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Coisas de um pedal pela Banda Oriental

LUANA CIECELSKI
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Imagine que você está na estrada. Você está pedalando uma bicicleta. Num lugar ermo, se dirigindo cada vez mais ao sul do Rio Grande do Sul. Em um lado dessa estrada tudo o que se vê é campo. No outro lado, também. Eventualmente, mas muito eventualmente mesmo, passa um carro ou outro. Mas de repente, uma caminhonete grande e preta se aproxima. Passa por você numa velocidade abaixo daquela em que a maioria dos carros vem passando. Para cerca de 50 metros à frente. Parece que estão olhando para você. Então o carro arranca, anda lentamente por mais alguns metros, e para novamente. 

Eu aposto que muitas coisas passariam por sua cabeça. Você se perguntaria quem é o motorista. Talvez você imaginasse que está prestes a ser assaltado. Pensaria em uma possível rota de fuga. Ou talvez você imaginasse que aquela pessoa está precisando de informações. Está perdida. Afinal, numa estrada são tantas as possibilidades. Você esperaria qualquer coisa saindo de dentro do carro.  Qualquer coisa, menos a cabeça de um menino saindo pra fora da janela e gritando: “Oi dindo!”. 

Essa é uma das histórias que Demétrio de Azeredo Soster, professor universitário, escritor e cicloturista morador de Santa Cruz do Sul, viveu durante sua aventura rumo à Banda Oriental (Uruguai) de bicicleta. Essa é uma das histórias que Demétrio poderá colocar no livro que está escrevendo sobre a viagem. E faltando apenas alguns poucos dias para completar um mês de sua partida – que aconteceu no dia 13 de janeiro – cerca de dois capítulos já estão encaminhados. 

Em Montevidéu, Demétrio encontrou dois parceiros de cicloturismo, com os quais resolveu ir até Buenos Aires

Conforme relatado na edição do Riovale Jornal de 13 de janeiro, Demétrio saiu de sua casa em Santa Cruz naquele mesmo dia seguindo para o sul do Estado, rumo à divisa do Rio Grande do Sul com o Uruguai, tendo como objetivo fazer turismo no país vizinho na companhia de sua bicicleta Cannondale, carinhosamente chamada de “La Negra 2”. Ele percorreu algo em torno de mil quilômetros. Viajou durante 10 dias. Nesse tempo passou por Encruzilhada, Pelotas e pelo Chuí, até entrar no Uruguai onde, pelas Rotas 9 e 10, seguiu até Montevidéu. Chegando lá ainda partiu, na companhia de outros dois cicloturistas que conheceu na estrada, para Buenos Aires na Argentina. Essa parte do trajeto, aliás, ele não tinha planejado. 

Conforme ele conta, quando se aproximou de Montevidéu, percebeu que já tinha alcançado o objetivo da viagem e que poderia voltar. Satisfeito por ter chegado até lá. Porém, a vida é cheia de acasos e as viagens sob duas rodas também. Chegando na capital Uruguaia, Demétrio percebeu que não tinha reservado um local para passar a noite e descansar. Enquanto pedalava a procura de um hostel, se deu conta de que estava próximo a um dos principais pontos turísticos da cidade: um grande letreiro que forma a palavra “Montevideo”. Resolveu parar, pois apesar de já ter estado ali outras vezes, nunca havia feito uma foto. 

Foi então que Demétrio avistou uma bicicleta com alforges e todas as características do cicloturismo, e percebeu que mais alguém viajava. Era um brasileiro também. Ele se aproximou, começaram a conversar, Demétrio perguntou sobre a existência de um hostel, o outro cicloturista convidou Demétrio para ir até o local onde ele estava instalado com mais um amigo, Demétrio foi. Não demorou para que conversassem sobre trajetos, destinos de viagem, e quando Demétrio comentou que estava voltando para o Brasil no dia seguinte, os cicloturistas o convidaram para ir com eles até Buenos Aires. “Por que não?”, pensou o professor. 

Mas os detalhes dessa parte não planejada da aventura, você vai ter que saber quando o livro for lançado, em meados de junho ou julho. Além dela e do caso da caminhonete preta, os leitores também podem esperar histórias sobre experiências com acampamentos; sobre sustos com carros parando à beira da estrada em locais ermos; sobre outras pessoas que cruzaram no caminho do professor; sobre chuvas, subidas e descidas íngremes; sobre alforges caindo; sobre regras para quem pega a estrada de bike. O livro será voltado, portanto, para pessoas que praticam o cicloturismo, mas também para as que não praticam e têm curiosidade em ler sobre o assunto, saber como são essas viagens e como foi para Demétrio fazer esse percurso. 

Antes disso, porém, um documentário também será lançado. O registro será montado com os vídeos e fotos feitos com uma câmera GoPro, que esteve acoplada ao capacete de Demétrio durante o trajeto. Deverá ter em torno de 15 minutos. A edição será feita por Guillermo Calvin, da produtora Velvet Inc. 

O que vem pela frente

Um dos principais objetivos de Demétrio ao partir, além da aventura e do desafio em si, era bastante pessoal. Encontrar uma parte dele, de sua juventude, que ficou para trás, permanecer um tempo consigo mesmo. Ao voltar Demétrio brinca: “Quando me perguntam se eu encontrei aquele que fui buscar eu respondo que não, mas que cheguei muito perto, e que por isso vou novamente”, ele conta e ri, confessando: “Sinto muita vontade de pedalar. Eu estou aqui falando contigo, mas os meus olhos estão vendo a estrada”, conta. 

Por isso, ele já tem planos. Ainda mais audaciosos. Seu próximo projeto é seguir, em janeiro de 2018, rumo ao Chile, atravessando Uruguai e Argentina, até chegar à localidade de Valparaíso, junto ao litoral do Oceano Pacífico. Até lá, porém, tanto pelo gosto de estar na estrada quanto pela necessidade de preparação física, Demétrio pretende continuar fazendo suas pequenas incursões pela região. E quem quiser acompanhar esse processo, basta acessar o blog de Demétrio pelo link operegrinosite.wordpress.com.