LUANA CIECELSKI
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O Exército Brasileiro tem como uma de suas missões se manter preparado para atender toda e qualquer demanda que a sociedade possa ter. E eu, por minha vez, no dia 2 de outubro, uma terça-feira, fui incumbida de uma missão diferente e especial: acompanhar um pouco das atividades de treinamento do 7º Batalhão de Infantaria Blindado de Santa Cruz do Sul (7º BIB). Todos os anos, o 7º BIB coloca em prática um cronograma de exercícios que são divididos em três fases principais: a formação básica – que acontece logo após a chegada do soldado ao quartel -, a qualificação – que visa habilitar cada um dos soldados a ocupar cargos diferentes dentro da organização -, e o adestramento – que capacita os soldados de cada unidade de acordo com a concepção estratégica do Exército Brasileiro. Conforme explicou o comandante do batalhão, o tenente coronel Christian Augusto dos Santos Cravo, a atividade que eu acompanharia fazia parte dessa última fase, ou seja, a de adestramento.
A ideia era fazer um exercício que colocasse o máximo do efetivo do batalhão no campo de instrução – localizado na divisa entre Santa Cruz do Sul e Rio Pardo, na Estrada dos Couto – e paralelamente a isso, manter o funcionamento das atividades administrativas com o mínimo de efetivo. “Estaremos testando a nossa organização pessoal e material”, explicou Cravo. Chegando no campo de instrução, seria simulada uma ocupação de zona de reunião. “Quando uma tropa vai fazer um ataque ou uma operação militar, ela pode tomar uma posição, onde cada uma das companhias vai fazer a defesa dos setores, e onde o batalhão vai se reunir e preparar as armas para uma ação seguinte”. Paralelamente a isso os soldados receberiam instruções de revisão de procedimentos com blindados e com armamento. A saída, apesar do chuvisqueiro que insistia em cair naquele chove não molha, estava marcada para as 10 horas. E eu fui junto. Veja como foi:
ORIENTAÇÕES
As primeiras instruções foram dadas ainda no pátio do Regimento Gomes Carneiro, na sede do 7º BIB. O tenente-coronel Cravo lembrou a todos os 500 homens que seguiriam para o campo e também os 293 que ficariam no batalhão, sobre suas tarefas e obrigações. Aos que iriam para o treinamento externo, foi fortemente destacada a necessidade de cuidados com a segurança e a saúde. Entre outros pedidos, Cravo solicitou que ficassem atentos aos animais peçonhentos e que tivessem cuidado com o armamento, utilizando sempre os equipamentos de segurança.
O EMBARQUE
Esse foi um dos momentos de maior expectativa para mim, que nunca havia andado em um tanque de guerra. Depois de “vestida” com o capacete e com o cinto onde eu levaria a minha marmita e o meu cantil de água, fomos até onde os blindados estavam estacionados e sendo ligados. Antes de entrar, o comandante alertou sobre mais alguns cuidados com a segurança dentro do veículo (dados mais para mim, a novata), como por exemplo, a utilização de protetores auriculares, por causa do barulho que o veículo faz. Em cada blindado cabem 11 homens ao total. Nove deles sentados, um dirigindo, e um na parte superior, junto da metralhadora. No total, 22 blindados se deslocariam até o campo de instrução, além de outros veículos do 7º BIB.
CURIOSIDADE: os blindados são movidos a diesel e eles tem um consumo médio de 1 a 1,5 quilômetros por litro. Por isso, quando é preciso leva-los através de grandes distâncias, eles precisam ser transportados em caminhões especiais para isso.
O TRAJETO
Dentro do blindado, a escotilha foi aberta, de forma que eu, o comandante e mais um dos homens, pudemos ir de pé. A ideia era que eu fotografasse a longa fileira de blindados que se formou. E confesso, esse foi um dos momentos mais especiais. Subi em um dos bancos para fazer algumas fotos mais do alto enquanto o comandante ajudava a me manter equilibrada e pude ver que por onde passávamos, as pessoas paravam o que estavam fazendo para ver o que estava acontecendo, olhando então surpresas, intrigadas e admiradas com aquilo tudo. Percorremos um trajeto curto, de cerca de 4 quilômetros até o campo de instrução. Todo ele deve ter levado cerca de 15 minutos, mas de uma coisa eu tenho certeza: nunca mais vou esquecer.
