Início Especiais DIA DO PROFESSOR: A "inversão de valores" nos tempos atuais

DIA DO PROFESSOR: A "inversão de valores" nos tempos atuais

Nelson Treglia
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Desde o ano de 1993, Dislaine Spengler é professora. “São 24 anos de alegrias e desprazeres”, afirma. Com propriedade, ela conhece a realidade da escola pública no Rio Grande do Sul. Atualmente, leciona na Escola Estadual Polivalente e na Escola Municipal Leonel Brizola, nas disciplinas de Português e Inglês. Para retratar essa realidade, o ‘Riovale’ conversou com Dislaine, e ela aponta uma série de problemas que o professor enfrenta no dia a dia. Confira a entrevista:

Riovale – Dislaine, conte-nos como foi o início de sua carreira como professora.
Dislaine – O início de minha carreira foi como estar vivendo num sonho, que desde criança já alimentava. Eram dias felizes, de muitas boas colheitas, os alunos eram respeitosos, o salário era digno, os pais eram nossos parceiros, a escola era a minha primeira casa. Era lá que eu me sentia (ainda por ora me sinto hoje) realizada e feliz.

Riovale – Como é ser professor hoje? Quais as maiores dificuldades e maiores satisfações?
Dislaine – Os tempos mudaram, estamos vivendo uma época de inversão de valores, os mestres são vistos como meros instrumentos e não mais como o principal meio para se chegar a um fim: a vitória, a conquista dos educandos, seja ela profissional, seja como cidadão. As maiores dificuldades são a falta de reconhecimento de todos os lados: alunos desmotivados, pais ausentes, as direções das escolas muitas vezes estão de “mãos amarradas” em se tratando de ter autonomia para melhorar nossas condições de trabalho, os governantes não mais veem os educadores como a mola propulsora, pois ninguém consegue ter um futuro, uma profissão, sem antes ter passado pelas mãos de um professor. É triste, lamentável, mas real.

Riovale – A relação aluno-professor é mais complicada hoje do que era na sua época de aluna?
Dislaine – A relação aluno-professor está longe de ser a desejada. Muitos não têm incentivo que deveria vir de casa, muitos pais nem sabem a série ou turma que seu filho está inserido, imaginem acompanhar as atividades letivas! Na minha época de aluna, o professor era visto como um herói, era nosso espelho, alguém a quem devíamos todo respeito e admiração. Hoje, nos tratam como se fôssemos um objeto, que os auxilia quando acharem necessário. Fomos aos poucos sendo substituídos pela tecnologia. Acredito que a falha está na base, na família, depois na sociedade como um todo. Haveríamos de reverter esse quadro voltando às raízes, quando o caos se espalha, é hora de refletir e repensar se à moda antiga (uniforme, filas, orações no início da aula,…) não seria uma maneira de reverter este quadro. Para os idealizadores de uma educação, isso seria “conservadorismo”, o que abominam, mesmo obtendo estes resultados alarmantes na educação precária.

Riovale – Atualmente, na situação em que se encontra, o professor espera o quê da sociedade, seja dos governos, seja do restante da população?
Dislaine – A maioria dos “grandes pensadores” atuais em educação, os que criam as leis que devemos seguir como cavalinhos-de-carreira, sequer deram uma aula na vida, não possuem e nem vivenciam o que nós, professores, vivemos em uma sala de aula, apesar de terem tido a experiência de passar pelos bancos escolares. Começa por aí. Estamos sobrecarregados de horas-aulas, temos que nos dividir em duas, três escolas, para termos o mínimo de dignidade para sobreviver. Os pais, na maioria, veem a escola como um “depósito, uma creche”, onde apesar de tudo, ainda confiam seus filhos aos nossos cuidados, uma vez que somos multifuncionais: psicólogos, médicos, enfermeiros, babás. Sabem cobrar resultados, porém não fazem sua parte de corrigir e dar o mínimo de atenção e educação que deve sim, vir de berço. A sociedade, como um todo, está paralisada, alienada. A educação é um assunto que passou para terceiro plano. O tema já virou lugar-comum. Quanto aos governantes… O que hei de dizer? Basta ouvir os noticiários, ler os jornais… Vergonhosamente, não reconhecem que não há cidade, estado ou país que possa evoluir sem educação. Estes que hoje estão nos bancos escolares, serão nossos futuros governantes, médicos, professores, dentistas… Será?

Riovale – O momento atual do Brasil é bastante complicado, por conta da crise ética em que o país se encontra. A desvalorização do professor foi um dos passos que levou a esta crise?
Dislaine – Com certeza! Não resta dúvidas. Quando não acreditamos na educação, quando não valorizamos os professores, o que nos resta? Visualizarmos um futuro bem próximo com pessoas vivendo às cegas, uma geração habituada a não reconhecer e respeitar quem mais lhes abre portas para uma vida digna e promissora. Estamos vivendo a era do “copia e cola”, aí quando precisam usar o cérebro, ficam perdidos, não querem mais pensar aprender a pensar, apesar de nossas inúmeras tentativas. A sociedade como um todo peca quando não estimula as crianças a dar o devido valor aos professores que os incitam a pensar, refletir, concluir, ter opinião própria.

Riovale – Além da falta de valorização financeira, é preciso recuperar uma valorização moral do professor?
Dislaine – Estamos à mercê da sorte, vivendo quase como mendigos (basta observar o atual momento). Há muito se fala que ser professor, não é ter uma profissão, é ter um dom, a gente nasce pra isso, é uma dádiva. Não creio que alguém escolha ser professor pelo salário, uma vez que há duas décadas já estamos em eterna luta por melhores condições de vida, por termos um tempo a mais para nos dedicarmos em tempo integral para nossos pequenos. A cada ano que passa estamos sendo literalmente esmagados, principalmente pelos governantes. Quem de nós pode dizer que é completamente feliz exercendo as atividades inerentes com tanto descaso? Chega uma hora em que a gente cansa, e aí que me preocupa: muitos professores estão em depressão, o maior índice de câncer já está sendo comprovado que atinge estes profissionais. Quem serão os futuros educadores? Tristeza, este é o sentimento, decepção!