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Ih Mochilei: uma pausa na volta ao mundo

Eles estiveram no Riovale Jornal para contar essa grande história

O casal Gustavo e Rita no Riovale Jornal antes de darem início à viagem

Viviane Scherer Fetzer
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Eles largaram tudo para realizar um sonho. O sonho de fazer um mochilão pelo mundo. Calcularam que em dois anos completariam a saga. Chegaram a pensar em estabelecer moradia em um dos países pelos quais iriam passar. Mas o resultado de um concurso antecipou a volta dos nossos mochileiros ao Brasil. Sim, eles voltaram. O santa-cruzense Gustavo Amaral e sua esposa carioca da gema, Rita Castro assinaram uma coluna aqui no Riovale Jornal desde junho de 2017, ela era quinzenal e se chamava Ih Mochilei, mesmo nome do canal do Youtube onde eles documentaram a viagem e ainda têm muito material para ser compartilhado. Acompanhe por lá as próximas novidades https://www.youtube.com/channel/UCC7SHYJC57lvQO53vDGysZw.

Em seu primeiro destino, Juiz de Fora

Eles já finalizaram a publicação das colunas na última terça-feira, falando sobre a chegada em Santa Cruz, eles vieram do Nepal direto para Santa Cruz, foram 60 horas até chegar ao Brasil. E não poderíamos deixar de contar um pouco das impressões do casal Ih Mochilei sobre essa grande viagem.  No começo da conversa eles já deixaram claro que “não foi um fim, foi uma pausa”. Essa pausa aconteceu de forma muito confusa segundo eles, porque a oportunidade de emprego surgiu, mas mesmo assim eles queriam completar a viagem. Após pensar um pouco e mesmo com a sensação de que quando começa tem que terminar eles escolheram fazer essa pausa. “Tanto é que quando demos a entrevista no México, falamos que a viagem era programada para dois anos, e falamos que poderíamos terminar depois, antes ou ainda dentro do prazo, tudo dependeria muito do que o destino reservava pra gente. A gente teve um misto de alegria e tristeza. Tristeza de não ter completado o objetivo, mas uma felicidade de poder voltar ao Brasil, de comer a comida do Brasil, rever a família e também de parar, porque por mais que viajar seja legal, cada dia você conhecer um lugar diferente, um país diferente, é bacana, mas como a gente viajava a baixo custo gastando o mínimo possível por dia, certas situações não eram tão legais”, comenta o casal. Esse relato foi feito em razão de terem dormido na rua, passado fome em alguns países porque as condições de higiene dos alimentos impossibilitava seu consumo, em outros escolhiam comprar coisas no mercado porque lancherias ou restaurantes eram muito caros e fora do orçamento com que contavam. “Isso fez com que a gente acabasse dando valor. Porque as vezes a vida se resume a uma rotina de trabalho direto pra casa, casa direto pro trabalho, e você quer sempre mais pra comprar tudo do melhor, por fazermos parte dessa sociedade consumista, e com essas situações a gente acabou ficando feliz com comida e com uma cama confortável”.

Em seu último destino antes de retornar ao Brasil, no Nepal

Contando um pouco mais sobre essa mudança de hábitos eles salientaram que quando saíram do Brasil levaram bastante coisa e que foram deixando algumas roupas e objetos pelo caminho. “As roupas foram quase todas fora. Porque pra voltar como a bagagem é muito cara a gente veio só com a mochila de mão. Então a gente jogou a maioria do peso fora. Joguei minha térmica fora, o resto de erva fora, trouxe só a bomba. Só as lembranças e o que a gente comprava pelo caminho, chegando aos 9kg da bagagem de mão. No meio do caminho a gente encontrava coisas, trocava com alguém, comprava algo típico e diferente que não tem no Brasil”. Eles ainda disseram que aprenderam com as pessoas a ser minimalistas, que encontraram muitas pessoas solidárias na rua. As pessoas mesmo sem conhecê-los chegavam e prestavam ajuda, entregavam comida, ofereciam abrigo. 

 

“Com o tempo vamos pegando as manhas, se acostumando com os perrengues, não tem vergonha mais de nada, porque o não a gente já tem e então vamos tentando um sim. Mas o que aprendemos foram idiomas diversos, claro que nos viramos bastante com as mímicas e na China acabamos usando um aplicativo que traduzia o mandarim para o português”. No relato eles encontraram formas de conversar com as pessoas e disseram que essa troca foi muito divertida porque em alguns países as pessoas achavam que eles estavam entendendo, mas isso não estava acontecendo e eles precisavam encontrar formas para entender. 

