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Santa Cruz perde Arno Frantz

Ex-prefeito da cidade faleceu na manhã de ontem, de uma parada respiratória

GERAL - 13/12/2019

Considerado o maior prefeito que Santa Cruz já teve, Frantz faleceu na manhã de ontem, dia 12Considerado o maior prefeito que Santa Cruz já teve, Frantz faleceu na manhã de ontem, dia 12 Crédito: Arquivo RJ/Grasiel Grasel

Grasiel Grasel
[email protected]

Era sábado, daqueles que o calor castigava até sob uma sombra. Chego ao portão do prédio imponente, com um bonito jardim em frente. Digito o número 202 no interfone, ele toca e atende uma voz rouca do outro lado. “Quem é?”, pergunta. “Sou o Grasiel do Riovale, seu Arno, temos uma entrevista marcada!”, respondo, cheio de felicidade em ouvir a própria figura me atender. “Ah, o meu amigo!”, e desliga. Ainda mais surpreso eu ficaria ao ver que o próprio desceria para abrir o portão para mim.
Aos 97 anos, no dia 21 de setembro, Arno Frantz deu sua última entrevista para um veículo de comunicação, e eu tive o privilégio, mas agora também a tristeza, de ser o último jornalista a entrevistá-lo. Claro, o peso da idade já não lhe permitia manter uma linha de raciocínio por muito tempo e as frases lhe fugiam da mente, mas o carisma tão comum à sua conhecida personalidade continuava o mesmo. Frantz falava com alegria sobre seus feitos enquanto prefeito e transbordava orgulho pelas obras que ajudaram a definir Santa Cruz do Sul como ela é, como a construção do Poliesportivo, da Rodoviária ou da Avenida do Imigrante, que hoje são parte da identidade santa-cruzense.
Antes de começar a conversa com a figura, perguntei se poderíamos tirar uma foto, e o pedido foi aceito de pronto. Olhei pela grande porta-janela da sacada e vi que a vista não podia ser melhor: ao fundo, algumas quadras dali, ficava evidente a grande e imponente Catedral São João Batista, “bah, que baita foto!”, pensei. Pedi para o ex-prefeito se podia se posicionar um pouco mais de lado, para encontrar um enquadramento melhor, “claro, como o amigo quiser!”, respondeu. E cliquei.
Terminada a entrevista, a simpática cuidadora de seu Arno se atou a procurar registros e fotos que eu havia pedido para ilustrar a matéria. No meio da pilha de álbuns e jornais antigos, encontro uma pequena pilha de edições do Riovale Jornal, pego a primeira e olho a chamada, que noticiava a morte de sua esposa Edeltraud. Com uma velocidade surpreendente para a idade, Frantz pegou o jornal de minha mão, olhou pesadamente para a chamada e lamentou balbuciando algo que não pude entender. No fim das contas, não conseguimos encontrar uma foto como eu procurava, do ex-prefeito em uma das grandes construções que entregou ao município.

Helena e Henrique Hermany ao lado de seu Arno em uma homenagem da Emei Vovô Arno, em setembro de 2017Helena e Henrique Hermany ao lado de seu Arno em uma homenagem da Emei Vovô Arno, em setembro de 2017 Crédito: Arquivo RV/Luana Ciecelski

Quem foi Arno Frantz?
Nascido em 9 de agosto de 1922, em Linha Schwerin, hoje conhecida como Linha Andrade Neves, Arno João Frantz cresceu como um jovem popular no interior, lembrado por ser arteiro, mas também por fazer muito sucesso com as meninas e por tirar boas notas na escola. Foi eleito prefeito de 1977 a 1982 e de 1989 a 1992, o político que foi por mais tempo no cargo (10 anos), bem como deputado estadual de 1995 a 1999.
Enquanto prefeito, seu Arno entrou para história de Santa Cruz por ter sido em sua gestão que surgiram pontos importantes da cidade, que hoje definem sua identidade, como o Poliesportivo, a Rodoviária e a Avenida do Imigrante. Além disso, a personalidade do político é outro fator caraterístico, especialmente por seu bom humor, que gerava boas piadas que corriam de boca em boca entre os santa-cruzenses.
A importância do político é tanta que, em setembro de 2015, a Editora Gazeta publicou sua biografia intitulada “Seu Arno, uma fantástica história de Arno João Frantz, um político que conquistou respeito até pelo bom humor”, assinada pelo jornalista Benno Bernardo Kist. Na obra, o escritor conta a trajetória do ex-prefeito e diversas histórias por ele vividas, como no dia em que foi assassinado o amigo Euclides Kliemann enquanto dava uma entrevista para a Rádio Santa Cruz.
Mesmo a idade avançada não foi capaz de manter seu Arno longe da política. Como muitos contam, sempre que podia e a saúde permitia, ele aparecia na prefeitura para conversar com os servidores e o prefeito, garantindo que o trabalho por ele iniciado há tantos anos, tivesse continuidade. Ao contrário do que disse Frantz na entrevista publicada no caderno especial de aniversário do município, em 27 de setembro de 2019 no Riovale Jornal, “só deixo a política quando Deus quiser que eu deixe”, ele não deixa a política mesmo depois de sua morte, pois seu legado e exemplo é imortal.

