “Fachinal de Santa Cruz é decerto solitário! Quando, no dia 14 de março de manhã cedo, saí para a frente da casa, parecia ter diante de mim todo um mar de ondas de mato, especialmente à esquerda, e tão verde-azul, tão extenso como a imensa superfície do oceano, em formas gigantescas e elevações, mas com a mesma profunda solitude e fascinante monotonia. Para todos os lados, um oceano de matas!” (p. 172.) Ele falava da nossa terra Santa Cruz do Sul.
Por estarmos localizados longe de um curso fluvial com forte manancial de águas, imaginou Avé-Lallemant que não poderíamos prosperar. O escoamento da safra seria muito difícil se comparado com a situação da colônia de São Leopoldo e de “nossa mãe”, Rio Pardo. A primeira, estava às margens do rio dos Sinos e a segunda, do magnífico Jacuí. Rios caudalosos e navegáveis. Na época em que não haviam estradas, estar próximo a rios navegáveis era sinônimo de prosperidade. Eram as vias de comunicação e de tráfego. Tanto o Rio dos Sinos quanto o Rio Jacuí nos ligavam a capital da província, Porto Alegre. Robert Ave-Lallemant arriscou dizer em seus relatos que os imigrantes da região tinham muita garra e trabalhavam com afinco e com certeza a falta do rio não seria problema. O que de fato o tempo comprovou. Ele suspeitava que o que poderia atravancar o progresso da Colônia de Santa Cruz, fosse a distância da capital da província e também a falta de um rio navegável banhando nossas terras, mas isso não causou nenhum problema.
A prosperidade de Santa Cruz e o empenho de seus moradores de certa forma é uma continuidade da dedicação de seus primeiros moradores. Por mais que entre os moradores atuais grande número não sejam descendentes de alemães acabaram aninhando-se nesta querência e aqui também trabalhando muito. É possível perceber o grande crescimento da região desde a criação da colônia. Claro que em alguns momentos com mais rapidez e outros momentos com menor aceleração. Podemos fazer um prognóstico feliz da colônia.
Os primeiros moradores da Colônia de Santa Cruz precisavam abastecer-se de produtos em Rio Pardo e para isso realizavam viagens que lhes absorviam dois dias de trabalho, uma vez que a distância percorrida no lombo de burros era feita em um dia de ida e outro para a volta. Era necessário levar consigo o farnel para as refeições já que no caminho não existiam locais para comprar alimentos. Paravam no trajeto para que o animal descansasse, bebesse água e pastasse e, enquanto isto, o viajante fazia com tranquilidade, em alguma sombra, a sua refeição.
Os imigrantes desde sua chegada dedicaram–se a agricultura e produziram variados produtos agrícolas tais como, trigo, milho, feijão, cevada, centeio, linho, tabaco, abóboras, algodão, batatas, arroz, cana-de-açúcar, colza (espécie de couve de onde se extrai óleo) e logo havia excedentes que eram vendidos em Rio Pardo. Posteriormente levados e vendidos nas docas da capital.
Os “lucros” gerados com o trabalho dos imigrantes na Colônia de Santa Cruz ficavam para Rio Pardo até a emancipação.

Maria Luiza Schuster, professora de Estudos Sociais e História, especialista em Educação, Patrimônio Histórico Cultural e diretora do Museu do Colégio MauáMaria Luiza Schuster, professora de Estudos Sociais e História, especialista em Educação, Patrimônio Histórico Cultural e diretora do Museu do Colégio Mauá Crédito: Rolf Steinhaus

