Nelson Treglia
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Existe algo em comum entre a banda britânica The Beatles, a banda gaúcha Nenhum de Nós e a cidade de Santa Cruz do Sul. Para celebrar o Dia do Músico, 22 de novembro, o ‘Riovale Jornal’ conversou com o santa-cruzense Veco Marques, que integra o Nenhum de Nós. Em setembro, ele tocou no pub Cavern Club, onde surgiram os Beatles, que fizeram um sucesso estrondoso nos anos 60. O pub está localizado na cidade inglesa de Liverpool, muito famosa devido à banda que consagrou John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr.
“O Cavern Club é praticamente o ponto zero do que aconteceu no rock a partir dos Beatles”, explica Veco. O santa-cruzense foi chamado para tocar no pub de Liverpool pelo quarteto Nelson e Os Besouros, de Porto Alegre, que toca músicas dos Beatles. A banda da capital gaúcha convidou Veco para se apresentar no Cavern Club porque o guitarrista dos ‘Besouros’, Felipe Rotta, havia sido chamado para tocar com Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Havaii.
Portanto, em setembro, Nelson e Os Besouros se apresentaram no evento International Beatle Week, em Liverpool, contando com o trabalho de Veco Marques. “Fui convidado para ser o quarto integrante, guitarrista. Aceitei na hora”, recorda. Empolgado, Veco descreve a experiência de conhecer e tocar no célebre pub inglês: “Só entrar no Cavern Club, como um cara que gosta de música, já é sensacional. Imagina como é a experiência para quem vai para tocar”.
Veco já conhecia o local, pois ele havia estado por lá com sua mulher e sua filha pequena em fevereiro deste ano. “Só passamos uma tarde em Liverpool, para conhecer, e também visitar o museu dos Beatles”, lembra o músico santa-cruzense. Posteriormente, ao lado de Nelson e Os Besouros, surgiu a chance de tocar dentro do pub. “Imagina a sensação de quem entra para tocar, a gente fez dez shows, sendo que quatro dentro do Cavern Club”, destaca.

No total, foram cinco dias de apresentações na Beatle Week. “Foi um teste para cardíaco, para ver como funciona o coração do cara que gosta de música e principalmente dos Beatles”, garante. “É o lugar onde os Beatles são mais reconhecidos, onde foi o começo de tudo.” Veco diz que a participação no evento internacional trouxe boas lembranças dos Beatles. “Lembranças minhas, de quando comecei a ouvi-los, em Santa Cruz. Minha tia Tina tinha discos dos Beatles. Quando fui crescendo e comecei a tocar, foi uma coisa bem natural. Ter pisado no Cavern Club mexeu com uma memória bem bacana, da minha família, também como instrumentista e músico, como um cara que gosta de música”, frisa Veco Marques.
Ele assegura que toda pessoa que entra “naquele lugar sagrado”, começa a pensar em várias coisas. “O que tem de Beatles lá dentro ainda é muito forte”, define Veco. “São pessoas do mundo inteiro, que vão todos os dias, o ano inteiro, ainda mais na semana da Beatle Week. São 70 bandas do mundo inteiro tocando durante cinco dias, então a loucura é maior ainda. Todas as pessoas que vão lá têm um cantinho para os Beatles guardado no coração.”
BEATLES E NENHUM DE NÓS
Veco Marques é um dos integrantes da banda Nenhum de Nós, de grande sucesso no Rio Grande do Sul e em nível nacional. Ele considera “visível” a influência dos Beatles no Nenhum de Nós. Veco destaca a amizade entre os integrantes da banda gaúcha e o forte vínculo que eles têm com a música. Além do santa-cruzense, integram o grupo Thedy Corrêa, Carlos Stein, Sady Homrich e João Vicenti. “Todos nós somos amigos de muito tempo, sempre ouvimos muita música, sempre com as ‘antenas’ ligadas no que está acontecendo, mas também lembrando de quem foram nossos mentores”, define Veco.