Velório foi realizado no Salão Nobre do PalacinhoVelório foi realizado no Salão Nobre do Palacinho Crédito: Rolf Steinhaus

O acidente e o falecimento
No dia 19 de novembro, seu Arno sofreu um acidente em casa. Ao tentar passar na porta-janela da sacada, ele se desequilibrou e caiu sobre uma mesa, fraturando o fêmur. Por não conseguir levantar, Frantz foi levado por uma ambulância até o hospital Santa Cruz, onde passou por cirurgia para a implantação de uma prótese, se recuperou bem e foi liberado poucos dias depois.
Ao voltar para casa, infelizmente começaram as complicações. De acordo com a família, o fato de ter que ficar parado em decorrência da cirurgia fez com que Frantz começasse a acumular fluidos no pulmão e alguns órgãos passaram a não funcionar corretamente. No início da manhã de ontem, aproximadamente às 7h, uma parada respiratória acabou por levar o famoso político santa-cruzense a óbito.
Seu Arno foi velado ao longo do dia de ontem no Salão Nobre da Prefeitura, onde exerceu seu cargo de prefeito. No final da tarde, por volta das 17:30, uma homenagem foi prestada pela banda do 7º Batalhão de Infantaria Blindado (7º BIB) em frente ao prédio, de onde saiu em cortejo em um caminhão de bombeiros escoltado pela Guarda Municipal e Brigada Militar. A rota teve saída do Palacinho, deu a volta na Praça da Bandeira, passou em frente a duas de suas principais obras, a Avenida do Imigrante e Poliesportivo, chegando finalmente no Cemitério Municipal, na Avenida Independência, onde o ex-prefeito foi sepultado.

Amigos, familiares e colegas da carreira política se despediram de Arno FrantzAmigos, familiares e colegas da carreira política se despediram de Arno Frantz Crédito: Rolf Steinhaus

Construções memoráveis dos governos Arno Frantz

Ao longo de seus 10 anos à frente da prefeitura de Santa Cruz do Sul, o ex-prefeito chefiou a implantação de grandes obras, como as que beneficiaram as regiões interioranas do município levando luz elétrica a elas, o asfalto que liga a cidade a Monte Alverne e diversos trabalhos de importância para a identidade santa-cruzense, como o Poliesportivo, a Rodoviária e a Avenida do Imigrante.

Estação Rodoviária

Crédito: Rolf Steinhaus

Inaugurada em 6 de novembro de 1982, foi considerada, na época, a “obra do século”. Houveram diversas polêmicas em relação ao local adotado para a construção, no entanto, o futuro mostrou que a escolha foi acertada, levando desenvolvimento para uma nova área da cidade, junto à BR-471.

Avenida do Imigrante

Crédito: Rolf Steinhaus

Ainda em seu primeiro mandato, Frantz também criou a famosa Avenida do Imigrante. Quando passava pelo local, o ex-prefeito cismava com a presença de uma sanga no meio da cidade, o que o levou a sugerir a canalização da água e a construção de uma estrutura que cobrisse o terreno. Pouco tempo depois o projeto já se mostrava proveitoso, pois havia criado uma área na cidade para a juventude frequentar.

Complexo Poliesportivo e Cultural

Crédito: Rolf Steinhaus

Em 1989, ao dar início ao seu segundo governo, Arno começou a planejar a construção de um grande complexo que permitiria a prática de diversos esportes e apresentações culturais na cidade e, em dezembro de 1992, inaugurou o Poliesportivo, o qual foi apelidado de “Arnão”, em homenagem ao seu idealizador. Em entrevista, o prefeito Telmo Kirst disse que pretende mudar o nome do prédio para eternizar a referência a Frantz.

