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Retratando arte sincera e verdadeira

Cristiano Silva
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Divulgação / Joe Nunes

Artista santa-cruzense expõe mundo artístico em diversos formatos de trabalho

Buscar fazer arte nem sempre é um passo fácil. Em um país onde desde pequenas as crianças são encorajadas a, mesmo mostrando imenso interesse por música, desenho, teatro, ou qualquer outra forma de arte, não seguir os dons artísticos e quase sempre migrarem para algo que lhes dê “um futuro”, é difícil encontrar pessoas que realmente se mostrem convencidos em seguir fazendo arte e batalhando pela cultura em meio às dificuldades impostas ao segmento no nosso país. Um destes casos é Joe Nunes, artista santa-cruzense engajado em diversos projetos culturais que logo cedo se mostrou interessado por desenho.
“Eu já notei que todos os desenhistas têm um início muito parecido e a minha descoberta do desenho não foge muito disso. Fui desde os dez, doze anos de idade, o que costumam chamar de ‘Fan Boy’, um garoto fã de histórias em quadrinhos e que, de tanto ‘devorar’ gibis, acaba por começar a copiar seus personagens preferidos e depois, no bom estilo ‘do it yourself’ (faça você mesmo, em inglês), arrisca a roteirizar e desenhar suas primeiras histórias, sendo que o roteiro era o que menos importava; só uma desculpa para passar horas desenhando e gastando as folhas do caderno de desenho das chatas aulas de educação artística da escola”, enfatiza Joe, que revela ser nos Fanzines a primeira tentativa de mostrar sua arte.

Ana Kretzmann

Joe Nunes divide seu trabalho em diversas formas artísticas

“Fanzines, no Brasil, eram a resposta para aquelas centenas de caras que queriam mostrar seu trabalho para o mundo. Essa edições independentes impressas em xerox eram feitas pelos próprios desenhistas de forma artesanal e distribuídas pelos correios em uma grande rede nacional que muitas vezes se estendia pela América e Europa. Essa rede de intercâmbio multicultural me abriu as portas do universo underground de editoras independentes e da contra-cultura.”

NOVAS LINGUAGENS

Divulgação / Joe Nunes

“Anjos Urbanos” traz profundas reflexões nas pessoas
e é considerado o seu melhor trabalho pela crítica

Para Joe, a busca por novas formas sempre foi comum. “Artisticamente, minha busca por novas linguagens me levou à pintura, mesmo que isso seja também influência das HQs (histórias em quadrinhos), pois quem conhece o trabalho do britânico Dave McKean logo percebe as influências que meu trabalho sofreu desse artista. No entanto, neste começo, onde Salvador Dalí teve muita influência, comecei a construir minha própria linguagem, minha própria arte”, frisa Joe.
O artista destaca ser bastante afastado da chamada “classe artística”, visto que sua busca não é por “mercado” e, portanto, segundo o próprio, não perde seu tempo procurando agradar ou seguir essa ou aquela tendência. “Aprendi que a maioria dos artistas plásticos ou desenhistas preocupam-se demais com técnicas, o que pra mim é uma besteira, e nada sabem de pesquisa de linguagem, de estudos sociais e políticos, fatores esses que fazem com que a arte seja expressada de forma única e verdadeira, visceral, e não de forma pueril, cheia de técnicas, pesquisas de mercado e com resultados fúteis”, enfatiza.
“Minha obra não é pra mim. Ela vem de uma imensa vontade que tenho de me expressar para o mundo, portanto ela é mundana. Me causa desconforto quando vejo artistas e público tentando transformar a arte em algo sublime. Enfim, minha arte não serve para enfeitar e nem tampouco para alienar. Ela serve para fazer pensar e despertar consciências”, diz o artista.

PROJETOS

Christofer Dalla Lana

Teatro é uma das vertentes culturais que Joe apresenta

De acordo com Joe Nunes, um dos seus projetos mais duradouros e que é considerado o melhor pela crítica e por ele mesmo, são os “Anjos Urbanos”. “Deixando a modéstia um pouco de lado, sei o quanto a estética desse trabalho traz profundas reflexões nas pessoas, o quanto as incomoda e as desacomoda. Outro projeto que gosto muito é o ‘Tradução da Miséria’, onde a seriedade de minhas pesquisas e o comprometimento com as causas políticas e sociais da arte foram reconhecidos pelo Ministério da Cultura em uma exposição que acabou me levando também para a área do cinema de documentário, uma área nova e cheia de mistérios para mim, o que a torna desafiadora e excitante, enfatiza o artista, que declara estar, neste momento, em uma época de pesquisas para um futuro projeto que culminará muito provavelmente em um livro.
“Meu foco atualmente é no teatro, pois temos em nosso grupo uma trajetória muito rica, da qual estamos começando a colher os frutos de sete anos de trabalho, pesquisas e investigações cênicas. Minha entrada no teatro foi quase por acaso, mas hoje ele me dá um alcance formidável até as pessoas as quais são o fomento da minha arte, minha matéria-prima. Muitas vezes me perguntavam o porquê do meu trabalho. Hoje posso responder com clareza que é uma forma que encontrei de identificar-me em outras pessoas. Se alguém gosta do que desenho, pinto ou escrevo, é porque temos muito em comum e quem é que não está perdido nessa sociedade imensa e caótica procurando os seus pares?”