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As notas de um violino por Ana Paula Kahmann

VARIEDADES - 24/12/2019

Ana Paula Kahmann: 'o violino mudou minha existência para sempre'Ana Paula Kahmann: 'o violino mudou minha existência para sempre' Crédito: Divulgação

Sara Rohde
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Encantar, emocionar, a música pode transformar a vida das pessoas, ainda mais quando ela vem das notas de um violino. Um instrumento de cordas friccionadas que tem os tons correspondidos ao soprano da voz humana e que neste Natal levou magia aos santa-cruzenses através da violinista Ana Paula Kahmann. O convite para tocar em eventos de Fim de Ano veio através de suas apresentações deslumbrantes. Uma história com a música que iniciou ainda na infância, quando Ana morava em Porto Alegre. 
O Riovale Jornal conversou com a artista sobre o gosto pelo instrumento que está ligado às trilhas sonoras de filmes, espetáculos e está presente nos mais variados eventos. Confira a entrevista especial de Natal:

Riovale Jornal - Como começou a vida na música? 
Ana Paula Kahmann -
Eu morava em Porto Alegre e estudava no colégio João XXIII. Eles diziam que era a primeira escola construtiva do estado. Então, tem uma teoria das inteligências múltiplas, das quais uma é a inteligência musical. Era uma metodologia diferenciada de ensino onde as áreas do conhecimento são mais equivalentes, sem hierarquias. Nós tínhamos aulas de música desde a pré-escola e aula de flauta doce a partir da primeira série, onde aprendi a ler partitura. Por isso para eu ler partitura hoje é algo fluido como ler um texto. Quando vim morar em Santa Cruz, fui estudar no Colégio Mauá. E o diretor, ao saber que eu estava vindo do João XXIII, me convidou para tocar flauta no conjunto instrumental da escola. Onde fiquei até o fim do ensino médio.

RJ - E a tocar violino?
Ana -
 O interesse surgiu quando o colégio nos levou para assistir a um concerto didático com a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro. Eu tinha uns 6 ou 7 anos. E achei muito mágico. Desde o som dos violinos até o auditório com aqueles lustres brilhantes. A partir de então, comecei a escutar bastante a rádio da UFRGS que tocava só música de concerto. Era como se eu me transportasse para um mundo celestial de encanto e beleza. As vezes rolavam algumas lágrimas... O som do violino tocava fundo a minha alma. Por isso pedi para minha mãe um violino. Mas ela alegava que era muito caro e eles não tinham condições de comprar um. Até porque gastavam mais do que podiam na escola. Depois de muitos anos de insistência, ganhei um de presente de 15 anos. E isso já faz 21 anos. Desde lá não parei mais.

RJ - O que significa a música na tua vida?
Ana -
A música para mim é tudo. Porque, apesar das diferentes concepções do que é a música ela está sempre relacionada ao som. E o som é energia em vibração. No entanto, tudo é energia em vibração. Só que essa energia vibra em diferentes velocidades. Os objetos têm vibrações mais lentas e por isso os sentimos como sólidos. As vibrações do som são mais rápidas e oscilam entre 20 e 20.000 Hz, frequências podem ser captadas pelo ouvido humano. Já as vibrações das cores são trilhões por segundos e são apreendidas pelos nossos olhos. O que ocorre é que cada um dos nossos sentidos são capazes de perceber determinadas faixas de frequência. E também tem aquelas que nossos sentidos não podem captar. Isso conforme a física. Desse modo, a música é potencialmente uma experiência do divino e está presente em diversos mitos de origem do universo. Muitas religiões falam em ‘palavra criadora’ ou ‘som primordial’. Por isso, a música ocidental até a idade média e, também, em todas as outras culturas, sempre foi vista como sagrada. Nos povos da antiguidade ela era reservada aos mestres e iniciados. Seja no Egito, Grécia, Índia ou Pérsia, a música foi utilizada como forma de nos mostrar a harmonia existente no universo. E nos harmonizar. Assim, a música para mim é transcendental. Serve para religar, unir, confraternizar é como terapia. Isso porque ela afeta profundamente a alma podendo induzir disposições éticas, afetivas e morais.

RJ - Maior alegria como artista?
Ana -
Eu sou de gêmeos, mas tenho ascendente em câncer. Pode ser por isso que tenho uma sensibilidade aflorada. Sinto as emoções de forma intensa. Então, uma das minhas maiores alegrias como artista é poder tocar em casamentos, por exemplo. Não é só um trabalho. Eu fico muito feliz de fazer parte desse momento tão especial na vida das pessoas. Às vezes quase choro com os noivos, os pais ou os convidados. A mesma coisa em formatura. Ver os rostos de realização por ter vencido através de muito esforço mais uma etapa em suas vidas. Ou em festas de 15 anos poder fazer parte da materialização de um sonho. A minha maior alegria como artista é poder fazer parte desses momentos lindos. Sentir a felicidade e a emoção dessas ocasiões. Trazer beleza ao mundo.

RJ - Um momento marcante
Ana -
Acho que um dos momentos mais marcantes foi quando ganhei meu primeiro violino de presente de 15 anos. Não é só o som do instrumento. Mas o formato dele é de uma beleza indescritível. Pelo menos para mim. E o cheiro, também. A sensação de segurar um pela primeira vez. Dedilhar suas cordas. Passar o arco. Lembro até hoje. E, querendo ou não, esse fato foi um divisor de águas na minha vida. Mudou minha existência para sempre. Não sei o que eu estaria fazendo hoje se não fosse violinista. O violino é um instrumento mágico, divino. O violino e a harpa. Acho que se eu não fosse violinista seria harpista. Um dia quem sabe vou aprender a tocar harpa também.

