Cristiano Silva
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Cristiano Silva
A “escutadeira” Eliane Brum conta suas histórias
Escutar. Olhar para a vida das pessoas, enxergar e perceber tudo o que está além do que os olhos observam em uma primeira vista. Essa é a virtude que muitos jornalistas, escritores e repórteres buscam e que segue a linha de pensamento que a ijuiense Eliane Brum aplica, através dos seus textos, matérias e reportagens, tão conhecidas dentro do jornalismo, sobre o universo humano, como a mesma diz.
A jornalista esteve em Santa Cruz do Sul na última quinta-feira, 6 de março, na aula inaugural do Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e pôde bater um papo rápido, mas bastante revelador, sobre sua carreira/vida, que, segundo ela, jamais conseguiria não misturar a sua existência pessoal da profissional.
“Desde sempre, mesmo antes de ser jornalista, me chamava a atenção que grande parte da população estava de fora do contexto. Suas vidas e suas mortes não eram contadas, então, quando eu comecei a escrever, procurei de forma intuitiva contar essas histórias”, destacou a também documentarista, conhecida pelo trabalho “Uma História Severina”.
A gaúcha, formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), já ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem, e também é autora de um romance (Uma Duas) e de três livros de reportagem: “Coluna Prestes – O Avesso da Lenda”, “A Vida Que Ninguém Vê” e “O Olho da Rua”.
Um texto escrito na faculdade lhe garantiu um estágio no jornal Zero Hora, em 1988. Lá ficou por 11 anos. No final dos anos 1990, passou a assinar a coluna “A Vida Que Ninguém Vê”, nas edições de sábado do jornal Zero Hora, contando histórias da vida real. Deixou o jornal em janeiro de 2000 e foi para São Paulo ser repórter especial da Revista Época.
Escreveu, na revista, reportagens realmente especiais. Uma delas a marcou muito: acompanhou uma mulher nos seus últimos 115 dias de vida. O confronto com a morte a obrigou a um profundo confronto com a vida e a preparou para seguir novos caminhos. “Me lembro que após a morte da Alice, durante um ano inteiro, todos os dias em casa, eu me pegava fazendo o movimento de pegar o telefone pra entrar em contato com ela. As reportagens mexem e me alteram como pessoa”.
SENTIDO ABERTO
Divulgação
Histórias mexem com a vida de Eliane Brum, que visa
em seus trabalhos, buscar algo que a faça “sair do lugar”
Segundo ela, que escolheu jornalismo na última hora antes do vestibular, busca em suas reportagens contar a vida das pessoas – normalmente as que são deixadas de lado no contexto social padrão do jornalismo – de uma forma diferente.
“Nas reportagens eu busco enxergar como cada um vê a sua vida. Como cada um dá sentido à sua vida, e esse não é um sentido pronto, fechado. Está sempre mudando, sempre sendo construído. Me chama aatenção o que não está nos centros dos acontecimentos, pois oacontecimento em siestá no jeito de olhar e observar a situação que é, muitas vezes, invisível pra muita gente”, destacou Eliane.
“Em todas essas passagens eu queria ver isso, como cada um vê a sua vida. Como repórter, procuro documentar a história em movimento. Eu sou uma ‘escutadeira’. O lugar do repórter é de ‘escutador’”, completou a escritora, que afirmou ser muito rígida consigo, mesmo e principalmente, após já ter publicado seus textos.
“A escolha se a tua matéria vai embrulhar peixe ou virar documento é interna primeiramente, depois ela se torna externa. Interna é como você se olha, então antes de tudo essa escolha diz o quanto a gente respeita a si mesmo e ao outro; é por isso que ocorre esse processo de estar sempre me questionando. Estou sempre errando e sempre achando que poderia ter feito diferente. Acho que isso é um processo de profundo respeito com a pessoa que abre a porta da sua casa pra contar sobre a sua vida”, ressaltou Brum, que revela não existir uma fórmula para se contar uma história.
“Ao longo do meu trabalho eu fui percebendo que as perguntas eram o fio condutor, a pergunta já mostra o que tu queres ouvir. Nas reportagens não existe fórmula pronta pra nada. É impressionante como as pessoas contam sua vida, seja numa favela, numa tribo indígena ou em qualquer outro lugar. A melhor coisa de ser repórter é não saber o que tem depois que tu viras a esquina, o que vai surgir. Tem que estar aberto a não saber”.
Andressa Bandeira
Com o professor Demétrio Soster durante a aula inaugural na Unisc














