
Preparando-se desde 9 de janeiro de 2018. O CTG Lanceiros de Santa Cruz é o único representante de Santa Cruz do Sul na modalidade Danças Tradicionais Força A do Enart em 2018. A invernada que conta com os instrutores Toni Sidi Pereira e Priscila Almeida trará a temática da luta da sociedade pela igualdade de direitos, contando a história de Heráclito Americano de Oliveira, que foi figura importante na luta pela Proclamação da República e pelo fim da escravidão em Rio Pardo.
O CTG Lanceiros de Santa Cruz do Sul, de Santa Cruz do Sul, integra o bloco 4 das apresentações das Danças Tradicionais Força A, a apresentação será a partir das 19h, no palco do Poliesportivo. São 31 dançarinos de Santa Cruz do Sul, Rio Pardo e Venâncio Aires, com idades entre 16 e 37 anos. As coreografias de entrada e saída foram feitas por Gilmar Rocha e Gabriel Paez, de Santiago. Já as músicas foram feitas por dois santa-cruzenses, a de entrada por João Lucas Cirne (o Joca) e a saída por Antoni Pereira. E a pesquisa sobre a temática foi feita por um dos dançarinos do grupo, Vander Bertin. O desenho dos vestidos das prendas foi feito pela Traço Gaúcho, de Taquari. E a confecção pela costureira que já trabalha há oito anos para o grupo, Zaira Maria Arruda Brasil, de Cachoeira do Sul. O casaco dos peões foi feito pelo Jorge Santos Alfaiate, a bombacha e o colete pela Dona Célia, ambos de Santa Cruz do Sul. As botas foram compradas do Chico de Novo Hamburgo e os lenços da República Sul, de Porto Alegre.
Conforme a instrutora, Priscila Almeida, como em todos os anos eles receberam muitos dançarinos novos, mas mantiveram a base dos últimos anos. “A preparação se intensificou para a inter-regional que aconteceu no final de setembro, passamos a ensaiar três vezes por semana totalizando em torno de 12 horas por semana, pelo trabalho que vínhamos fazendo essa carga horária foi suficiente, e nesta última semana estamos apenas fazendo os últimos ajustes de cenário, de tempo cronometrado, montagem e desmontagem de tudo”, explicou Priscila.
Ela conta que a ansiedade nestes últimos dias toma conta, “é um sentimento diferente de ansiedade, de nervosismo e satisfação em ver que o trabalho mais um ano deu certo e teve seguimento”. A expectativa, segundo ela, também é das melhores, “mesmo com a questão do sorteio das danças, do desempenho dentro da pista, dominando o nervosismo, o trabalho está muito completo, contamos uma história do início ao fim e se for possível queremos superar o ano anterior”, comentou.
A TEMÁTICA
A Luta pela Proclamação da República e pelo fim da escravidão teve, em Rio Pardo, uma liderança expressiva: Heráclito Americano de Oliveira, que prematuramente deixou seu nome na História do Rio Grande do Sul.
Heráclito Americano de Oliveira se tratava de uma pessoa de muito prestígio no município, nas áreas política, social e cultural. Como jornalista, fundou o Jornal O Lutador e no ano seguinte, O Patriota. Ambos combatiam a escravidão e defendiam a Proclamação da República. Sua atuação em prol da abolição não ficou restrita aos discursos. Em 7 de julho de 1883 criou a Sociedade Sempre Viva. Seu objetivo era proporcionar diversão e danças, a cada dois meses, e angariar dinheiro para a concessão de cartas alforria aos negros ainda escravos. O quarto aniversário foi comemorado em grande estilo, com a realização da Conferência Abolicionista de Rio Pardo.
Entrada: Baile de Aniversário da Sociedade Sempre Viva. Rio Pardo, 1886… O Teatro 7 de Setembro recepcionava com todo o luxo e requinte as mais distintas famílias do lugar, por ocasião do baile de aniversário da sociedade “sempre viva”, que sob a liderança de Heráclito Americano de Oliveira angariava valores para a concessão de cartas de alforria aos escravos, objetivo maior desta instituição.
