Início Geral Inadimplência: fonte de ansiedade e depressão

Inadimplência: fonte de ansiedade e depressão

LUANA CIECELSKI
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Depois de um período de recessão e crise econômica, é fácil encontrar pessoas que passaram ou estão passando por dificuldades financeiras, incluindo nisso a dificuldade de pagar as dívidas contraídas. De uma forma geral, porém, é fácil encontrar na internet ou até mesmo nos veículos de comunicação, dicas para o reestabelecimento das contas, material que ajude a colocar as questões de ordem econômica em dia. O que poucos sabem, ou melhor, o que poucos se dão conta, é que não é apenas a vida financeira que sai prejudicada quando alguém contrai uma dívida e não consegue pagá-la. A saúde do corpo e da mente também fica comprometida e traz uma série de problemas que se acumulam e afetam todas as esferas da vida de uma pessoa. 

Uma pesquisa divulgada recentemente pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) aponta que 69% dos inadimplentes sofrem de ansiedade por não conseguir pagar dívidas. Foram ouvidos 600 consumidores com contas em atraso há pelo menos 90 dias, de ambos os gêneros, acima de 18 anos e de todas as classes sociais nas 27 capitais do país, e isso mostrou que além da ansiedade, sentimentos como estresse (64%), angústia (61%), desânimo (58%), culpa (57%) e baixa autoestima (56%) também são comuns. Mais da metade dos inadimplentes (51%) também sente-se envergonhada perante a família e amigos por se encontrarem nessa situação.

Preocupação com as finanças prejudica também a saúde do corpo e da mente

Os dados mais interessantes, porém, são aqueles relacionados à saúde, convívio social e até mesmo ao trabalho. As dívidas, apontou a pesquisa, deixam 52% dos inadimplentes mais facilmente irritados em diversos ambientes, incluindo o de trabalho, 46% passaram a ter menos vontade de se sociabilizar depois das contas atrasadas, 44% dos entrevistados passou a sofrer de insônia enquanto outros 36% passaram a sentir uma vontade fora do normal de dormir, 35% alegam ter perdido o apetite enquanto outros 34% descontam a ansiedade comendo mais e 25% admite que ficou mais desatento e menos produtivo no ambiente de trabalho. 

O vício também é uma das consequências desencadeadas por causa das dívidas em atraso. Dois em cada dez (21%) entrevistados disseram que passaram a descontar a ansiedade em vícios, como cigarro ou álcool. Também foi identificado um aumento nas atitudes agressivas dos inadimplentes: em função da maior irritabilidade, 18% confessaram que já chegaram ao ponto de agredir verbalmente pessoas próximas da família e amigos e 14% já partiram até mesmo para as agressões físicas. No ano passado, os percentuais dessas opções eram de 13% e 8%, respectivamente.

O QUE FAZER?

Esses dados mostram claramente que durante e depois de um período de dificuldade, não basta apenas buscar uma saída econômica para o problema, é necessário buscar uma ajuda. Um dos pontos fundamentais, como aponta o psicólogo humanista Romeu Waechter, é evitar que esse estresse e essa ansiedade evoluam para algo mais sério, como uma depressão ou ansiedade crônica. Para isso, ele nos dá algumas dicas. 

  • Se reeducar: mudanças de atitude, de comportamento, são sempre a primeira orientação, porque não adianta continuar no mesmo sistema e seguir se endividando cada vez mais. Renegociação de dívidas com os credores é fundamental, mas também é importante renegociar o estilo de vida consigo próprio. 
  • Cuidar de si mesmo: a pessoa é mais importante do que qualquer empresa mesmo que esteja devendo pra ela. Se a dívida já foi contraída e já há um mal estar presente, uma ansiedade, uma baixa autoestima, é preciso cuidar primeiro de si mesmo – do seu corpo e das suas emoções – para poder cuidar depois das dívidas e dos problemas com outras pessoas. 
  • Não deixar o social de lado: não se isolar de amigos e de familiares. Conviver com pessoas queridas é fundamental para enfrentar momentos difíceis. “É uma das melhores terapias que existe”, aponta Romeu. Conversar com um bom amigo ou amiga pode ser um alívio, por mais desconfortável que isso possa parecer num primeiro momento. 
  • Viver o presente: viva apenas o dia de hoje. A ansiedade é causada por um preocupação excessiva com o que está por vir, e a depressão, muitas vezes, é uma preocupação excessiva com o que já passou. No entanto, de nada adianta perder o sono preocupado ou preocupada com a dívida que ainda não foi paga ou se martirizando porque fez uma compra, gastou com algo que não deveria ter gastado. É preciso viver apenas o presente, aceitando as coisas com serenidade.
  • Problemas menores primeiro: comece resolvendo problemas menores e faça disso um bom hábito. Muitas vezes, resolvendo um problema menor, nos desgastamos menos e encontramos a solução para um problema maior, aponta Romeu. 
  • Evite maus hábitos: é comum que as pessoas que estão passando por momentos de ansiedade e depressão busquem válvulas de escape, e acabem encontrando-as em vícios como alcoolismo e outras dependências. Esses hábitos não auxiliam em nada, apenas acabam tornando-se patologias, que podem, inclusive, prejudicar ainda mais a saúde financeira do endividado ou endividada, sem falar na saúde física. Quando chega-se a esse estágio entra-se em um ciclo de endividamento, depressão e dependência, de onde é cada vez mais difícil sair. 
  • Trabalhe o lado espiritual: se você se sente bem ao entrar em uma igreja, centro espírita, ou qualquer outro templo espiritual, você não deve hesitar em frequentar esses lugares. A religião faz bem para muitas pessoas. E se faz bem, é recomendada. O lado espiritual é muito importante e por diversas questões é deixado de lado pelas pessoas, mas pode ser uma forma de fortalecer a mente, de lutar contra sentimentos e hábitos ruins, de tornar-se resiliente. 

ECONOMISTAS CONCORDAM 

Apesar de ser da área da economia, o educador financeiro do SPC Brasil, José Vignoli, concorda plenamente com essas sugestões. Segundo ele, a postura emocional do devedor revela muito sobre como ele vai lidar com a reorganização das finanças. “Quem se desespera no momento de dificuldade, multiplica os seus problemas. Um consumidor desorientado, ansioso e sem motivação dificilmente vai ter energia para traçar uma saída. Os primeiros passos nessas horas são manter a calma, buscar racionalidade e contar com a compreensão da família. Ou até mesmo recorrer a um profissional especializado”, orienta Vignoli.

*Com auxílio de Fernando Lima