LUANA CIECELSKI
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Atuando dentro do SindiTabaco há mais de duas décadas – durante 10 anos como vice-presidente e desde 2006 como presidente – Iro Schünke é uma das pessoas que mais pode falar sobre a entidade e a cadeia do tabaco no que se refere a passado, presente e futuro. E foi justamente isso que ele fez. Em conversa com o ‘Riovale Jornal’, ele falou sobre a importância da data, sobre os desafios que o sindicato enfrenta no cenário atual, sobre as projeções para o futuro do setor, a relação do SindiTabaco com outras entidades e organizações ligadas à cadeia produtiva do tabaco e também da relação com a comunidade. Confira.

ENTREVISTA
Riovale Jornal: O que representa para o SindiTabaco chegar aos 70 anos?
Iro Schünke: Olha, eu diria que foi uma caminhada muito importante. 70 anos é uma jornada bem longa. Mas o mais importante é que o SindiTabaco – que antes era Sindifumo – acompanhou toda a evolução da fumicultura no Brasil, as grandes mudanças que aconteceram e que fizeram com que o país se tornasse o segundo maior produtor e o maior exportador. O sindicato participou disso e sempre defendeu não só a indústria, mas a cadeia produtiva como um todo durante todos esses 70 anos de caminhada.
Riovale Jornal: Quais foram as maiores vitórias nesse período, em sua opinião?
Iro Schünke: Eu acho que a principal conquista para o país e para os três estados do Sul é o próprio crescimento da cultura do tabaco, se tornando o segundo maior produtor e o maior exportador, o que faz com que tanta gente esteja sendo beneficiada, seja no campo, onde milhares de pessoas trabalham na produção, seja na indústria onde há muitos empregos gerados. O setor representa muito para os municípios. E eu acho que também posso dizer que ter acompanhado tudo e poder ter interferido naquelas partes que são comuns a toda a cadeia produtiva também é uma conquista.
Riovale Jornal: Representar um setor (indústria do tabaco) que vem recebendo tantas críticas e restrições é um desafio constante para a entidade? Como se deve lidar com essa situação quando se está à frente do SindiTabaco?
Iro Schünke: Sim, é um desafio, sem dúvida. Nós trabalhamos principalmente três focos, onde estão situados os principais desafios. Um desses focos é a sustentabilidade da cadeia produtiva. Nesse aspecto entra todas as coisas relacionadas à parte de responsabilidade social, preservação ambiental, às próprias demandas que têm a ver diretamente com o produto para que possamos exportar, como a parte sanitária. E a gente tem trabalhado muito nesses últimos anos.
Outro ponto são os assuntos regulatórios que talvez sejam os maiores desafios, um dos nossos maiores problemas. São todas as demandas que vêm da Convenção-Quadro. Restrições, toda essa campanha antitabagista que tem sido feita. E essa é uma das áreas em que a gente tem feito mais esforços, para tentar, pelo menos, buscar um certo equilíbrio.
Dentro disso, um dos maiores desafios, naturalmente, é a questão do contrabando. Dentro do país, o contrabando representa hoje mais de um terço dos cigarros consumidos e tem gerado danos graves para as empresas. Nós já tivemos, por exemplo, fechamento de unidades de produção de cigarros, redução de turnos de produção, e além da perda de empregos, da perda de receita e tudo o mais que ocasiona o contrabando. Além disso, ainda há o aspecto sanitário do cigarro ilegal que faz muito mais mal do que o cigarro legal, porque não há nenhum controle sanitário, né?! O cigarro legal é controlado pela Anvisa no aspecto sanitário, e pela Receita Federal no aspecto tributário. O ilegal não tem nada disso.
O terceiro ponto é a comunicação que a gente tem tentado fazer cada vez mais, e que está relacionado a esclarecer dúvidas e passar informações sobre a cadeia produtiva. A gente tem tentado divulgar cada vez mais aquelas coisas boas e importantes que a cadeia produtiva realmente fornece. Aquelas coisas que eu já comentei: geração de empregos, receita, importância no desenvolvimento dos municípios, e assim por diante.
Riovale Jornal: O senhor vinha falando dos ataques que a cadeia produtiva vem sofrendo por parte dos antitabagistas. O quanto esses ataques interferem no setor?
Iro Schünke: Olha, eu diria que interferem de várias formas. Pegando o produto final, aqui no Brasil, todas as restrições aplicadas diretamente nos cigarros têm servido como uma mola propulsora para o contrabando. Tem se restringido muitas coisas para o cigarro legal e que na verdade só faz com que o cigarro ilegal se aproveite disso. Dá pra citar alguns exemplos. A alta incidência de impostos no Brasil – que é quase de 80% – deixa os produtos daqui pouco competitivo em relação aos de outros países, como o Paraguai – que cobra menos de 20%. Essa é uma das questões.
Podemos olhar também para o lado da produção, ela já não usa os juros subsidiados pelo Pronaf na produção. Os produtores têm que usar o Crédito Rural com juros normais. Além disso, há um aumento na dificuldade para que o produtor de tabaco consiga recursos porque as exigências vêm aumentando muito, mesmo em relação ao Crédito Rural. Eles precisam aumentar suas receitas com outras culturas, o que é bom, porém não há investimentos para que eles possam fazer isso. E assim nós vamos.
E o que nos preocupa ainda mais é que a tendência é só piorar. Recentemente a Organização Mundial da Saúde (OMS) queria passar toda a parte de comércio internacional do tabaco para a Saúde, ao invés de deixá-lo na Organização Mundial do Comércio que é o lugar certo. Queria transformar isso numa questão sanitária, e não numa questão de econômica.
