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"Basquete brasileiro pode muito mais"

Flávio Davis, técnico principal da base do Minas Tênis, foi recebido em Santa Cruz por Gilmar Weis

Nelson Treglia
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O Projeto Cestinha, de Santa Cruz do Sul, recebeu na semana passada o técnico principal das categorias de base do basquete do Minas Tênis Clube, Flávio Davis Furtado. O profissional do clube de Belo Horizonte (MG), recebido pelo coordenador do Cestinha, Gilmar Fernando Weis, veio conversar com alunos do curso de Educação Física da Unisc e também com os técnicos e jogadores do Cestinha. Para os alunos da Unisc, Flávio falou sobre a importância de ensinar o basquete nas escolas. Em relação ao Cestinha, que mantém suas equipes competitivas com apoio da Unisc, ele tratou sobre o crescimento do projeto.

De acordo com Gilmar Weis, a visita feita por Flávio em Santa Cruz é de grande valia para o Cestinha, que trabalha na formação de jogadores de basquete. O projeto já conquistou vários títulos nas categorias de base, e a presença de Flávio Davis valoriza ainda mais o trabalho realizado. “O Flávio é o ícone das categorias de base”, garante Gilmar. Um dos objetivos do Cestinha, conforme Gilmar Weis, é buscar recursos junto à Lei de Incentivo ao Esporte. Algo que já foi tentado outras vezes, sem sucesso, mas a expectativa e a tentativa em torno dessa lei terão continuidade por parte do Cestinha.

Ao ‘Riovale Jornal’, Flávio Davis falou sobre o momento do basquete brasileiro, e sobre como o Cestinha se insere nesse contexto.

BRASIL FORA DO PAN

O ano de 2017 trouxe uma notícia triste para o basquete masculino do Brasil. Na Copa América, a seleção brasileira não obteve classificação para a segunda fase e acabou fora dos Jogos Pan-Americanos, que serão disputados em Lima, capital peruana, no ano de 2019. A desclassificação veio 30 anos após o ouro histórico no Pan de 1987, na final contra os Estados Unidos, disputada em Indianápolis.

Segundo Flávio Davis, “não é uma situação feliz para a nossa modalidade. O basquete brasileiro está passando, principalmente neste ano, por uma reformulação muito drástica com relação aos jogadores convocados, com um novo técnico. O César (Guidetti) trabalhou comigo nas seleções de base. Era um desafio novo para ele e também para vários atletas, que, pela primeira vez, estavam vestindo a camisa da Seleção Brasileira. A gente tem que lamentar essa desclassificação, mas isso é fruto de uma política, de uma organização do basquete brasileiro como um todo. Não só das antigas gestões, como também da nova gestão, que entrou agora e está ainda se dando conta do que fazer com o basquete”, explica.

As gestões anteriores da Confederação Brasileira de Basquete (CBB), conforme Flávio, não fizeram um planejamento para estabelecer uma renovação, tanto na formação de jogadores quanto na preparação de novos técnicos. “No basquete brasileiro, falta uma palavra muito importante, que é propósito. Qual é o propósito do basquete brasileiro? Formar jogadores? É ter seleções representativas? É a formação de atletas para as categorias adultas? O que se vê é cada um trabalhando de um jeito, sem um objetivo comum, sem ter um foco. Isto leva à desorganização e à falta de resultados, o que, consequentemente, nos deixa fora de um Pan-Americano”, define Flávio Davis.

Flávio participou das comissões técnicas do time masculino nos Pan-Americanos de Santo Domingo (2003) e do Rio de Janeiro (2007). Em ambas as edições, o Brasil ficou com o ouro. Flávio Davis defende uma reorganização do basquete nacional, com um propósito do que deve ser feito, “para que tenhamos os resultados que nós todos queremos”, afirma. Na Seleção Brasileira, Flávio Davis foi auxiliar de grandes técnicos como Hélio Rubens e Lula Ferreira.

CAMINHOS

Apesar da fase difícil do basquete brasileiro, Flávio apresenta uma mensagem de otimismo: “O basquete brasileiro pode muito mais. O brasileiro gosta de basquete. O brasileiro tem o biotipo para o basquete. Santa Cruz do Sul respira basquete. Eu tenho certeza que, se o Brasil se organizar bem, nós vamos ter uma modalidade muito forte. Santa Cruz, por exemplo, tem projetos maravilhosos como o Projeto Cestinha”.

Flávio Davis entende que projetos como o Cestinha apontam um caminho para a modalidade no país. Para ele, o Cestinha, assim como outras iniciativas, levam o esporte para as crianças, visando não só a formação de atletas, mas também de cidadãos. “Oportunizar o esporte para as crianças, que muitas vezes não têm o esporte nas escolas, pode criar atletas não só para jogar nas categorias de base, mas também nas categorias adultas. Nosso país poderia ser uma potência esportiva, se o esporte estivesse mais nas escolas. Mas, se o aluno não recebe essa oportunidade na escola, ela pode recebê-la em projetos como o Cestinha”, define Flávio, argumentando que o Cestinha e outras iniciativas podem levar jovens ao profissionalismo dentro de uma equipe de basquete. “Mas, se essa criança não seguir dentro do basquete, ela poderá se tornar um bom profissional em qualquer área”, projeta.

TRANSFORMAÇÃO, SONHO

Sobre a visita dele a Santa Cruz do Sul, Flávio conta que veio conversar com os técnicos e os atletas do Cestinha. “Nós viemos contribuir com o Cestinha, para que este projeto se torne cada vez mais forte. Santa Cruz é uma cidade que vive o basquete, porque tem uma história no basquete. Você vê o gosto de todos por essa modalidade. Isso tem que se perpetuar. Onde existe um grande núcleo, ele tem que se tornar mais forte”, avalia. Conforme Flávio, o Cestinha precisa do apoio de empresas para investir no projeto e realizar a transformação de pessoas, ampliando sua atuação em outras cidades da região. “A ideia é que o Minas (clube onde Flávio Davis trabalha) seja um parceiro do Cestinha.”

Flávio acredita que o sonho de jogar na Seleção Brasileira e na NBA é possível. Cristiano Felício e Raulzinho Neto, ambos revelados pelo Minas Tênis Clube, chegaram a jogar na liga profissional dos Estados Unidos.

Raulzinho já era jogador adulto do Minas aos 16 anos. Nessa mesma idade, o garoto Tiago, criado no Projeto Cestinha em Santa Cruz do Sul, é atleta do plantel adulto no clube mineiro.