LUANA CIECELSKI
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De um lado, há a necessidade do desenvolvimento, de se melhorar e ampliar as estradas para que elas comportem a quantidade de veículos que é cada vez maior, para que elas levem em segurança as produções e as pessoas a seus destinos. De outro lado, porém, há a natureza, fundamental para a vida do homem e que já estava ali muito antes dele chegar, a natureza que já foi tão agredida. Esse é um impasse comum há muitos lugares e não apenas no Brasil. E é um impasse que está acontecendo também em Santa Cruz do Sul.
O problema acontece junto há duplicação da RSC-287, nas proximidades do Trevo Fritz e Frida. Mais especificamente no trecho em frente à sede da Polícia Rodoviária Estadual. A duplicação já está acontecendo pelo entorno do local, mas se depender de Geraldo Eidt, um industriário aposentado, 66 anos, junto à sua propriedade – que fica exatamente à frente da sede da polícia -, ela não vai acontecer, a menos que algumas medidas de proteção à natureza sejam tomadas.
O motivo é a existência de uma nascente de água no local, bem na margem da estrada, além de uma área no entorno da nascente que foi determinada como sendo de Preservação Permanente (APP) em 2007. Isso tudo está na propriedade de Geraldo e ele depende dessa água para o abastecimento de seus açudes, consumo próprio e de seus animais, porque não possui água encanada. Porém desde que as obras de duplicação chegaram nessa região a qualidade da água já sofreu alterações, afirma Geraldo. “O peso das máquinas circulando, e os trabalhos de escavação no entorno estão afetando o lençol freático e consequentemente a nascente. Já é possível ver um acúmulo de detritos na água e isso já provocou a morte de peixes”, diz.
Por isso, há algumas semanas ele iniciou uma manifestação. Montou algumas estruturas com galhos de árvores no acostamento da estrada numa tentativa de impedir a passagem das máquinas pelo local. Ficou ali durante um tempo, mas se sentindo humilhado por alguns trabalhadores que derrubaram as madeiras e riram de sua manifestação, ele desistiu. Nessa semana, porém, a chegada de uma notificação da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR), com uma cobrança no valor de R$ 2.475,00 por ter impedido a passagem das máquinas durante alguns dias, fez com que ele voltasse à sua manifestação. “Agora só saio daqui morto”, ele afirma.
No outro lado da história está a EGR. E ela garante que não há motivos para parar a duplicação no local, porque a obra tem uma licença ambiental emitida pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). Eles também confirmam que uma notificação foi enviada ao produtor, mas apontam que, se uma multa foi emitida, ela partiu da empresa licitada para fazer a obra, o Consórcio Ebrax-Iccila. O Consórcio Ebrax-Iccila, porém, não foi localizado até o fechamento dessa edição para manifestar sua posição sobre o caso.
DESDOBRAMENTOS
Agora, porém, tanto Geraldo, quanto EGR aguardam os desdobramentos dessa situação. A partir de um pedido feito pelo Ministério Público, no início de setembro uma equipe da Fepam de Santa Cruz do Sul foi até a propriedade e analisou o local. A partir disso foi elaborado um relatório que foi enviado para a Fepam de Porto Alegre para análise. O resultado deve sair nos próximos dias e a partir disso deverá ser apontada uma solução.
Enquanto isso, a EGR garante que as obras que acontecem no entorno continuarão. A assessoria de imprensa do órgão aponta que toda a situação está sob controle e que a manifestação não está causando nenhum atraso no trabalho, porque ela acontece em vários pontos simultaneamente. A previsão de entrega da duplicação e do viaduto, portanto, continua sendo o fim desse ano.
Geraldo, porém, também está firme. Ele aponta que não deseja impedir o desenvolvimento, mas que não pode deixar que destruam o ecossistema que existe ali, ou que afetem a nascente. “A nascente estava ali muito antes da chegada das pessoas e eu dependo dela, mas além disso, há uma questão histórica também, porque a estrutura de captação que existe aqui foi construída por imigrantes”, ele conta. “Sem contar os animais que vivem aqui ou vem todos os anos para se reproduzir, como é o caso dos corvinhos”.
O aposentado também está recebendo ajuda de amigos e de um advogado e garante que vai recorrer em relação a essa multa que está sendo cobrada. “Eu não queria confusão, mas já recebi até ameaças de que vão fechar o meu acesso, então não posso deixar assim”. Ele também aponta que conhece uma solução para o problema. “Ele poderia utilizar as máquinas que têm para cavar uma valeta até o ponto da vertente, canalizar o curso da água com algum material especial e fazer uma proteção, que pode ser com pedras. Depois o concreto pode ser aplicado em cima e a duplicação pode acontecer normalmente”.














