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Gastronomia alemã aliada à tradição

Viviane Scherer Fetzer
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Fátima Blum com o orientador Ricardo Rieth

Uma dissertação que tivesse como objetivo principal analisar as representações sócio culturais associadas aos alimentos, no contexto teuto brasileiro, descontruindo a ideia de homogeneidade do imigrante alemão e suas invenções das tradições. Foi esse trabalho que Fátima Vitória Canha Blum, na época aluna do Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEDU), da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) apresentou em abril.  Orientada pelo professor Ricardo Willy Rieth, vice-reitor da instituição, o título da dissertação foi Representações Socio-culturais da gastronomia Teuto-Rio-grandense, representados na imprensa do grupo Editorial Sinos. 
A partir da prática clínica e docente, Fátima considerou importante fazer uma reflexão de como o indivíduo constrói sua identidade ao longo de sua vida através de elementos culturais adquiridos, por meio de herança cultural, bem como suas construções simbólicas e então surgiu o tema da dissertação para o mestrado em Educação, Representações Socioculturais da Gastronomia Teuto-rio-grandense na Imprensa do Grupo Sinos, nas cidades com festas associadas à colonização alemã. 
“A ideia foi de analisar como os veículos midiáticos fazem circular essas tradições dando importância à gastronomia alemã”, explica Fátima. A dissertação faz a retomada histórica de que São Leopoldo é o berço da imigração alemã do Brasil, seguido de Santa Cruz do Sul, onde os imigrantes chegaram 24 anos depois e lembra das festas tradicionais de Santa Cruz, como a Oktoberfest e Festa das Cucas, em que os jornais são os principais veículos de informação.
Ao abordar a questão da cozinha como uma apropriação da tradição, a autora salienta que “entendo, a cozinha, como o conjunto de hábitos alimentares, práticas alimentares e tradições culinárias de uma unidade de pertencimento (seja de um país, uma região ou um grupo). A construção da cozinha de um grupo étnico é fruto de um processo histórico-cultural, que leva em conta fatores relacionados ao meio ambiente, aos ingredientes, à economia local e ao social. O espaço culinário, a cozinha e seus anexos, são os locais onde as pessoas se reconhecem, e se veem reconhecidas, é o espaço das representações e do simbólico, das memórias e emoções contidas em cada preparação”, exemplifica.

O eixo central da pesquisa trata da desconstrução da ideia corrente sobre o que é ser alemão e tem como objetivo mostrar que a chegada dos imigrantes no Rio Grande do Sul não resultou em um agrupamento homogêneo, o qual não existia nem mesmo no país de origem. Isso tudo foi visto através dos autores que deram sustentação teórica. A cozinha, sendo um dos elementos mais importantes da etnicidade, pode ter a função de despertar esse sentimento de sustentação ou reiteração de identidade étnica. “Então, a tradição culinária é a associação mais duradoura que o indivíduo tem com seu local de origem. As roupas, as músicas, a língua, por mais que permaneçam por anos, são elementos que em algum momento acabam por ser deixados para trás ou substituídos por outros”. E, segundo a autora a alimentação e as práticas culinárias, de uma maneira ou de outra, acabam por se manterem vivas, se adaptando a novos ingredientes. Por isso, os grupos utilizam a alimentação como um diferencial entre ele e o outro como elemento marcador de uma distinção étnica.

As festas étnicas realizadas em Santa Cruz e São Leopoldo, priorizadas pelos jornais locais,  têm papel fundamental nesta manutenção das tradições que foram se modificando, se adaptando, se reinventando e permanecendo. A tradição, no caso específico a tradição culinária, tem um sentido simbólico, pois, está deslocada de seu ambiente original, seja ele espacial ou temporal. “A palavra tradição vem do latim traditio, ou seja, significa entregar, passar algo para outra pessoa, ou passar de geração a outra geração. É essa transmissão que faz a tradição se deslocar, dando um sentido de ligação com o passado”, finaliza a autora.

Sobre a pesquisa

O tema foi motivado pela prática clínica doente e pela autora ter considerado os jornais Vale dos Sinos, Novo Hamburgo e Diário de Canoas como grandes disseminadores de práticas sociais e culturais. O período amostrado nos três jornais, Jornal Vale dos Sinos, Jornal Novo Hamburgo, Jornal do Paranhana e todos do grupo Sinos envolve os anos 2015 e 2016. 

Sobre Fátima

Fátima Vitória Canha Blum é formada em Nutrição e pós-graduada em Clínica e Dietoterapia pela Unisinos. Além de especialista em Educação de Jovens e Adultos pela Ulbra. É Mestre em Estudos Culturais, Gastronomia Teuto- rio-grandense e aluna especial do Doutorado em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina De São Jose do Rio Preto.São Paulo.