
Rosibel Fagundes
[email protected]
De janeiro a abril deste ano, pelo menos seis pessoas tiraram a própria vida em Santa Cruz do Sul. O número representa um suicídio a cada vinte dias. Os suicidas todos do sexo masculino tinham entre 21 e 59 anos. Em 2018, foram registrados 21 óbitos e aproximadamente 105 tentativas. Os dados foram obtidos através do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) da vigilância epidemiológica do município. Com base no levantamento do ano passado, os idosos estão no grupo populacional de maior risco para o suicídio. Foram nove óbitos de pessoas com idades entre 60 e 89 anos.
Para a coordenadora do Comitê Municipal de Prevenção ao Suicídio, a psicóloga Marliza Schwingel, a incidência de casos é um alerta para a necessidade de prevenção nesta faixa etária. “Por conta deste resultado, nós queremos trabalhar mais ações específicas voltadas ao idoso. As atividades de prevenção devem ocorrer durante todo o ano, mas este será o foco principal do “Setembro Amarelo”, movimento mundial de combate ao suicídio. Em junho, já temos agendado uma reunião com o Conselho Municipal do Idoso. Nossa intenção é buscar ações e estratégias de integração e ocupação do idoso na sociedade. Precisamos criar atividades para tirar estes idosos de dentro de casa, e de dentro do isolamento que muitos vivem. Pois se fizermos uma autópsia psicossocial destes nove casos de suicídios veremos que muitos deles estão atrelados a fatores como a violência, seja ela, a violência física, sexual, financeira e psicológica. Tem ainda situações em que a própria vítima perpetua esta violência ao efetuar empréstimos e se endividar”, afirmou.
A taxa de suicídios entre homens também preocupa, é quatro vezes mais alta do que a registrada entre as mulheres, correspondendo a 17 do total de óbitos. “Os homens concretizam o ato mais do que as mulheres. A depressão no sexo masculino é pouco diagnosticada, por que muitos homens não procuram ajuda o que faz com que o risco de suicídio seja maior entre eles”, relatou a terapeuta ocupacional do Centro de Atenção Psicossocial da Infância e Adolescência (CAPSia) e integrante do Comitê, Daniela Gruendling. Sobre os casos envolvendo adolescentes, a profissional afirma que a maioria apresenta predisposição para o suicídio na faixa etária dos 14 anos. Embora nenhum caso tenha sido consumado nos últimos dois anos em Santa Cruz, o número de tentativas é considerado bastante grande. “De janeiro a abril foram inseridos 14 novos pacientes para acompanhamento junto ao Capsia. Dois deles foram conduzidos diretamente de hospitais após praticar algum tipo de tentativa. Os motivadores nestes casos podem estar relacionados com o sentimento de abandono, a experiência de abusos físicos ou sexuais, a desorganização familiar, problemas na escola ou em casa. Cabe ressaltar que o bullying e a falta de autoestima, estão associados fortemente ao suicídio na adolescência. O adolescente é muito ansioso e muitas vezes não sabe lidar com todas as questões que estão ao redor dele, tudo é muito intenso. Ao contrário do adulto, que normalmente planeja a ação, o adolescente age no impulso”.

Para a terapeuta, os casos de adolescentes que tiveram o suicídio incentivado via internet estão relacionados com sofrimento psíquico continuado. “A internet pode facilitar o ato e até ensina como praticá-lo, como no caso do jogo da Baleia Azul que tivemos alguns registros de automutilação aqui no município. Mas, acredito que a automutilação é um sofrimento psíquico onde não é o jogo que influencia diretamente. Pode-se dizer, que isso seja o resultado da configuração social de uma realidade atual. Sendo também uma resposta ao amadurecimento psíquico das pessoas, e ao acessar estes programas e jogos o adolescente encontra ali uma identificação ou acolhimento. Se envolve por já estar frágil. É importante que os pais ou familiares observem o comportamento dos adolescentes. Há um crescimento deste fenômeno que está dentro do aspecto do suicídio, e é uma possibilidade que pode vir depois com o suicídio na fase adulta”.
A profissional alerta que embora não exista uma resposta definitiva do motivo da pessoa desenvolver este distúrbio, o apoio de amigos e familiares faz toda a diferença e alerta para alguns que podem levar ao suicídio. “Mudanças de comportamento e nos hábitos alimentares e higiene, isolamento, desânimo, depressão, tentativas anteriores de suicídios ou em casos familiares, são sinais que devem nos deixar em alerta. E cabe ressaltar, que mais importante do que falar, neste momento, é ouvir. Opiniões podem atrapalhar”, afirmou Daniela Gruendling. Conforme Marliza, qualquer um de nós pode estar convivendo, com alguém que enfrenta este sofrimento e planeja a própria morte. “Eles não querem pôr fim a vida. Eles querem é acabar com aquele sofrimento que não tem saída ou por conta da violência, ou exploração ou por causa da própria depressão que chegou a certo patamar”.
2019 – Em quatro meses (jan. a abr.) – 6 suicídios
2018 – 21 suicídios e 105 tentativas
2017- 20 suicídios e 155 tentativas
Em Santa Cruz, diversos serviços de apoio são oferecidos a pessoas com depressão ou tendência suicida.
* Coordenação de Saúde Mental – (51) 3717 6307
* Centro de Atenção Psicossocial Infância e Adolescência (CAPS IA) – (51) 3715 2079
*CAPS II – (51) 3713 3077
* CAPS AD III – (51) 3713 3103
* Centro de Valorização da Vida (CVV) – Ligue 198














