Entre os participantes do I Musikfest, festival de música clássica que está acontecendo em Santa Cruz do Sul desde o domingo, 8 de janeiro, até a noite dessa sexta-feira, 13, é possível notar muitas diferenças. São homens e mulheres com os mais variados sotaques e as mais variadas idades. Mas as variações não param por aí: os motivos que os levaram a participar do evento também são diferentes. Todos, porém sentem que o festival é um grande incentivador do estudo de música e uma grande oportunidade para quem quer aprimorar seus conhecimentos.
Esse é justamente o caso de Levi Sobral, de 18 anos. Natural de São Paulo, ele reside em Vera Cruz há três anos. Antes de vir para o sul, ele chegou a fazer, durante cerca de três anos, aulas de violoncelo. Ao chegar na região, porém, parou com os estudos de música. Agora, ao saber do festival, resolveu retomá-los. “As aulas estão sendo ótimas, porque há várias coisas que eu já estava fazendo errado, e o professor, como é um violoncelista muito bom, está me ajudando”, ele conta. Levi, que tinha deixado pra trás o sonho de fazer uma graduação na área da música, também está pensando novamente nessa hipótese. “Eu cheguei a pensar em tentar uma carreira militar. Mas agora, depois do festival, acho que vou tentar o vestibular em Santa Maria. Eu só estava precisando de um estímulo”.
O festival também serviu como um estímulo para que Fabiana Machado, de 40 anos, voltasse a tocar flauta transversa. Também natural de São Paulo, ela mora no Rio Grande do Sul há sete meses, desde que casou, e assim que soube do festival fez a inscrição, pensando que essa seria uma oportunidade para retomar os estudos. “Quando mais jovem eu aprendi a tocar piano, flauta doce, e posteriormente também a flauta transversa, mas há 20 anos eu não tocava”, conta. Com o incentivo dado pelo festival, ela não pretende parar nunca mais. “São professores excelentes e essa oportunidade de ensaiar junto de uma orquestra, como vem acontecendo, eu nunca tinha experimentado. É algo muito diferente. O repertório é diferente daquele que eu aprendi quando estudei música, porque minha escola era mais voltada para a música popular brasileira. Agora eu tenho sentido vontade até de fazer pesquisas, saber mais sobre esses compositores de música clássica e suas composições”.
Mas o festival não é uma oportunidade de ampliar os conhecimentos apenas daqueles que pararam de tocar há algum tempo. É oportunidade também para aqueles que vivem da música. É o que explica a musicista Luiza Prohmann de Souza, que veio de São Leopoldo. Estudante de música na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e contrabaixista da Orquestra Sinfônica de Gramado, ela disse que está aproveitando muito o evento, principalmente para trocar experiências. “Já participei de outros festivais e sei que aqueles que são muito grandes também causam um estresse maior. Esse, de Santa Cruz, até por ser o primeiro, tem um clima mais intimista, proporciona um aproveitamento maior. Consigo assistir às apresentações, trocar contatos, fazer amizades e aprender até mesmo sobre outros instrumentos, além do meu que é o contrabaixo”, conta.
Seu colega de curso no festival, e também contrabaixista, Isaac da Cruz Pacheco, natural de Porto Alegre, concorda. Ele conta que veio com auxílio da Orquestra Jovem do Rio Grande do Sul, onde toca e onde é aluno do contrabaixista Fábio Alves. “Achei a recepção da cidade muito boa também”, disse ele, complementando a fala da colega.
Porém, nem só de pessoas de fora é feito o festival. Também participam do evento alguns santa-cruzenses, como Gustavo Sehnem, de 24 anos, que é regente dos corais Santo Afonso e da Afubra, professor de aula de canto e técnica vocal e que trabalha há sete anos com música. Ensaiando junto com os cantores de ópera, Gustavo disse que está vendo o festival como uma chance de explorar seu potencial vocal. “É a minha primeira experiência com canto lírico e eu estou adorando. Acho que existem poucos eventos como esse na região. Deveria ter mais”, ele expressa.
E o Musikfest também é local de mostrar que diferenças físicas não são impedimento para quem realmente gosta de música e sente vontade de tocar algum instrumento. Camila Moraes Pereira, de 16 anos, natural de Tupanciretã é uma prova disso. Mesmo sem ter a mão direita – uma deficiência de nascença – ela toca trompa há cerca de quatro anos. Tímida, mas sorridente, ela conta que quando criança fazia ballet e nunca havia pensado em uma carreira musical, até que foi convidada para participar de um projeto e se apaixonou pelo instrumento. Agora ela já não vê a música como um hobby, mas como uma possível profissão, e diz que o festival está sendo importante, porque está aprendendo muito aqui. “Aprendi questões como postura e respiração. Além disso, na minha cidade eu cheguei a ter aulas com um trompista, mas agora não temos mais um. Eu ensaio com professores de outros instrumentos de sopro. Ajuda, claro, mas não é a mesma coisa. E aqui estou tendo a chance de ter aulas com um trompista dos bons. Isso é ótimo”, conta.
E por fim, outra turma que está tendo uma oportunidade única é a turma de Direção de Orquestra, porque está tendo aulas com o maestro Cláudio Ribeiro. Entre os alunos, estão desde pessoas que querem aprender a profissão de maestro, até pessoas que dão aulas em orquestras e corais de cidades do interior do Estado, e que vieram ter aulas com Ribeiro com o intuito de observar sua pedagogia. Todos, porem, se disseram encantados com a experiência. “Só a convivência com um maestro tão conceituado, com uma experiência de repertório tão grande, já é um acontecimento único”, conta o mineiro Dilber Alonso, um dos alunos. “Além disso, a oportunidade de praticar junto de uma orquestra como temos feito, durante cerca de 40 minutos diários, é maravilhosa.”, ele complementa, explicando que a prática é tão importante quanto a teoria.
Cláudio Ribeiro, por sua vez, disse estar “orgulhoso dos pupilos”, e feliz de ter sido convidado para participar desse evento. Além de cumprimentar os organizadores pela iniciativa ele também cumprimentou a sociedade santa-cruzense que está apoiando esse evento.
Encerramento
A primeira edição do Musikfest, porém, está chegando ao fim nessa sexta-feira, 13 de janeiro. Durante o dia, acontecerão as últimas aulas do festival, e à noite será a vez do Grande Concerto, que contará com a participação dos alunos e dos professores do festival, além dos profissionais da Santa Cruz Filarmonia, que serviu de Orquestra Laboratório para os cursos do festival. Os ingresso custarão R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). O evento inicia às 20h30.