
Durante longo período, os times sul-americanos (clubes ou seleções) derrotavam seus concorrentes europeus e conquistavam os títulos mundiais. Em tempos recentes, tem sido mais difícil para a América do Sul reproduzir seus grandes momentos dentro do futebol. Em matéria de clubes, os últimos vitoriosos foram o São Paulo de 2005, o Inter de 2006 e o Corinthians de 2012. Muito pouco para nosso continente, mas isso reflete uma lógica clara: os grandes clubes europeus possuem condição financeira diferenciada para montar verdadeiras seleções mundiais.
Em certa ocasião, ouvi um jornalista argentino dizer: “Antes, tínhamos grandes equipes na América do Sul, como o Nacional de Montero Castillo. Agora já não é mais assim”. O Nacional de Montevidéu (Uruguai) foi campeão da Copa Libertadores e do Mundial Interclubes em 1971. A lista de clubes sul-americanos campeões mundiais se estendeu nas primeiras décadas de disputa, a partir de 1960: Peñarol, Santos, Independiente, Racing, Estudiantes, Boca, Olimpia, Flamengo, Grêmio e River, além do Nacional.
Há pouco tempo, eu tive a satisfação de conversar com um antigo torcedor uruguaio, identificado com o Nacional. Ele lembrou a escalação da equipe em 1971 no velho esquema 2-3-5, como muitos uruguaios (especialmente os antigos) gostam de escalar: Manga no gol; Ancheta e Masnik como defensores (2); Ubiña, Montero Castillo e Blanco nas posições de médios (3); Cubilla, Espárrago, Artime, Maneiro e Morales como jogadores mais ofensivos (5).
Na prática, o time jogava no esquema 4-3-3, que se confunde com o 2-3-5, o originalíssimo esquema do futebol. Ubiña (lateral-direito), Ancheta e Masnik (zagueiros centrais) e Blanco (lateral-esquerdo), formavam a linha de quatro defensores. Montero Castillo (centromédio), Espárrago e Maneiro (meias) compunham o trio de meio-campo. Cubilla (ponta-direita), Artime (centroavante) e Morales (ponta-esquerda) eram os três atacantes.
O torcedor com quem conversei descreveu o time da seguinte forma: “A equipe do Nacional era muito sólida na defesa, realizava uns cinco ataques durante a partida e, desses cinco ataques, podia marcar três gols e liquidava o adversário”. Dessa equipe, o goleiro brasileiro Manga veio jogar no Internacional (depois no Grêmio) e o zagueiro Ancheta defendeu o Tricolor gaúcho. E por que tantos gols em tão poucos ataques? Uma das explicações estava no centroavante argentino Artime, um goleador extraordinário que, entre outras equipes, defendeu o Fluminense e o Palmeiras. “Artime era um cavalheiro”, conta o torcedor, que conheceu o artilheiro pessoalmente. Os ponteiros, Cubilla e Morales, também me foram muito elogiados por esse antigo torcedor. Cubilla, que depois virou grande treinador, era uma espécie de Garrincha uruguaio, um ponteiro driblador que passava a bola entre as pernas do adversário “quando queria”, diz o torcedor. Morales era um exímio finalizador, grande chutador, que depois virou “técnico de chutes a gol” do Nacional. Diz esse torcedor que ele teria sugerido a ideia para um dirigente do clube. Interessante, não é verdade?
Por Nelson Treglia
(OBS.: Semana passada, a Fifa reconheceu os títulos mundiais dos campeões da Copa Intercontinental, incluindo o Grêmio de 1983)














