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Tio Nasci: uma vida dentro do Avenida

Cristiano Silva
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Cristiano Silva

Tio Nasci incentiva atletas na beira do alambrado do Estádio
dos Eucaliptos em todos os jogos

“Vaaaamo, vaaaamo, vaaaamo!”. Quem normalmente frequenta os Eucaliptos e já ficou por volta do alambrado do estádio abaixo do pavilhão das arquibancadas em dia de jogo do Avenida, com certeza já ouviu esses gritos por lá. E, mesmo que a torcida do Avenida cante e grite palavras de incentivo, essas, especialmente, em um tom grave e gritadas repetidamente durante os 90 minutos de jogo, misturadas com alguns “Não pode sobrar ninguéém”, só pode vir de uma pessoa em específico: Sedomar Reis do Nascimento. Ou só Nascimento. Ou então Tio Nasci. Há 32 anos sendo o roupeiro dos boleiros do Periquito, Tio Nasci conhece cada canto dos Eucaliptos, e relembra o tempo que iniciou no clube. “Comecei aqui nas categorias de base do Avenida. O pessoal gostou do meu trabalho de roupeiro e no início da década de 80 o Vanderlei, que era o roupeiro da categoria profissional, saiu e eu passei então a ser o roupeiro do grupo de jogadores” destaca Tio Nasci que, antes de ser roupeiro do Avenida, foi jornaleiro, engraxate e almoxarife, essas duas últimas funções de grande ajuda para depois exercer o cargo de roupeiro. “Nos primeiro anos de clube, no inverno, as chuteiras molhavam e então eu colocava elas no forno pra secar. Como todas as chuteiras, naquela época, eram pretas, eu engraxava chuteira por chuteira, às vezes eu amanhecia aqui”, conta Nascimento.

ORGANIZAÇÃO

Cristiano Silva

Tio Nasci mantém rouparia do Estádio dos Eucaliptos limpa e organizada

O roupeiro do Avenida trouxe toda a bagagem como almoxarife para seu cargo de roupeiro no Avenida. A organização, segundo ele, é algo imprescindível não somente para um roupeiro, mas para a vida. “Muitas pessoas me acham chato, mas normalmente quem é organizado é chato. Eu vou fazer 77 anos justamente por ser organizado. Quem é organizado vive mais e tem mais saúde. Sempre se deve evitar fazer duas, três vezes, o que dá pra fazer uma vez só.” Neste domingo, Tio Nasci completa 77 anos de vida “bem vividos” segundo ele. “Eu brinco que sempre me dei muito bem com as mulheres, deve ser porque nasci no Dia Internacional da Mulher”, sorri o roupeiro do Avenida.
Em mais de três décadas dentro do clube santa-cruzense, Nascimento conheceu diversos treinadores, jogadores, coleciona histórias e conviveu com todos os tipos de pessoas, das mais fechadas e difíceis de conviver, às mais humildes e simpáticas. Destas últimas, duas figuras são lembradas com carinho pelo roupeiro: Silvio Hickmann e Rodrigo Caetano. “Nunca vou esquecer esses dois profissionais que passaram por aqui. O Silvio, na época de jogador, nunca me pediu pra engraxar chuteira e nunca reclamou. Ele comprava uma chuteira e usava ela em casa pra ir amaciando, tinha chuteira de jogo, tinha chuteira de treino, e depois, como supervisor de futebol, mostrou todo o lado humano dele, merece o sucesso que teve”, comentou Tio Nasci sobre Hickmann, este que trouxe, na época de gerente de futebol, Rodrigo Caetano, hoje famoso diretor-executivo de futebol, para jogar no Avenida em 2000. “O Silvio me chamava de ‘véinho’ e um dia ele chegou em mim e disse ‘Véinho, está chegando um craque aí, quero que tu trate ele bem ele’, aí eu disse que trataria bem sim, assim como todos. Esse craque era o Rodrigo Caetano, que logo de cara pegou minha amizade, foi educado comigo, e trouxe essa educação de berço. Gostaria de um dia encontrar com ele”, afirma Nascimento.

AVENIDA 2015

Cristiano Silva

Tio Nasci crê na permanência do Avenida ne elite do futebol gaúcho

O Gauchão 2015 chegou à sua metade. O Avenida hoje se encontra na 15ª colocação dentro da zona de rebaixamento para a Divisão de Acesso 2016. Perguntado se o Avenida ainda consegue escapar do rebaixamento, Tio Nasci não tem dúvidas: “Eu não acho, eu tenho certeza que nós vamos continuar na Primeira Divisão. O ambiente está bom, o Alfinete tem se demostrado uma pessoa educada, inteligente, e a forma que ele chegou trabalhando, procurando ser amigo logo, é bom e precisava essa transformação. O preparador físico Rogério também, que é um senhor de idade já, mas muito brincalhão, então o ambiente está legal” comentou Nascimento, que destacou a mudança na relação com os atletas. “Se está ruim, normalmente estoura no roupeiro e os jogadores reclamam: ‘Tio Nasci, essa meia não tá boa’ ou ‘esse calção não tá legal’. Agora se o ambiente está bom não reclamam de nada”, sorri o roupeiro avenidense, que não esconde a tristeza com o momento anterior à vitória contra o Caxias, no clube. “Antes eu estava bem chateado. Eu sei a força que a diretoria está fazendo, então eu estava chateado porque o Avenida é minha segunda casa. Às vezes chegava em casa procurando esconder que estava triste, mas minha mulher via e me questionava, porque ela via minha tristeza, mas graças a Deus o ambiente melhorou”, destacou Tio Nasci, que finalizou: “Eu só vou parar quando alguém mandar eu parar ou a saúde não der mais.” Que siga por muitos anos Tio Nasci!