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Consertando acordes e contando histórias

Cristiano Silva
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Cristiano Silva

Drurys Pedroso desenvolve seu trabalho regado a boas histórias
 
Em 1982, ao escolher um livro de luthieria – que é a arte da especialização na construção e no reparo de instrumentos musicais – em vez de um skate, Drurys Pedroso fez uma escolha para vida: a música. “Comecei tocando com o meu pai na década de 70 em Alegrete, encarando a realidade. Ele me disse, ‘se tu quer mesmo ser músico, se tu gosta, pra ti dar valor a essa profissão tu vai ter que trabalhar muito’. Tem gurizada hoje que toca e chuta o balde porque caiu a internet em casa. Eles não sabem o que é tocar em lugares que não tem nem água pra tomar”, comenta o luthier. Em seus mais de 30 anos de estrada, Drurys sempre procurou, desde cedo, buscar sobre música nas opções que havia na época. “Eu gostava de música e de ver os amplificadores, pra ver aonde ia o fio, como chegava o som, foi a curiosidade. A partir disso, com o livro que ganhei do meu pai, comecei a arrumar os instrumentos. Meu pai tinha um problema no instrumento de sopro dele que ninguém conseguia arrumar, aí com o livro eu descobri que o instrumento estava desregulado. Disse pra um guitarrista fazer um sol maior, fui mexendo no sopro pra chegar no som e consegui recuperar. Tudo isso com 12 anos”, enfatiza Drurys.
 
CACHOEIRA ROCK CITY
 
Cristiano Silva

Luthieria recebe instrumentos de todo o estado
 
O luthier revela que tocava de tudo com o pai na época, mas foi com a mudança para a Cachoeira que o rock n’ roll entrou na sua vida. “Depois de nos mudarmos para Cachoeira, meu pai me levou, em 1983, ao show do Van Halen em Porto Alegre. Ali, parceiro, foi um divisor de águas. Eu tinha muita referência de Beatles, Jovem Guarda, Os Incríveis, mas quando eu vi o Eddie Van Halen e aquele poder de som, eu decidi que queria tocar rock n’ roll. A partir disso meu pai me passou diversas referências como Led Zeppelin, Cream e outros”, afirma o luthier, que revela ser de poucos a escolha de seguir na música. “Tem que ter coragem. Daquela turma da minha época de uns 30 colegas, só eu e outro que seguimos na música. O resto tocou só pra passar uma fase”, revela Drurys, que provoca: “No meu tempo o pessoal largou pra ter outro emprego, uns foram ser veterinário, trabalhar na Brigada… Aqui, a gurizada larga por causa das namoradas. Eles arrumam uma namorada e a primeira coisa que eles fazem é atirar os instrumentos em casa e largar tudo. Tem uns quantos assim”, analisa o luthier, que vê uma época como a grande contribuinte para uma geração de músicos da gurizada de hoje em dia: “Bom era o tempo do Vitrolão. A gurizada montava uma banda no dia aqui na luthieria e falava ‘vamos ligar para o Top’. Ligavam para o Top Gun que era um dos proprietários do bar e já tocavam no mesmo dia. Aquilo ali agitou a cena” declara o músico, se referindo ao Vitrolão Rock Bar, casa noturna roqueira que existiu na cidade entre setembro de 2007 e agosto de 2008.
 
LUTHIERIA COM OS DIAS CONTADOS
 
Sobre a luthieria que administra, Drurys Pedroso revela que ama o que faz, mas é desgastante. “Assumi a luthieria, que era do Guido, em 2003. Aí se vão 11 anos e o tempo passa. Vou ficar bem poucos anos ainda trabalhando por aqui e aí quero terminar meus dias no litoral. Tenho um projeto de restaurar carros e fazer uma luthieria lá para os mais chegados. Acho que a música também está com os dias contados pra mim. Já não tenho mais tanto gás assim pra aguentar o sereno da noite. Tenho problema de coração, fígado, tenho gota, e tem dias que não consigo tocar com certos baixos pelo peso. Devo ficar bem poucos anos ainda por aqui”, finaliza o músico.
 
HISTÓRIAS DO DRURYS
 
Cristiano Silva

Baixo Rickenbacker é uma das paixões de Drurys
 
Quem conhece o “parceiro” Drurys sabe que o cara tem história. Entre as muitas que ele me contou em mais ou menos uma hora de papo, fora as não publicáveis, uma história se trata de uma noite no antigo Van Gogh. “Me lembro de uma em que eu estava tocando com a Viúva Negra no Van Gogh. Aí a festa, que rolava no segundo andar do prédio, tinha um janelão do lado do palco da banda e ficava aberto. Uma guria sentou pra curtir a banda ali na janela e caiu! Todo mundo largou tudo na festa, foi olhar na janela e ela gritou lá de baixo podre de bêbada: ‘Olha moço! Eu não perdi a comanda!’, mostrando a comanda pra todo mundo! Tinha uma jabuticabeira ali, ela caiu no meio dos galhos, nós descemos lá embaixo pra juntar ela. Todo mundo parou, ligaram a luz e aquilo ali parou a festa. Depois de um tempo a guria continuou no local toda esfolada!”, relembra Drurys. O espaço aqui terminou, mas as histórias na luthieria não. Ah, e quem quiser ouvir umas boas histórias, bater um papo ou arrumar o seu instrumento, aqui na cidade tem o lugar certo: Rua São Gabriel, 297.