Dança, música, atrações dramatúrgicas e libertação dos cativos aconteciam no palco, preconizando a Lei Áurea, que não tardaria a chegar… Sob o olhar da sociedade Rio Pardense, o senhor Heráclito Americano de Oliveira convida todos os presentes a dançar. Com movimentos refinados, o baile segue ao som da orquestra, trazendo o luxo e o requinte dos movimentos da época. Durante o baile os músicos pausam a execução musical para que o orador o Sr. Heráclito verse aos convidados. O objetivo do baile mais uma vez fora alcançado, angariar fundos para a libertação dos escravos com a compra das cartas de alforria.
Saída – Na coreografia de saída, o CTG Lanceiros de Santa Cruz remonta à história do jornal “O Patriota”. Inicialmente mostra o sonho de Heráclito Americano de Oliveira de produzir o jornal e torná-lo campanha dos ideais de libertação. Sua produção era em tecido, em forma de sacos ou panos, para que pudessem entrar em todas as casas sem chamar a atenção daqueles que por ventura eram contra as causas abolicionistas e republicanas. Suas cores eram vermelho e azul. Remontar à história do jornal O Patriota é trazer a luta da sociedade na busca da igualdade de diretos e respeito ao próximo e à liberdade contra os preconceitos da sociedade, ideais que buscamos até hoje.
A primeira vez deles
O grupo conta com três integrantes que vão pisar pela primeira vez no palco do Enart. Eles já dançaram nas outras categorias e agora vão fazer parte do sonho do Lanceiros. Para Maria Eduarda Schoepf, de 16 anos, a ficha ainda não caiu, “danço desde os 7 anos e essa é a realização de um sonho, de poder dançar com quem sempre me espelhava, é uma grande honra poder dividir o palco com eles”. Dançando há 12 anos, Rodrigo Gabriel Maciel, de 17 anos, acredita que mesmo com o nervosismo, na hora tudo vai dar certo, “estamos nos preparando ao máximo, o grupo é muito bom, muito forte e já vem com boas colocações nos últimos anos, acredito que nosso resultado vai ser muito bom”.

Os mais experientes
A invernada conta com um casal experiente, que dança desde o antigo Fegart (que antecedeu o Enart). Denise Rêgo e Vander Bertin, têm 37 anos. Estão juntos há 21 anos e já dividiram muitos palcos de Enart. Ela participou do Fegart em 1994 e nos anos subsequentes, e Vander começou a participar da competição em 1997. Por serem de Rio Pardo dançavam nas entidades de lá, depois passaram a dançar no CTG Rincão da Alegria, aqui de Santa Cruz do Sul e foram parar no CTG Lanceiros de Santa Cruz, onde estão até hoje. A união dos dois resultou em um filho, Lucas, hoje com 18 anos, que desde a barriga da mãe já participava de rodeios e das atividades. Não precisou muito para que ele fizesse parte das invernadas desde a categoria Dentinho. E desde 2015 os três têm dançado juntos o Enart.
O casal considera a dança um vício. “Tem gente que faz academia, outros jogam futebol, nós escolhemos vir para o ensaio, principalmente por essa questão que podemos ver aqui, todo mundo conversa, arruma alguma coisa aqui e outra ali, ajeita outra lá, briga um pouco, mas no final por ser uma família resolve tudo”, comentou Vander. Os dois concordam quanto a renovação do grupo, “é importante ver esse pessoal novo entrando no grupo, porque renova o grupo e as nossas esperanças de que não vai acabar aqui, este ano, depois desse fim de semana”, destacou Denise.
Sobre a questão da idade, Denise é enfática “é só fora do tablado, porque quando entra ali todo mundo tem a mesma idade e faz a mesma coisa”. Ela fala que em toda final de Enart dá uma certa ansiedade, uma expectativa para que tudo dê certo e que todo o suor tenha valido a pena. Vander comentou que como o grupo faz tudo, algumas vezes estão preocupados com muita coisa e não podem deixar transparecer na pista, “é um concurso muito tênue para classificar para o domingo ou ficar fora”.