Segundo ele, os integrantes do Nenhum de Nós já ouviram muito os Beatles, ouvem muito a banda britânica e acompanharam as carreiras solo deles. “Minha identificação é com George Harrison, um dos guitarristas. Era um cara muito voltado à espiritualidade através da música. Ele pesquisou muita música indiana, ele tocava o sitar, um instrumento que eu comecei a estudar e a tocar a partir da música dos Beatles”, revela Veco Marques.
Por tudo que leu a respeito de Harrison, Veco acredita que ele era uma pessoa com postura não só musical, mas também como ser humano. “Os Beatles são os caras mais famosos do mundo até hoje. George, agora falecido, foi um cara que sempre se manteve com os pés no chão, sabe de onde veio e para onde foi.”
“A música sempre foi a boia salvadora dele. Ou seja, tudo que ele fez enquanto ser humano que pisou nesta terra, foi focado com a música. E todas as mensagens que ele quis passar foram através das suas canções, das suas letras. Eu me identifico muito com ele, com o George Harrison”, explica Veco.
O Nenhum de Nós sempre foi muito ligado aos Beatles. Anos atrás, a banda gaúcha foi convidada, pela Prefeitura de Porto Alegre, para fazer um show em um festival de inverno. Assim surgiu um show diferente, ‘Nenhum de Nós canta Beatles’. O espetáculo foi apresentado em temporadas no Theatro São Pedro e em vários lugares do Brasil. “É um show muito legal porque pegamos as músicas que mais curtíamos deles. Algumas interpretamos exatamente igual, outras a gente teve a ousadia de deixar a nossa cara. Brincamos um pouco com os arranjos, e de cara teve uma identificação muito grande com o público que curte o Nenhum de Nós”, avalia o músico santa-cruzense. “O público que gosta de nossa música é um público que também gosta de Beatles.”
Para Veco, foi um prazer realizar esse show e “mexer com uma obra tão legal que é a obra dos Beatles. Eles são uma ‘moeda corrente’ na história do Nenhum de Nós”.
PREFERÊNCIAS
Veco Marques acredita ser difícil escolher um álbum preferido dos Beatles. “Escolher uma música é impossível”, complementa. Em relação aos discos, Veco acredita que dois deles deram uma guinada artística e começaram a lhe agradar muito mais ainda: ‘Rubber soul’ e ‘Revolver’. “Dois discos em que eles começaram a ter uma liberdade artística maior, saíram um pouco daquele rock, entre aspas, ‘um pouco mais simples’, pois nunca foi simples e sempre foi complexo pela qualidade dos arranjos e dos vocais.”
De acordo com Veco, ‘Rubber soul’ e ‘Revolver’ definiram o começo de uma liberdade artística para os Beatles. “Isso deixou para mim coisas muito marcadas, nas melodias, nas ousadias, nas harmonias, acho que ali começou uma cara de Beatles que mais me toca até hoje.”
NENHUM DE NÓS, 31 ANOS
Sobre o Nenhum de Nós, Veco mostra-se bastante satisfeito com o histórico e o momento atual da banda: “A gente segue firme e forte: 31 anos de banda, mundaréu de discos, milhares de shows, vai ser meu trabalho pra sempre”. O santa-cruzense diz que os integrantes mantêm uma série de atividades: “O Thedy escreve seus livros, o Sady tem um grande conhecimento sobre cerveja, o João Vicenti tem um trabalho instrumental, e eu produzo muitas bandas e toco com muita gente, por ser músico full time”.
Veco é um guitarrista que, mesmo depois de tanto tempo na área musical, curte “pegar a guitarra e tocar, ir para a estrada e tocar com os amigos, e matar a saudade de amigos que são músicos. Isso para mim é o que move a roda: tocar com muita gente”. Ele está sempre envolvido com projetos, é formado em publicidade, e trabalhou por muito tempo fazendo trilhas e jingles, “coisa que gosto até hoje”, assegura. “Me considero não um artista e sim um músico. Está escrito na carteirinha: ‘músico'”.