Em um dos pontos turísticos da China

SOBRE PAÍSES

“Vimos coisas muito discrepantes, não só aqui na América, mas também na Europa. Você acaba vendo que tem que parar de falar mal ou só falar bem. Todos os problemas que tem aqui tem lá fora em qualquer país e coisas boas que lá tem, aqui também tem”, explicaram. Segundo Rita, eles foram se acostumando com as diferentes realidades gradualmente, “não saímos da Suíça direto para a Índia, porque aí sim o choque seria muito grande”. 
Nos últimos países que percorreram notaram bastante a limpeza ou falta dela em cada um. Em uns como a Rússia e a China são bem limpos. Sobre a Índia eles deixaram claro que “a Índia é tudo o que tem de ruim no mundo em um só país, é tudo muito sujo e eles estão acostumados com aquilo”. Em outros menores como o Mianmar, o Vietnã, a Tailândia e o Camboja viram a pobreza e a humildade das pessoas. “O Mianmar nos surpreendeu muito, porque as pessoas de lá são muito pobres, mas são amigáveis, elas querem ajudar do jeito que puderem e a gente fica muito feliz quando recebe isso”. 
Em países muçulmanos como a Malásia eles perceberam muito o preconceito com as mulheres, as coisas mais controladas. “Tem certas coisas que são bem chocantes. Você vê que a sociedade não é livre. E muita coisa já faz parte da pessoa. É cultural deles e não vai mudar”. Na China se sentiram um pouco sufocados por passarem por revistas a todo momento, há um controle excessivo segundo eles sobre todas as pessoas, “o que vale a pena mesmo são os pontos turísticos que são lindos”. 
Na Europa eles lembram que a expectativa era muito grande porque todo mundo fala bem, diz que é barato e que vale a pena “no primeiro castelo a gente estava bem feliz, quando chegou no quinto castelo, falando sobre arquitetura, sobre igrejas e tal a gente já estava de saco cheio, foi tudo meio frustrante, sem contar que é tudo caro sim”. Eles contaram ainda que Gustavo se frustrou bastante também com a Oktoberfest de Munique e disse que prefere a de Santa Cruz do Sul porque o pessoal é animado, mais alegre. 

Um dos registros feitos na Europa

COMO FOI

Nem sempre eles tiveram dinheiro para hotel. Muitas vezes ficaram hospedados em casas de voluntários de um aplicativo de hospedagem. E assim conheceram muitas pessoas. Pessoas que são voluntárias para terem companhia, outras para ajudar somente, outras para buscarem informações para viagens futuras.
“Ficamos em mais de 100 casas. Fizemos muitas amizades. Vamos voltar ao Rio e nossa casa estará sempre de portas abertas para ajudar essas pessoas, retribuir o favor e também ajudar pessoas novas que estão passando pelo Rio de Janeiro, conhecendo pessoas novas”. Antes de iniciar o mochilão pelos 62 países eles procuraram informações sobre os países visitados e durante a viagem foram buscando ainda mais informações, porque a viagem era muito dinâmica e a qualquer momento eles poderiam mudar os planos e seguir para outros destinos. 
Encontraram também muitas pessoas nessa mesma realidade.  “Quando anunciamos que íamos fazer o mochilão ouvimos de tudo, maior galera faz, está cheio de gente aí no mundo inteiro fazendo mochilão e a gente conheceu muitas histórias, tem muita gente que quer voltar pra casa e muita gente que nem pensa nisso. Outras pessoas que querem pegar experiências de viagem pra fazer as delas”. Eles reforçam que “as pessoas devem seguir seus sonhos, porque uma coisa dessas não é pra qualquer um e é preciso traçar um objetivo antes de sair de casa, mesmo que depois ele vá passar por mudanças”. 
Nas questões de saúde o casal não chegou a precisar buscar ajuda nos outros países. E nas questões de segurança, eles foram roubados na Itália, “graças a Deus foi só essa vez e com coisas da nossa mochila que eram recuperáveis, então no fim o saldo foi positivo”. Já sobre alimentação eles já estavam ‘vacinados’ porque na primeira viagem quando foram para a Bolívia, o Gustavo comeu na rua um lanche rápido e passou muito mal. Eles já tinham tudo comprado, no caso, as passagens e ele foi da Bolívia ao Peru com infecção no estômago, mas depois passou. “Então já fomos com isso na viagem toda de que não poderíamos comer qualquer coisa na rua”. 
Na parte financeira, o casal Ih Mochilei estava preparado para todo o período da viagem. Quando chegaram no México tiveram a oportunidade de trabalharem no México por um mês. Depois começaram a receber dinheiro do aluguel de sua casa e o Youtube também começou a render financeiramente depois da postagem do vídeo sobre Cuba. “Isso tudo fez com que a gente voltasse ao Brasil com um pouco de dinheiro ainda”. 

Na chegada na casa de Gustavo em Linha Nova, interior de Santa Cruz um abraço caloroso de sua mãe Lígia

A VOLTA

Do início da viagem ao fim Gustavo não deixou seu costume de lado. Ele levou a cuia, a bomba, a térmica e principalmente a erva-mate para fazer seu chimarrão. No meio da viagem recebeu um patrocínio para continuar com o costume e no fim da viagem acabou colocando um pouco de erva fora, se desfazendo da cuia e da térmica. 
Outra coisa que não deixou de acompanhar o santa-cruzense em todo o percurso foi a camiseta do Grêmio que voltou sem as letras, toda em frangalhos, mas está inteira e vai ser enquadrada como lembrança. 
Na casa nova eles pretendem fazer um espaço com um mapa mundi e fotos da viagem. Rita contou que são mais de 20 mil fotos dos 62 países. Gustavo salientou que ainda quer fazer um levantamento de todos os lugares que passaram para atualizar o site e para ter uma noção ainda mais real do que foi toda essa viagem. 
Eles vão continuar atualizando as redes sociais, publicando vídeos no Youtube e querem que as pessoas entrem em contato com eles para que tirem suas dúvidas de forma gratuita. “Agora voltamos e vamos realizar outros objetivos da vida, vamos ter emprego, ter uma família, filhos e netos e vamos continuar contando nossa história. Estamos muito felizes e muito orgulhosos de contar as histórias. Vamos continuar nossas viagens com nossos mochileirinhos, não assim com duração de quase dois anos, mas sim mais curtas de até 30 dias, aproveitando as férias”. 
E assim eles encerraram a viagem chegando no dia 2 de março a Santa Cruz e neste domingo partem para o Rio de Janeiro para darem início a uma nova vida, com novos objetivos como nos contaram. Até breve, casal Ih Mochilei!

Aproveitando os pontos turísticos de Santa Cruz com a famosa camiseta do Grêmio