A CHEGADA
O campo de instrução é constituído por alguns hectares de terra doados ao batalhão pelo Município, quando o quartel de Santa Cruz do Sul deixou de ser 8º Batalhão de Infantaria Motorizado (Bimtz) e transformou-se em 7º BIB. Essa doação foi feita porque um batalhão de infantaria blindada precisava de um espaço maior para treinamento. Chegando no local, os veículos foram todos estacionados em fileiras e os comandantes de cada companhia do 7º BIB identificaram nos mapas os locais que deveriam ocupar com suas tropas.
A OCUPAÇÃO
Teve iniciou então, efetivamente, a ocupação da zona de reunião. Eu chamaria essa etapa de ‘montar o acampamento’, porém, conforme me explicou o tenente-coronel Cravo, os militares consideram como acampamentos estruturas bem maiores do que aquelas que estavam tomando forma na minha frente. Segundo ele, como o treinamento seria curto – de um dia para o outro – seriam montados apenas bivaques (espécie de acampamento em que cada soldado monta o seu local para dormir) com capas de chuva e barracas no estilo iglu. Um acampamento de verdade teria grandes estruturas com lonas, dormitórios, cozinha, etc. Também foi montada uma espécie de tenda para o comando fazer reuniões. Essa tenda é acoplada ao blindado dos oficiais.
O ALMOÇO
Quem está na chuva vai se molhar, e quem está em um exercício militar precisa preparar e comer sua ração. E foi o que eu fiz (com uma grande ajuda do tenente Alexandre Bandeira). Ele me apresentou ao kit de rações que cada militar ganha nesse tipo de atividade. Elas vêm com saquinhos calculados para cada uma das refeições do dia. Os alimentos vêm cozidos mas conservados, de forma que se pode comer frio ou quente. Para aquecê-los, dentro do kit também vem um fogareiro e um álcool gel que a gente acende, mas que não dá chama nem fumaça (achei demais). Aquecemos os alimentos dentro do saquinho ou direto nas marmitas. O sabor… a definição dada pelo tenente Bandeira ajuda a explicar: “não é a comida da mãe, mas é boa até”. Meu almoço foi um strogonoffe de frango. Acreditem.
O TREINAMENTO
Todos satisfeitos e louça lavada, é hora de fechar as barracas e seguir para a série de treinamentos que seriam dados ao longo da tarde. Acompanhei um pouco da instrução referente ao desatolamento de blindados. Olha, não é tarefa fácil tirar um negócio daqueles da lama! Mas existe técnica pra tudo! Me chamou a atenção o cuidado com a segurança. Em mais de uma ocasião o instrutor fez questão de ressaltar que, se um blindado estraga, ele pode ser consertado, mas se um soldado quebra um dedo ou uma mão ou se fere ainda mais seriamente, o conserto é mais difícil, quando não deixa sequelas e dificuldades pra vida toda. A segurança, portanto, em primeiro lugar! Além desse treinamento, houve também instruções relacionadas à baliza de blindados e camuflagem deles, além de uma caminhada de 16 quilômetros.
HORA DE IR EMBORA
Já era quase 15 horas, meus pés estavam cobertos de lama (as pernas, diga-se de passagem, também estavam respingadas) e eu já estava bem cansada. Para aqueles militares, entretanto, havia muita atividade pela frente. Na terça-feira eles dormiriam no campo de instrução e retornariam para o quartel na quarta-feira. Para mim, porém a ocupação de zona de reunião estava chegando ao final. Eu me despedi do comandante e segui até o carro onde seria levada de volta, em uma carona com o sub-comandante, o tenente-coronel Clairton Goelzer. Nesse trajeto, fui refletindo sobre como completar minha missão e contar tudo o que vi, e concluí que na verdade, só vivendo a experiência é que se pode saber o sentimento dela. O subcomandante agradeceu minha participação e comentou que “as pessoas acham que o Exército é uma instituição fechada, mas ela não é. Na verdade, nós gostamos do contato com as pessoas”, disse. Eu, particularmente, saí de lá feliz. Talvez, eu não consiga completar tão bem assim a minha missão de passar para as pessoas o que eu vivi, mas com certeza saí de lá com uma dessas histórias de contar para os netos.