Outro exemplo: nesse acordo Mercosul-União Europeia, que está sendo discutido, quando nós vimos, o tabaco tinha sido tirado do acordo. Então já estamos trabalhando pra ver se a gente consegue recolocar o tabaco nele. Isso tudo é em decorrência dessa onda antitabagista que existe, e que já passou dos limites. Uma coisa é você pegar o produto final, colocar mostras nas embalagens, apontando os problemas que pode causar e tudo mais. Outra coisa é esse ataque que ultrapassa todo e qualquer limite.
Riovale Jornal: E dentro desse cenário, quais são as perspectivas que a cultura do tabaco tem? Há um futuro pela frente? Até quando o tabaco será considerado um negócio viável? É possível fazer essa projeção?
Iro Schünke: O que a gente tem visto – vou trabalhar apenas com os fatos já acontecidos – é que todas essas medidas antitabagistas que existem, tanto na produção do cigarro quanto na própria exposição das pessoas e lugares onde se pode fumar, tem ajudado a reduzir o consumo no mundo. Até 2014 nós estávamos em uma situação estável e até mesmo de crescimento, mas em 2015 e 2016 já começou a haver uns decréscimos de consumo e produção. Em uns países mais, em outros menos. Então se vê, por esses fatos, que essas medidas têm ajudado a reduzir. Mas é logico que a redução mesmo sendo mais constante, ela é gradativa e não é tão rápida.
Hoje ainda são 5,5 trilhões de unidades fumadas (por ano) no mundo, o que ainda é um consumo muito grande, e certamente haverá consumo de cigarros – e em consequência produção de tabaco -, por muitas décadas. O que pode e provavelmente vai acontecer mais daqui pra frente, de acordo com o que já se está vendo hoje, é as empresas cigarreiras começarem a oferecer novos produtos, alternativos. Esses produtos estão sendo já consumidos em alguns países, estão crescendo. Há um caminho pra oferecer ao consumidor um produto de menor risco (à saúde) e as cigarreiras estão estudando. E claro que isso vai impactar em toda a cadeia produtiva. Mas o consumo existente hoje ainda vai existir por muito tempo.
Riovale Jornal: Nos últimos anos o SindiTabaco criou uma série de programas que o ligaram à comunidade, aos produtores. Pra isso ele contou com apoio de entidades como a Afubra e as federações da indústria dos trabalhadores rurais, dos três estados do Sul. O que esses programas alavancaram na cadeia produtiva e o que representa essas parcerias e esse apoio para o SindiTabaco?
Iro Schünke: Eu acho importante começar dizendo que os programas funcionam justamente porque temos essas parcerias, com a Afubra e com as federações dos três estados. Isso é extremamente importante. Pra citar um exemplo, nós na verdade começamos em 1978 quando a gente começou a incentivar o reflorestamento, já com a parceria da Afubra naquela época. E hoje são vários programas, como por exemplo, o Plante Milho e Feijão, que inclui a produção de grãos depois da colheita do tabaco. Nele, além das parcerias já citadas, nós temos também parcerias com a Emater, com as Secretarias de Agricultura dos Estados e isso realmente tem sido muito importante porque tem gerado recursos adicionais muito grandes para os produtores. Esse ano, por exemplo, conseguimos uma renda extra para os produtores dos três estados, de R$ 600 milhões. Então diversificação é bom quando ela agrega renda para o produtor.
Riovale Jornal: Por que o SindiTabaco tem essa preocupação com os produtores?
Iro Schünke: Porque defendemos as indústrias, e o que há em comum entre elas, e um dos assuntos em comum é o produtor, são as comunidades onde essas indústrias estão inseridas. A cadeia produtiva vai da produção até a venda dos cigarros, e aqui na região, estamos ligados a todas essas etapas, mas principalmente às etapas iniciais, que envolvem o produtor. Então temos que fazer essa inter-relação. Ela é muito importante. E estamos fazendo o nosso melhor.
ATUAL DIRETORIA
Presidente: Iro Schünke
Vice-Presidente de Secretaria: Norberto Kliemann
Vice-Presidente de Finanças: Daniel de Moura Barbosa
Vice-presidente de Relações Industriais (Recursos Humanos): Valmor Thesing
Vice-presidente de Assuntos Fiscais: Flávio Lucas Goettert
Vice-presidente de Produção e Qualidade de Tabaco: Claudimir Rodrigues
Vice-presidente de Gestão Ambiental e Responsabilidade Social: Felipe Bremm
Conselho Fiscal: Ingo Arnaldo Fischborn, Lauro Afonso Goerck, Ronaldo Boettcher
Iro Schünke
Natural de Candelária (RS), o presidente do SindiTabaco é engenheiro Agrônomo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/RS). Sua trajetória profissional iniciou-se na Emater, em 1975. Há mais de 40 anos no ramo do tabaco, atuou na Fumossul Ltda; de Venâncio Aires e, em 1980, começou sua trajetória na Meridional de Tabacos, onde exerceu as funções de engenheiro agrônomo, gerente de Produção e, a partir de 2000, de diretor de Produção. Com a fusão da Meridional de Tabacos e da Dimon e o surgimento da Alliance One, passou a superintendente de Produção, em 2005. Neste período conheceu diversos países produtores de tabaco. Dentro do Sinditabaco, por mais de uma década atuou como vice-presidente de Produção do então Sindifumo, atual SindiTabaco, onde exerce, desde 2006, a presidência da entidade. Desde 2008, integra a diretoria da FIERGS – Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul. Em 2015 assumiu, também, como diretor presidente do Instituto Crescer Legal.