Em 31 de março de 1877, foi baixada a Lei Nº 1079, sancionada pelo vice-presidente da Província Dr. João Dias de Castro elevou a “Freguesia de São João de Santa Cruz” à categoria de Vila. Esta lei fixava os limites do novo município, porém levou mais de um ano, até que a Câmara de Vereadores fosse instalada. Este é o momento é considerado pelo Professor Hardy Elmiro Martin, historicamente, como emancipação da Colônia de Santa Cruz.
O Município de Santa Cruz é instalado em 28 de setembro de 1878, quando é cumprida a Lei nº 1079 e a primeira Câmara de Vereadores surge na esquina das ruas S. Pedro (Rua Mal. Floriano) e Rua Taquarembó (Rua 28 de setembro), onde hoje está a Drogaria Santa Cruz. Neste mesmo prédio, oito anos antes havia nascido a “Deutsche Schule”, hoje o colégio Mauá.
A instalação da primeira Câmara coube ao Sr. Joaquim Alves de Souza, presidente da Câmara de Rio Pardo, que deferiu juramento aos seus membros. O secretário da Câmara de Rio Pardo, o vereador Virgílio Pereira Monteiro, foi o secretário da referida sessão e lavrou a primeira ata. Foram empossados os vereadores eleitos Joaquim José de Brito, Carlos Trein Filho, Roberto Jaeger, Germano Henschke, Jorge João Eichenberg e José Lopes Simões. Não compareceu para a posse o vereador Pedro Werlang. A presidência da nova Câmara ficou com Joaquim José de Brito e o secretário interino da primeira sessão extraordinária foi o vereador Trein.
O município estava dividido em 6 distritos e cada vereador tornou-se responsável por um deles. Os vereadores não eram remunerados e as reuniões ordinárias realizavam-se nos dias primeiro e quinze de cada mês.
Segundo Martin, a Picada Velha em 1853, já tinha sua primeira escola particular do professor Erdmann Richard Ernst Wolfram. No ano seguinte, mais precisamente em 24/11/1854 foi criada a Escola Pública na Alte Pikade, com o professor Adolfo Hoffmann. Entre os anos de 1870 e 1874 surgiram os atuais Colégio Mauá, Colégio São Luís (somente para meninos) e Colégio Sagrado Coração de Jesus (somente para meninas). O Colégio Mauá foi inovador naquela época por ter suas turmas mistas. A maioria das escolas tinha professores alemães e o conteúdo era ensinado nesta língua, mas o português também era ensinado. Posteriormente muitas escolas Particulares, Comunitárias e Públicas foram criadas.
As crianças normalmente iam a escola. Na época não havia lei alguma que obrigasse aos pais o envio de seus filhos as escolas. Normalmente as meninas frequentaram a escola até o quarto ano primário. Segundo as famílias da época, o suficiente para serem alfabetizadas e aprender cálculos. Aos meninos era dado o direito de mais tempo na escola. Era muito comum o abandono escolar em função da necessidade da mão de obra nos trabalhos na lavoura e serviços domésticos para ajudar a família.
Neste período não havia nenhum automóvel em nossa cidade e o transporte era feito no lombo de animais tais como burros e cavalos ou em carroças e charretes que davam um pouco mais de conforto e podiam transportar mais produtos em uma única viagem, se as estradas fossem “carroçáveis”.
Na Deutsche Schule, desde seu início em 1870, eram oferecidas vagas a alunos sem condições em forma de bolsas de estudos.
Nas colônias alemãs a escola e a igreja sempre ocuparam lugares de destaque, e não podiam faltar. Havia empenho da comunidade para que fossem construídas e mantidas. São Cruz não fugiu à regra.
Aos poucos o progresso foi chegando. João Bittencourt de Menezes relata em seu livro “Município de Santa Cruz”, que em 1º de junho de 1886 a Câmara, após muitas divergências, dirigiu ao público uma consulta, espécie de plebiscito sobre o local da construção do prédio da Câmara Municipal. Cada morador foi visitado em seu domicílio para que opinasse. Em torno de 40 não foram encontrados em casa. Construir na Praça do Carvalho ou na Praça São Pedro? Após a arrecadação de assinaturas, o resultado mostrava 77 assinaturas favoráveis a Praça do Carvalho (atual Praça da Bandeira) e 37 optaram pela praça São Pedro (hoje Praça Getúlio Vargas). Habitavam a “Vila de São João de Santa Cruz” aproximadamente 858 almas, 132 famílias e o número de casas nessa época era de 143. Em 1887, portanto, um ano depois, o número de habitantes havia dobrado.
A pedra angular da nova casa para a Câmara, a Intendência Municipal, foi lançada duas vezes, gerando confusão e desconforto entre os políticos que pretendiam levar os louros. Uma das vezes, foi lançada por pessoas simpáticas as novas ideias republicanas, querendo chamar a si a precedência do evento. Nesta ocasião os vereadores estavam ausentes do município. Na segunda vez, a pedra angular anterior foi retirada para dar lugar a uma nova e nesta ocasião estavam presentes os vereadores da Vila. Em dezembro de 1877 já estavam concluídos os alicerces da obra.
Nesta época, já havia os primeiros acertos, entre a Câmara com o governo da Província, a respeito da construção da via férrea entre a Vila e a cidade de Rio Pardo que viria a ser inaugurada em 1905, pelo Dr. Borges de Medeiros.
No final de março de 1889, a Câmara deixa de atender no prédio da esquina das ruas São Pedro e Taquarembó onde estava desde a sua fundação. É então inaugurada a Intendência Municipal, na Praça do Carvalho. A magnífica obra estava concluída. A Vila crescia, o desenvolvimento mostrava a pujança da comunidade que já apresentava um aumento de expediente e essa era razão suficiente para que tivéssemos uma Intendência Municipal com a imponência do prédio construído. O custo total da construção do edifício da municipalidade foi calculado em quarenta e cinco contos de réis.

No final de março de 1889 é então inaugurada a Intendência Municipal, na Praça do Carvalho (atual Praça da Bandeira)No final de março de 1889 é então inaugurada a Intendência Municipal, na Praça do Carvalho (atual Praça da Bandeira) Crédito: Divulgação

“Relembrar a nossa história nos torna mais ricos em cultura e nos ajuda a valorizar nossos antepassados que construíram o que usufruímos hoje. É preciso conhecer a história de “nossa aldeia” para que compreendamos a história do mundo e da humanidade. Quando não aprendemos a história local estamos sendo privados de valiosos conhecimentos. Não saber do nosso lugar, faz com que não tenhamos identificação com o espaço em que vivemos. Cabe aos professores em geral, mas em especial de História e Geografia levar o conhecimento da nossa história aos seus alunos de todos os níveis.” 
Maria Luiza Schuster