Cristiano Silva
[email protected]
Divulgação/RJ
Décadas depois do fim da ditadura, movimento deixou
resquícios e perguntas ao povo brasileiro
Há exatos 50 anos atrás os militares tomaram conta do país. O golpe militar de 64 com certeza foi um dos marcos do século passado no Brasil, e jamais será esquecido, passe 50, 100 ou 200 anos.
O momento de lembrança daqueles dias, anos e acontecimentos, hoje retrata mais um registro histórico do período que envolveu militares, civis, diversas classes sociais, e até mesmo outros países, dentro da ditadura imposta no país entre 1º de abril de 1964 e 15 de março de 1985, que iniciou antes mesmo da data oficial.
A crise política no país se arrastava desde a renúncia de Jânio Quadros como Presidente do Brasil em 1961. O vice era João Goulart, também conhecido como Jango, que assumiu a presidência num clima político adverso. O governo de João Goulart (1961-1964) foi marcado pela abertura às organizações sociais.
Estudantes, organizações populares e trabalhadores ganharam espaço, causando a preocupação das classes conservadoras como os empresários, banqueiros, Igreja Católica, militares e classe média.
RISCO
No dia 13 de março de 1964, João Goulart realizou um grande comício na Central do Brasil no Rio de Janeiro, onde defendeu as Reformas de Base. Seis dias depois, em 19 de março, os conservadores organizaram uma manifestação contra as intenções de João Goulart. Foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu milhares de pessoas pelas ruas do centro da cidade de São Paulo.
O clima de crise política e as tensões sociais aumentavam a cada dia até que, no dia 1º de abril de 1964, tropas de Minas Gerais e São Paulo saíram às ruas.
Para evitar uma guerra civil, Jango deixou o país refugiando-se no Uruguai. Os militares então tomaram o poder. Instalava-se então a Ditadura Militar no Brasil.
“É importante ressaltar que, de certa forma, o golpe já estava se desenhando nas crises que o Brasil enfrentou com Getúlio Vargas, Juscelino e Jânio Quadros, respectivamente em 1954, 1955 e 1961. São muitos os acontecimentos que antecedem o golpe militar, ou ‘civil-militar’ como falamos atualmente” destaca o doutor em História, Éder Silveira, que também é professor do curso de História da Universidade de Santa Cruz do Sul.
Segundo Éder, o golpe no dia 1º de abril ocorreusem grandes problemas. “Goulart optou em não hesitar quando percebeu que a resistência poderia gerar uma invasão estadunidense e um grande derramamento de sangue no Brasil” enfatizou o doutor em História.
Para Éder, é evidente que não se tratava apenas de interesses militares, mas de pessoas vinculadas a diferentes setores, sobretudo grupos de direita, empresários e conservadores de dentro e de fora do Brasil.
MOVIMENTOS EM SANTA CRUZ
Divulgação/RJ
Militares comandaram o país por 21 anos
Segundo o professor de História, Olgário Vogt, durante o golpe militar, Santa Cruz do Sul era uma pequena e pacata cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul.
“Na cidade certamente não residiam mais do que 22 mil habitantes. Não havia nomunicípio sindicatos combativos ou um movimento estudantil que pudesse puxar uma mobilização”, comenta.
“A população ficou sabendo do golpe pelo rádio e por jornais, não acontecendo atos de resistência.O eleitorado do município era, majoritariamente, conservador, da qual participara ativamente setores da igreja católica, do empresariado e da imprensa” destacou Olgário, revelando que Santa Cruz, se tivesse sido consultada, em sua maioria da população, certamente teria aprovado o golpe.
“Digamos que os santa-cruzenses assistiram silenciosamente a derrubada do governo de João Goulart” ressalta o professor de História, que revela qual foi o momento de maior destaque da cidade em relação do golpe: “O episódio mais representativo ocorrido foi a cassação do mandato de dois vereadores ligados ao PTB. Eles, no entanto, tiveram seus mandatos restabelecidos. Tratou-se de um vergonhoso ato de excesso de zelo da Câmara de Vereadores. Foi uma prova de comprometimento com o regime e de autocensura dos vereadores santa-cruzenses” destacou Olgário.
DEMOCRACIA REESTABELECIDA
Nos últimos anos do governo militar, o Brasil apresentava vários problemas. Em 1984, políticos de oposição, artistas, jogadores de futebol e milhões de brasileiros participaram do movimento das Diretas Já. O movimento era favorável à aprovação da Emenda Dante de Oliveira que garantiria eleições diretas para presidente naquele ano.
No dia 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral escolheria Tancredo Neves como novo presidente da República. Era o fim do regime militar. Tancredo acabou falecendo antes de assumir, e o vice-presidente José Sarney se tornou o Presidente do Brasil.
Em 1988 é aprovada uma nova constituição para o Brasil, que apagou os rastros da ditadura militar e estabeleceu princípios democráticos no país. Com a finalidade de apurar ainda mais as graves violações de Direitos Humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988, em 2012, foi criada a Comissão Nacional da Verdade (CNV).
“Não podemos esquecer que a Ditadura implantou um Estado de exceção, no qual a censura, a ausência de direitos humanos, a instituição da tortura e da pena de morte, a corrupção e, sobretudo, o assassinato e o desaparecimento de centenas de pessoas, foram características marcantes desse Estado” destaca Éder.
“Há famílias aguardando até hoje a retratação e o direito de enterrarem seus mortos. Isso tudo faz da Comissão da Verdade uma necessidade atrelada à recente transição do Brasil à democracia e, também, aos direitos de homens e mulheres que viveram situações extremas, cujos rastros, muitas vezes, foram manipulados ou ocultados”.














