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Caos se instala e população não sai de casa

Viviane Scherer Fetzer
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Lojas foram saqueadas a luz do dia

“Introduza um pouco de anarquia. Perturbe a ordem vigente e então tudo se torna um caos! E sabe, a chave do caos é o medo”, (Coringa – DC Comics). É com sentimento de medo que a população de Vitória, capital do Espírito Santo, têm vivido. Desde sábado, 4, uma situação de caos com a ausência de policiais militares nas ruas tomou conta da Grande Vitória. Tudo começou quando famílias de militares passaram a impedir a saída de viaturas, paralisando o policiamento. Os familiares estão acampados em frente a 11 batalhões em mais de 30 cidades do Estado, já que por lei os policiais militares não podem organizar greves. Eles reivindicam reajuste salarial e melhores condições de trabalho para a categoria. 
 

A insegurança fez o governo do Estado pedir ajuda ao Governo Federal que destinou mil militares das Forças Armadas e outros 200 da Força Nacional para patrulhar as ruas. Nesta quinta-feira, foram enviados mais 550 das Forças Armadas e 100 da Força Nacional. Desde sábado, mais de 270 lojas foram saqueadas e o número de assaltos e homicídios disparou, foram 87 mortes segundo o Sindicato dos Policiais Civis do Espírito Santo. A volta às aulas, prevista para segunda-feira, foi adiada. Várias repartições públicas estão restringindo atendimento. Os ônibus também pararam de circular pela Grande Vitória nesta quarta-feira. Durante a terça-feira alguns voltaram a circular, mas como os motoristas ficaram expostos à violência, os ônibus voltaram às garagens. Autoridades do Estado dizem que a paralisação é irresponsável e que os policiais devem voltar ao trabalho logo, mas isso não aconteceu em nenhuma das tentativas do Governo de pressionar o fim da paralisação.
 

Conforme Nicolas Zorzi Lima, engenheiro mecânico que reside em Vitória, “o sentimento que fica no ar é de tensão, de medo, de apreensão de que nesse silêncio todo, qualquer barulho pode ser um arrombamento ou um arrastão”. As ruas da Grande Vitória estão desertas, poucas pessoas caminham, carros quase não são vistos. Mesmo com a chegada do Exército, que foi aplaudido por um grupo de pessoas como mostra um vídeo no Facebook, a população ainda não voltou as atividades. Nicolas também conta que a empresa em que trabalha pediu aos colaboradores para que trabalhassem de casa, evitando ao máximo sair às ruas. O engenheiro mecânico mora em um condomínio próximo ao aeroporto e à Avenida Norte Sul, um lugar de movimento intenso já que a Avenida escoa o trânsito da Grande Vitória e faz uma conexão com a Rodovia do Contorno, para poder ir a Cariacica e outras cidades da região. “Agora ela está basicamente parada, não se ouve barulho, é como uma tarde de domingo em plena terça-feira”, contou Nicolas. No noite de segunda-feira era possível ouvir o barulho das folhas no chão de tão silenciosa que estava a cidade. 

Nesta quarta-feira o governador licenciado do Espírito Santo, Paulo Hartung (sem partido), fez um apelo aos policiais militares e classificou como “chantagem” o movimento que já dura seis dias e levou o caos ao Estado. Segundo ele, o motim dos policiais “é o mesmo que sequestrar o direito do cidadão capixaba e cobrar resgate”.

Saques e tensão nas ruas

Mais de 270 lojas foram arrombadas, depredadas e saqueadas desde sábado. Algumas à luz do dia, deixando empresários e trabalhadores assustados com a violência. Nicolas contou que não sai de casa desde domingo, a única coisa que fez foi ir a uma padaria que fica a 20m de onde mora. “O que o pessoal comenta nos grupos é que os mercados estão muito caóticos, tem muita fila, muito pânico, porque todo mundo quer ir ao mercado comprar as coisas e voltar rápido para casa pelo medo de assaltos e de arrastões nos mercados também”, comentou Nicolas. 

Ele contou também que os saques ocorrem a qualquer estabelecimento comercial que tenha mercadorias de valor, inclusive o que está acontecendo muito é o roubo de veículos. Arrastões em lojas de eletrodomésticos, eletroeletrônicos e postos de gasolina também são constantes. Mesmo com a chegada das Forças Armadas e Forças Nacionais, pouco se ouviu sobre a diminuição do caos. Pelo que recebe nos grupos, Nicolas explica que o efetivo ainda é baixo frente ao tamanho do acontecimento e que eles estão atuando em áreas mais centrais, nas áreas mais perigosas eles acabam nem entrando. 

Polícia Civil

De acordo com o Estadão Conteúdo, os policiais civis do Espírito Santo em Assembleia realizada na manhã de quarta-feira, 8, decidiu pela paralisação parcial dos policiais civis. Apenas 30% do efetivo deverá trabalhar, o que pode atrapalhar ainda mais os trabalhos no Departamento Médico Legal (DML) de Vitória. O movimento anunciado nesta quarta é um protesto pela morte do policial Mário Marcelo de Albuquerque. Ele foi assassinado na terça quando se deslocava de Vitória para Colatina.

Quase um desfecho

Na noite de quarta-feira, uma reunião entre secretários do governo do Espírito Santo e representantes das mulheres e das associações de classe dos policiais militares, estabeleceu um canal de diálogo para acabar com a crise na segurança pública. Segundo o secretário de Direitos Humanos, Julio Pompeu, as lideranças do movimento apresentaram uma pauta com dois pontos: anistia geral para todos os policiais, já que são proibidos de fazer greve, e 100% de aumento para toda a categoria. Ficou marcada para a tarde de quinta-feira uma nova reunião para que o governo apresente uma contraproposta.