
Fotos: Ana Souza
Há objetos que carregam mais do que beleza. Um pano de prato bordado lembra a cozinha da avó. Uma peça em madeira preserva tradições passadas de geração em geração. Um boneco de tecido, uma vela artesanal, uma pintura feita à mão ou uma lembrança com o nome da cidade guardam histórias, afeto e o cuidado de quem transforma matéria-prima em arte.
Em Santa Cruz do Sul, esse trabalho silencioso, feito muitas vezes dentro de casa e com as próprias mãos, vem ganhando cada vez mais visibilidade. O que antes encontrava poucas oportunidades de chegar ao público hoje ocupa praças, feiras e grandes eventos do município, impulsionando a economia criativa e levando o artesanato local a um novo momento de reconhecimento.
O resultado aparece também nos números. Desde fevereiro de 2025, quando a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, iniciou as feiras permanentes de artesanato na Praça da Bandeira, os artesãos já ultrapassaram a marca de R$ 1 milhão em vendas. Recentemente, no fim de semana, na Festa das Cucas, a comercialização alcançou cerca de R$ 80 mil, um dos melhores resultados registrados até agora.
Para o secretário municipal de Cultura e Economia Criativa, Douglas Albers, o crescimento demonstra que havia uma demanda reprimida e que bastava criar oportunidades para aproximar os artesãos do público. “Os artesãos sempre produziram com qualidade. O que faltava eram espaços para vender. Nós organizamos essa etapa, abrimos portas para que eles participassem das feiras e dos grandes eventos do município, e a resposta veio rapidamente. Hoje as feiras são conhecidas, atraem cada vez mais visitantes e isso se reflete diretamente nas vendas”, afirma.
Desde o início do projeto, os artesãos passaram a participar regularmente de duas feiras mensais na Praça da Prefeitura e marcaram presença em eventos como o Salão Gaúcho, Festa das Cucas, Enart, Santa Cruz Multicultural, Dia do Patrimônio, Pratas da Casa, entre diversas outras programações realizadas ao longo dos últimos dois anos.
Em média, entre 70 e 80 artesãos expõem seus trabalhos em cada evento. Embora Santa Cruz do Sul conte atualmente com mais de mil artesãos cadastrados no Sistema Nacional de Emprego (Sine), cerca de 80 mantêm participação ativa nas feiras organizadas pelo município. Para aproximadamente 90% deles, o artesanato representa a principal fonte de renda da família.
Mais do que criar espaços de comercialização, a iniciativa também fortalece a identidade cultural de Santa Cruz do Sul. Entre as peças produzidas estão bordados, pinturas, artigos em tecido, madeira, cerâmica, bonecos, lembranças, decoração e inúmeros outros produtos feitos manualmente. Nos últimos meses, a Secretaria também passou a incentivar a criação de souvenires que remetam ao município, permitindo que turistas levem para casa uma lembrança produzida por artistas locais.
Segundo Albers, o fortalecimento do setor faz parte de uma política permanente da atual administração para incentivar a economia criativa, gerar renda e valorizar quem produz cultura. Ele afirma que o próximo passo é transformar um antigo desejo da categoria em realidade. “O sonho agora é criar o Espaço do Artesão, um local permanente para exposição e comercialização. É uma demanda antiga da categoria e a Secretaria vai trabalhar para tornar esse projeto possível.”

Da paixão pelo artesanato ao reconhecimento do público
Há mais de 15 anos no artesanato, Silvana Hoffmann, 54 anos, moradora do Bairro Santo Inácio, encontrou na atividade um espaço para expressar sua criatividade. O que começou como um hobby transformou-se em uma fonte de renda complementar e, desde março de 2025, quando conquistou a Carteira Nacional do Artesão e passou a integrar as feiras organizadas pela Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, ganhou novos horizontes.
Especializada na produção de bolsas de jeans confeccionadas com tecido reciclado, ela participou de praticamente todos os grandes eventos promovidos pelo município que abriram espaço para os artesãos, como Pratas da Casa, Dia do Churrasco, Veteran Car, Festival de Balonismo e Santa Rock Fest.
Para Silvana, mais do que vender, as feiras representam convivência, aprendizado e valorização do trabalho artesanal.”É uma experiência única. Além de expor nosso trabalho, convivemos com outras artesãs, trocamos ideias, aprendemos umas com as outras e conhecemos pessoas de muitos lugares”, disse. Ela crê que as feiras se tornaram uma vitrine para o artesanato de Santa Cruz. “Cada evento leva um pedacinho da nossa cidade para outros lugares. As pessoas compram nossas peças e elas seguem viagem. É muito gratificante saber que o nosso trabalho está chegando a tantas cidades.”
Silvana também destaca a qualidade da produção local e o apoio recebido da Prefeitura. “O artesanato de Santa Cruz do Sul está acima da média. Temos pessoas muito talentosas, que transformam tecidos, linhas e outros materiais em peças lindas. Hoje nos sentimos valorizadas por sermos incluídas em quase todos os eventos culturais da cidade”, ressaltou.
Como próximo passo, ela sonha com a criação de um espaço permanente para os artesãos, oferecendo mais conforto, estrutura e oportunidades de comercialização, além de capacitações em redes sociais para fortalecer ainda mais a divulgação do trabalho de quem vive da economia criativa.

Artesanato devolve propósito de vida e abre novos caminhos
O que começou como uma forma de ocupar o tempo acabou se tornando uma paixão, uma terapia e uma nova perspectiva de vida para a artesã Angela Márcia Rocha, 61 anos, moradora do Bairro Goiás. Hoje, ela passa horas em seu ateliê sem perceber o tempo passar, envolvida pela criatividade e pela satisfação de transformar matéria-prima em peças feitas à mão.
Antes de descobrir o artesanato, Márcia, como prefere ser chamada, trabalhava como diarista e dedicava boa parte da rotina aos serviços domésticos. Após sofrer um acidente que resultou na fratura dos dois calcanhares, passou cerca de um ano em uma cadeira de rodas. As limitações físicas permaneceram mesmo depois da recuperação, somadas a cirurgias na coluna cervical e lombar, dificultando o retorno ao trabalho e contribuindo para um período de desânimo.
Foi nesse momento que ela encontrou no artesanato um novo propósito. “Quando começo a criar, perco a noção do tempo. A imaginação flui e a gente se concentra tanto que acaba sendo uma terapia”, relata. Segundo ela, a atividade ajudou a superar a tristeza, reduziu a ansiedade e trouxe mais equilíbrio para o seu dia a dia.
Além da realização pessoal, Márcia destaca o apoio recebido da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, que ampliou os espaços de comercialização para os artesãos locais. Para ela, uma das maiores conquistas será a oportunidade de participar da próxima Oktoberfest em um espaço destinado aos artesãos. “Sempre foi um sonho expor lá dentro, mas os custos eram muito altos. Agora vou conseguir realizar esse sonho e isso é para mim uma alegria muito grande”, comemora.
Entre linhas, tecidos e ideias que ganham forma todos os dias, Márcia encontrou muito mais do que uma atividade manual. Encontrou uma forma de reconstruir a própria história e de transformar criatividade em qualidade de vida, autoestima e expectativa de um futuro promissor.

Fonte: Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Santa Cruz do Sul