Com informações do livro “Seu Arno”, de Benno Bernardo Kist.

Políticos se manifestam

Helena Hermany, vice-prefeita e sobrinha de Arno
“É com muita tristeza que a gente se despede desse ídolo na política, desse exemplo, dessa pessoa sensacional que foi o tio Arno, que toda a comunidade reverencia, elogia. Os feitos dele são lembrados onde a gente chega, as pessoas lembram do bem que ele fez e tenho certeza que ele vai chegar lá em cima, no céu, com as mãos cheias de coisas boas, porque a única coisa que a gente leva dessa vida são as boas ações e com certeza ele vai ter muitas para levar junto.
A gente sente muito, ele é realmente uma pessoa que foi um exemplo, um ídolo, uma pessoa que nos deixou muitos exemplos e vai deixar muita saudade. É como se diz: Saudade é o amor que fica, e eu tenho certeza de que nos corações de todos os santa-cruzenses é esse o sentimento que tem hoje”

Telmo Kirst, prefeito de Santa Cruz e ex-vice-prefeito de Arno Frantz (em coletiva)
“Hoje é um dia sofrido para todos nós que convivemos com o Arno, que gostamos dele, que reconhecemos nele o grande cidadão santa-cruzense, um grande político e o grande prefeito que foi. Há uma verdadeira simbiose em relação ao Arno e a mim, porque, ao longo da nossa vida, nós convivemos intensamente, não somente em questões de ordem política, mas fomos realmente muito amigos, de frequentar a casa um do outro, de normalmente a gente saber onde estava o outro amigo.
Estes 97 anos foram intensamente vividos e bons, ele não deixou nem no meu primeiro governo, nem no segundo, de vir aqui no Palacinho para conversar e saber como estavam as coisas. Essa figura querida e fantástica que foi o Arno Frantz marcou uma presença muito forte na vida de todos nós. Ele foi, seguramente, um exemplo a ser seguido”

Arno ao lado de seu maior herdeiro político, o prefeito Telmo KirstArno ao lado de seu maior herdeiro político, o prefeito Telmo Kirst Crédito: Rolf Steinhaus

Edmar Hermany, vereador, ex-prefeito e herdeiro político de Arno (em coletiva)
“Nós temos muitas recordações dele, coisas boas, Santa Cruz deve muito a ele, pelo trabalho não só como comerciante que foi, mas como vereador, prefeito e deputado. Ele tem a sua história e é uma história muito linda, e nós temos que seguir este caminho.
Eu entrei na política e minha mulher entrou na política por ele, pelos caminhos dele, e o que me chama a atenção e o que quero agradecer em nome da família é o carinho que a nossa comunidade tem por ele. Seu Arno é um mito e ele ficará na história de Santa Cruz do Sul”

Sérgio Moraes, ex-prefeito de Santa Cruz e ex-adversário político de Arno Frantz
“A perda foi de um grande homem, talvez o maior político da história de Santa Cruz. Santa Cruz e a região está de luto. Foi um grande adversário, mas nunca fomos inimigos, sempre amigos. Ele foi muito importante, um homem partidário, que não trocava de partido toda hora, que tinha boa postura de deputado estadual, que aliás exerceu o cargo comigo. Foi um homem de uma conduta boa sempre”

Bruna Molz, presidente da Câmara de Vereadores (via Facebook)
“Recebo com muita tristeza a notícia da morte do eterno Prefeito de Santa Cruz Arno Frantz. Seu Arno foi um exemplo de político e de ser humano, sempre me tratou com muito respeito e carinho e sou grata sempre pelo apoio que me dava onde me encontrava. Nessa foto ele visitava a Câmara, e tive a felicidade de ouvir dele que havia torcido muito por mim. Isso por que na minha primeira eleição para Vereadora, quando fiz poucos votos, ele veio me abraçar e dizer para mim não ficar triste e não desistir, que na primeira eleição dele ele também tinha feito poucos votos mas logo na frente trilhou toda sua história na política... Eis que o destino reservou que estou no mesmo cargo de Presidente do Legislativo que ele ocupou em 1971. Obrigada Seu Arno por ser exemplo para tantas pessoas da velha e nova geração. Seu legado não será esquecido!
Meus sentimentos à família.”

Caminhão de bombeiros levou o caixão do ex-prefeito, passando por algumas de suas obras até o Cemitério MunicipalCaminhão de bombeiros levou o caixão do ex-prefeito, passando por algumas de suas obras até o Cemitério Municipal Crédito: Rolf Steinhaus