Cristiano Silva
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Ao bater na porta entreaberta do camarim do Auditório Central da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), pouco antes do início do espetáculo Tãn-Tãngo que foi promovido pela Unisc no último domingo, 4 de maio, mal poderia eu imaginar que quem abriria a porta não seria alguém da produção do show ou mesmo uma pessoa da Universidade, mas sim a grande estrela da noite: Hique Gomez. Estrelismo este que passa despercebido frente à humildade e imenso carisma do músico, tão conhecido pelo espetáculo Tangos & Tragédias ao lado do, para sempre companheiro, Nico Nicolaiewsky.
O espanto ao ver o músico foi tanto, que apenas perguntei se poderia em um minuto apenas fazer uma ou duas perguntas rápidas, ele concordou logo de cara e me disse para entrar, causando espanto até mesmo na produtora do show, que ao perguntar o que era aquilo e eu mal começar a explicar que sou repórter de um jornal da cidade e que gostaria de entrevistar rapidamente o Hique sobre o espetáculo Tãn-Tãngo, já recebeu a resposta vinda do próprio Hique Gomez. “Ele só vai fazer uma ou duas perguntinhas”, respondeu o músico, cortando minha explicação, quase como pedindo para produtora. Como se precisasse.
O SONHO DE HIQUE
Cristiano Silva

Espetáculo de Hique Gomez divertiu e emocionou público que compareceu
ao Auditório Central da Unisc no último domingo, 4 de maio

Espetáculo de Hique Gomez divertiu e emocionou público que compareceu
ao Auditório Central da Unisc no último domingo, 4 de maio
A entrevista, como eu havia prometido, rápida, foi bastante reveladora. Logo, ao ser perguntado da importância em trazer o seu projeto à Santa Cruz, Hique Gomez falou sobre o amigo Nico Nicolaiewsky e sua amizade. “A importância de fazer esse show é que estamos vivos, estamos trabalhando. E eu vou fazer todos os shows do resto da minha vida em tributo ao Nico Nicolaiewsky. Em função de todo o crescimento que tivemos como artistas juntos” destacou o artista, revelando que lembra do amigo em todos os momentos.
“Ontem eu sonhei com o Nico. Sonhei que nós iríamos ganhar um prêmio, nós nos abraçamos no palco e rodopiávamos sem gravidade” frisou o músico. Sobre o show em Santa Cruz, Hique Gomez ressaltou as boas lembranças da cidade. “Viemos tantas vezes aqui, sempre fomos muito bem recebidos, Santa Cruz sempre nos acolheu muito bem, aqui é sempre maravilhoso, sempre com cucas boas que só vocês têm” finalizou a rápida entrevista com o humor característico.
O ESPETÁCULO
Ao entrar dos músicos que o acompanhariam no espetáculo Tãn-Tãngo, Hique Gomez, sob aplausos, subiu ao palco e logo pegou o microfone para repetir o que havia me dito minutos antes na entrevista: “Este show, assim como todos os outros que farei no resto da minha vida, serão em tributo ao Nico Nicolaiewsky”. Mais palmas.
Ao iniciar das músicas, Hique Gomez apresentou um tributo ao tango tradicional misturado a música popular brasileira. Com pianos, bandonéon, percussão, contrabaixo e claro, o violino de Hique, o espetáculo Tãn-Tãngo encantou os santa-cruzense que foram ao Auditório Central da Unisc.
Logo de início, a clássica “Buenos Aires Hora Zero” de Piazzola se misturou a “Tropicália” de Caetano Veloso. San Pugliese e São Pixinguinha abençoaram a “Cariñoso”, versão no espanhol de Pugliese da música “Carinhoso” de Pixinguinha e, se os Beatles não fizeram nenhum tango ao longo de sua carreira, Hique Gomez fez por eles. Uma versão esplêndida de “Eleanor Rigby” da banda britânica animou o público.
HOMENAGEM
Cristiano Silva

Hique Gomez tocou música inspirado no livro “O Centauro no Jardim” de Moacyr Scliar.
Show contou com programação visual criada por Claudio Ramires

Hique Gomez tocou música inspirado no livro “O Centauro no Jardim” de Moacyr Scliar.
Show contou com programação visual criada por Claudio Ramires
Em meio a canções próprias, a trilha sonora do filme “A Festa de Margarette” – trilha este que venceu o prêmio de Melhor Trilha no 12° CineCeará – produzida por Hique Gomez emocionou os santa-cruzenses, e o livro “O Centauro no Jardim” do escritor gaúcho Moacyr Scliar foi alvo de uma música que representava a identificação de Hique com a criatura, que no livro de Scliar nasce centauro (metade humano, metade cavalo) em uma família de origem humana que, excluído da sociedade, aprende a tocar o instrumento tão querido por Hique: o violino.
Hique Gomez não apenas toca o tango. Ele sente, se eleva. E para completar ainda mais o show musical, os bailarino Valentin Cruz e Marlise Machado percorreram os espaços do palco apresentando números de danças tangueiras entre as canções.
Já ao final do show, Hique Gomez fez uma homenagem ao amigo Nico Nicolaiewsky tocando um de seus sons com uma imagem de Nico ao fundo no telão com as palavras de Piazzola: “Tengo una ilusión: que mi obra se escuche en el 2020” (“Eu tenho um sonho: que o meu trabalho seja ouvido em 2020”). E será, seja o trabalho de Nico, seja o trabalho de Hique, de Piazzola. Qualquer artista que cante e toque com a alma, independente do estilo, tem destaque aos ouvidos das pessoas. Santa Cruz viu e ouviu um grande espetáculo. Que não tarde muito a vermos Hique mais uma vez por aqui.