RJ - Principais desafios
Ana -
O principal desafio está na questão financeira, pois os artistas independentes não geram mais valia e, por não trabalharem no sentido de manutenção do sistema capitalista o seu trabalho muitas vezes não é visto como profissão. Por isso, muitos músicos precisam de dois trabalhos. Muitos também atuam na educação com aulas de instrumentos. Por isso fiz licenciatura em música (além de outros dois cursos superiores), estudei violino em um conservatório na Argentina, tenho especialização em ensino de artes, mestrado em educação e estou fazendo doutorado em educação (pesquisando a relação entre música e educação em diferentes culturas). Porém, infelizmente ao contrário da educação que eu tive, a tendência é considerar a arte menos importante que as outras áreas do conhecimento. Por exemplo, com a reforma do ensino médio, só é obrigatório matemática, português e língua estrangeira. É um processo de hierarquização do conhecimento com fins econômicos. Então, apesar de eu ter três graduações, três especializações e estar fazendo doutorado, mesmo na educação musical preciso trabalhar de maneira totalmente autônoma o que gera certa imprevisibilidade. Nunca sei bem o que vou ganhar no final do mês. Nessa área é difícil conseguir carteira assinada. Em relação aos eventos, do mesmo modo, tenho que pedir metade do valor que cobra um estudante de música no nível de graduação em Porto Alegre. Metade do que seria, digamos, o ‘piso salarial’ de um violinista. Senão a maioria das pessoas aqui em Santa Cruz acha muito caro. Não percebem que não é só chegar e tocar, mas que as apresentações demandam horas de ensaio, arranjos musicais, tirar as partituras, custos de manutenção do instrumento, gasolina, entre outros. Fora todos os anos de investimento em estudos para chegar ao nível de realizar o trabalho que está sendo feito. Mas, mesmo assim, adoro o que faço. E me esforço no sentido de produzir o som mais emocionante, trazer beleza esculpindo o ar através das ondas sonoras e ajudar no sentido de deixar esses momentos marcados na lembrança para sempre.

RJ - Qual tipo de música está no repertório das apresentações? 
Ana -
Nos repertórios das apresentações estão todos os tipos de música. Em casamentos e homenagens sempre deixo os clientes escolherem de acordo com o seu gosto. Em casamentos as mais pedidas, atualmente são: Perfect e Photograph (Ed Sheeran) e Thousend Years. Também músicas dos filmes da Disney na entrada dos pajens. Claro que elas serão executadas de forma instrumental, onde o violino estará ‘cantando’ a melodia. Então, ou toco geralmente com um pianista acompanhando, ou com o Quarteto Sarabande, que é um quarteto de cordas (uma orquestra em tamanho reduzido). Porque o violino tocando sozinho é como um cantor cantando sem nenhum tipo de acompanhamento. Quando toco em recepções ou jantares (que é um tempo maior) o cliente no caso não escolhe o repertório. Já tenho alguns prontos onde constam desde músicas atuais, rock, até os clássicos da MPB, procurando tocar sempre músicas mais conhecidas e selecionadas de acordo com a ocasião. Porque no nosso imaginário o violino está relacionado à música clássica tocada por grandes orquestras. Mas ele é muito utilizado no tango, na música árabe, cigana, é um dos principais instrumentos da música tradicional guarani, dos judeus e, também, se encontra presente na música country e em muitas bandas de rock. Então, são múltiplas possibilidades.

RJ - Músicas que mais gosta de tocar?
Ana -
Nas orquestras, aulas de violino, no conservatório, tocamos basicamente música de concerto. Alguns chamam de música clássica. Mas está errado porque música clássica é a do período do classicismo. Já eu prefiro a música do período do romantismo. Mas eu escuto mais, atualmente, músicas de diferentes culturas. Que muitas vezes são chamadas de modalismo pré-tonal. Já que elas não seguem o padrão da música tonal, com sua estrutura vertical e linear. Porém, é muito difícil para nós, ocidentais, tocar esse tipo de música. Não é o que aprendemos nos cursos de música. Mesmo assim, estou tentando tocar, então, música cigana, árabe, judia, músicas de violino de outros povos. É um grande desafio. Mas é isso que gosto de tocar nas horas vagas. Quando tenho tempo de ensaiar músicas diferentes daquelas que os clientes pedem. Com certeza está ampliando muito meus horizontes de possibilidades no violino.

RJ – Fale um pouco sobre as apresentações de Natal
Ana -
Nas apresentações de final de ano tocamos junto, no repertório, várias músicas de Natal e Ano Novo, entre outras que remetem à paz, união, fraternidade e a magia relacionada a esta época. Então, neste mês de dezembro tive desde casamentos e apresentações com a orquestra até esses eventos mais específicos em empresas e apresentações no shopping. Este ano, também, foram diversas apresentações no Parque Europa. Isso com o Quarteto Sarabande, que fez abertura do evento com repertório natalino selecionado pelos organizadores, mas também com uma dupla de violino e piano para tornar mais emocionante as noites de quem foi conferir de perto as diversas atrações disponíveis no local.

RJ - Como surgiu esta oportunidade? 
Ana -
A oportunidade de tocar nas noites do evento de Natal do Parque Europa surgiu quando eu estava tocando uma vez no Max Shopping no Dia dos Namorados. Então, o João Dick veio e pediu o número do meu telefone. Ele disse que tinha observado que as pessoas estavam gostando muito da apresentação e que estava planejando um evento no qual ia ficar muito bonito nosso tipo de música. Já o Shopping Santa Cruz também organizou um mês temático em dezembro onde apresentamos canções natalinas entre outras que combinavam com a proposta.