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A música na vida do instrumentista Ricardo Arenhaldt

Sara Rohde
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Para o baterista e instrumentista Ricardo Arenhaldt, de 52 anos, nascido em Santa Clara do Sul, a música está presente em sua vida desde sempre. Na infância, até os cinco anos, o artista falava somente alemão e o português entrou no vocabulário quando iniciou a primeira série.

Cresceu ouvindo seu pai ensaiar com a banda de baile três a quatro vezes na semana em sua residência. “A comunicação lá em casa era muito musical, porque sempre antes do almoço e do jantar, os irmãos e o pai tocavam e eu estava sempre por perto. O pai era baterista e os irmãos tocavam sopro. Assim, despertou a paixão pela música, a influência foi forte”. Com 8 anos, Ricardo já tocava bateria muito bem. Com 10 anos de idade, tocava samba naturalmente, mas ele ainda não pensava em entrar no ramo da música.

Quando completou 17 anos, passou no vestibular e foi cursar jornalismo em Porto Alegre. Chegando à faculdade, amizades novas e turmas diferentes. A maioria do pessoal tocava algum instrumento, o que incentivou a tocar com os amigos. A partir daí, notaram o talento do artista e convidaram Ricardo para tocar música alternativa e instrumental. Até então, ele mesmo diz que não sabia do seu talento musical. Naturalmente, o artista já se inseriu na cena da capital. Quando completou 19 anos largou a faculdade de jornalismo e se tornou oficialmente músico.

Durante sua estrada teve que voltar para Lajeado. Quando retornou, se dedicou a estudar música e vivia de tocar bailes. Na época, estudava oito horas diárias na bateira e também estudava piano, pois em sua opinião, um baterista não é só um ritmista que conduz a música, precisa estudar um instrumento de harmonia também. Quem deu essa dica para o instrumentista foi seu professor, o mestre Daniel Lima.

A carreira profissional iniciou aos 22 anos quando retornou para a capital e fez um som com a primeira banda da Adriana Calcanhoto. Tocou na noite e após diversos trabalhos com vários artistas, conseguiu se estabelecer com a música própria.

Perguntei sobre o gosto musical. Para Ricardo, a sua preferência é a música boa, ritmos brasileiros. “Normalmente o baterista começa tocando rock’n roll, o que é bem natural. Mas depois de um tempo ele vai se aprimorando e entendendo que os ritmos brasileiros, assim como o jazz, são ritmos que exigem muito mais coordenação, muito mais compreensão e estudo”. Os ritmos que o músico prefere tocar são os gaúchos, música regional, platina, uruguaia, argentina, gaúcha e ritmos brasileiros. “Eu adoro ouvir ritmos brasileiros, samba, MPB, maracatu, jazz e por aí vai”.

Quando começou a carreira, até os dias atuais, muita coisa mudou. Na década de 80 não existia fita VHS, nem celular. A informação não era tão acessível. As aulas de antigamente eram pessoalmente. “A gente ia ver os ídolos tocar e assim aprendíamos, vendo, dividindo, sendo amigos das pessoas. Hoje em dia a cena é completamente outra. As pessoas tem uma escola, assistem vídeos, aulas no Youtube. Hoje eu vejo que a possibilidade está mais acessível. Os instrumentos são mais acessíveis, mais em conta. A cena musical melhorou muito”.

Para o baterista, quem consegue se dirigir como artista, não só como músico, fazer arte, compor músicas, criar um grupo, uma banda diferente, como o artista fez com o Quartchêto, misturando a música regional com o mundo, com o jazz, com outras influências, vai longe. “Sempre fui inquieto na parte da criação. Não é só estudar e tocar bem, mas sim, criar o novo e isso eu também passo no Workshop”.

“Sempre fui inquieto na parte da criação. Não é só estudar e tocar bem, mas sim, criar o novo”.

A procura pela informação aumenta cada vez mais neste ramo. Os alunos, e até mesmo os próprios músicos, por exemplo, buscam informações importantes para a hora de tocar, buscam trocar uma ideia sobre experiências, como se inserir e crescer no mercado. O artista garante que para alcançar o sucesso não podemos nos acomodar e devemos sempre inovar.

Além da técnica, os instrumentos evoluíram muito. A bateria e a percussão evoluíram e baratearam comparadas com o início da carreira artística do Ricardo. “Hoje em dia, conseguimos comprar uma

bateria básica por um preço bom a nível de um instrumento antigo, o que não impede de desenvolver o conhecimento”.

O artista comenta que tem uma parceria forte com o Batera’s School. Tudo começou quando ele fez um show com Os Fagundes em Santa Cruz do Sul e a escola entrou em contato, convidando-o para realizar Workshops. Ricardo topou na hora.

O artista esteve na œltima tera-feira, no Batera's School, realizando Workshop

O instrumentista também mandou um recado para quem sonha entrar no ramo musical, quem está tentando se inserir no mercado e quem trabalha com música independente. “O caminho do artista vai se formando a medida que ele vai avançando. A verdade é que precisa ter muita fé, acreditar no que faz e antes de tudo, amar muito o que faz. Tu deves acreditar em ti, ou no teu grupo. Não deixar a magia acabar. Em uma banda deve existir a parceria, se curtir e sempre alimentar coisas boas entre os componentes. Nunca perder o amor. Para ter sucesso deve haver uma dose de fé, amor e paixão e aí os caminhos vão abrindo. Claro, ficar só em Santa Cruz do Sul esperando não adianta. Tem que correr atrás do sonho, ir para as capitais, mostrar o trabalho, aparecer nas mídias, trocar ideias e fazer parcerias com outros artistas e produtoras”. Às vezes, no primeiro momento não dá certo. Mas a persistência é tudo. “Nos primeiros quatro anos eu o Quartchêto fizemos somente laboratório e gravamos o primeiro disco, aí a gente começou a tocar. Nisso, ganhamos quatro prêmios açorianos, disco do ano, melhor disco instrumental, melhor espetáculo, ganhei o melhor instrumentista”.

O artista ainda destaca entre os seus trabalhos, em primeiro lugar, a parceria que fez com Adriana Calcanhoto durante três anos. Após, participou do Rock Unificado com uma banda de rock na capital. Em 1988, começou a trabalhar com Geraldo Flach, o cara mais importante na sua carreira, a partir desse momento tudo mudou em sua vida. Através dele, o baterista tocou com Nanna Caymmi, Ivan Lins, Luiz Carlos Borges, Rui Biriva, Os Fagundes, entre outros ícones. Desde então, Ricardo gravou todos os discos com Geraldo Flach.

Emocionado, o baterista conta que no disco mais recente do Quartchêto, a última faixa é especial, pois foi composta por Geraldo Flach nos momentos finais de vida. “Geraldo deixou uma música pra gente antes de partir”.

A música permaneceu na vida do instrumentista. Ele gravou com muitos artistas da música regional e destaca que foi uma época muito fértil, participando em mais de 100 discos. Turnês aconteceram e shows internacionais foram contratados.

Em 2001, começou com o Quartchêto e no decorrer da estrada, gravou três discos e neste mês, completa 16 anos de caminhada. Em maio de 2018 a banda vai pra Alemanha fazer sua 3ª turnê no país.