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O Brasil se despediu de Belchior

LUANA CIECELSKI
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Corpo do músico foi sepultado em Fortaleza

Foi enterrado nessa segunda-feira, 2 de maio, em Fortaleza no Ceará, o cantor e compositor Antônio Carlos Gomes Belchior Fontanelle Fernandes, conhecido como Belchior. Famoso por sua contribuição com a Música Popular Brasileira (MPB), o músico faleceu na madrugada do último domingo, 30 de abril, na residência onde morava – anonimamente – há alguns meses, em Santa Cruz do Sul, no bairro Santo Inácio. Sua morte repercutiu em todo o Brasil.

Belchior estava com 70 anos de idade e foi um dos primeiros nordestinos a se destacar em todo o país em seu gênero musical. Seu trabalho estourou em 1972, quando a cantora Elis Regina gravou a música ‘Macuripe’, de sua autoria em parceria com o compositor Fagner. Além dessa música, Belchior foi o compositor de ‘Apenas um Rapaz Latino-Americano’, ‘Velha Roupa Colorida’, além de ‘Como Nossos Pais’, essa última também imortalizada por Elis Regina e uma das mais conhecidas, mesmo pelas gerações mais novas. 

De acordo com a polícia de Santa Cruz do Sul, Belchior foi encontrado pela esposa, Edna Assunção de Araújo, no sofá da sala, por volta das 5 horas da manhã. Uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi ao local e constatou a morte. A causa, de acordo com o Instituto Médico Legal (IML) de Cachoeira do Sul – que fez a necropsia – foi uma ruptura na parede da artéria aorta, o que causou uma hemorragia interna. 

Depois de todos os procedimentos policiais e legais serem feitos – a hipótese de uma morte não natural logo foi descartada, por não haver sinais de violência – o corpo do artista foi levado ao Ceará na madrugada de segunda-feira, 1º de maio. O velório aconteceu em duas etapas: primeiro na cidade natal do artista, Sobral, no nordeste cearense, e em seguida em Fortaleza, onde o corpo foi recebido por de fãs no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Estipula-se que mais de 7 mil pessoas tenham ido se despedir do músico. 

Belchior vivia uma vida reclusa, longe das lentes das câmeras, desde meados de 2005, mas manteve até seu último dia de vida o bigode espesso – ainda preto, mesmo que tingido – que tanto o caracterizava. De acordo com relatos de repórteres da Agência Brasil, enviados ao Ceará na segunda-feira, para o velório seu corpo foi vestido com uma camisa azul-claro e recoberto com pétalas de rosa brancas.

Já o enterro aconteceu por volta das 9 horas da manhã dessa terça-feira, 2 de maio, no cemitério Parque da Paz, em Fortaleza. Antes, porém, uma missa foi realizada (por volta das 7 horas), junto do centro cultural onde ele estava sendo velado. Em seguida um cortejo puxado por um carro do Corpo de Bombeiros levou o corpo do artista até o cemitério. O cortejo reuniu milhares de pessoas, o sepultamento, porém, foi restrito aos familiares de Belchior. Estiveram presentes a mulher de Belchior, a ex-mulher do artista, os filhos e os irmãos. No mesmo cemitério também estão enterrados os pais e outros familiares de Belchior. 

Vida reclusa

De acordo com pessoas próximas a Belchior, o cantor e compositor fazia questão de permanecer anônimo, vivendo uma vida discreta e nômade. Ele morava há cerca de quatro anos na cidade, e nos últimos meses, residia em uma casa no bairro Santo Inácio. Ele nunca foi descoberto efetivamente – apesar de haver boatos de que ele morava por aqui – porque havia uma rede de amigos que o ajudava.

Além disso, Belchior só saía à noite, em carros de amigos quando esses iam buscá-lo e as janelas da residência estavam quase sempre fechadas. A rotina, que incluía exercícios em horários alternativos e no entorno da piscina da casa, além de uma alimentação saudável, era organizada pela mulher de Belchior, Edna Assunção de Araújo, uma produtora cultural que estava com o músico desde 2005. 

Não se sabe ao certo o porquê da decisão de se afastar da sociedade, dos palcos e dos fãs. Em agosto de 2009, uma reportagem do programa televisivo dominical “Fantástico” apontou que familiares e amigos do músico estavam há mais de dois anos sem notícias dele. O sumiço chegou a repercutir fora do Brasil e rendeu um burburinho de que o artista teria se afastado por dificuldades financeiras e dívidas. Uma reportagem da Revista Época, de 2013, dá conta, inclusive de Belchior estaria sendo procurado pela Justiça por não cumprimento de agendas já fechadas antes de seu desaparecimento. Também haveria dois mandados de prisão pelo não pagamento de pensão a dois de seus filhos. 

Nesse período, muitas pessoas chegaram a criticá-lo abertamente. Outros apontaram a mulher de Belchior como causa do sumiço, afirmando que era grande a influência dela sobre ele no sentido de filtrar suas amizades, barrar encontros e até mesmo afastá-lo da carreira nos palcos. Outros amigos, porém, apontam o contrário, que ela tinha apenas um grande zelo e dedicação com o artista e que seu cuidado visava apenas evitar uma maior exposição. Exposição essa que o próprio cantor não queria. O exílio seria, de fato, autoimposto. Fossem quais fossem as causas. 

Continuava a produzir

Apesar disso tudo, pessoas próximas ao cantor comentam que ele não havia deixado de produzir, e inclusive, estava trabalhando há algum tempo em um projeto com material inédito. Ainda não se sabe, porém, se esse material será ou não divulgado futuramente.

(Com informações Agência Brasil)

 


Manifestações

Durante os últimos três dias, desde que a morte de Belchior foi anunciada, diversas autoridades e artistas se manifestaram sobre a morte do cantor. Um deles foi o presidente Michel Temer, que divulgou nota de pesar em sua conta no Twitter: “Triste pela morte de Belchior. Ele foi o intérprete de uma geração e de uma época rica do país. Minha solidariedade à família e fãs”. O texto foi, inclusive, criticado nas redes sociais porque o presidente se referia à ditadura quando falou de uma época rica do país. 

Um dos artistas que falou da morte de Belchior foi Caetano Veloso. Ele dedicou uma coluna inteira no jornal paulista Estadão para falar de seu colega de profissão. No texto, Veloso relembrou seu último encontro com Belchior, suas características como artista, as parcerias musicais que ele fez ao longo dos anos e o sucesso das músicas que foram lançadas nas vozes de outros artistas, além da qualidade de suas composições, e do protesto em suas letras, especialmente contra a ditadura militar. 

Em homenagem ao cantor e compositor, o Governo do Ceará, que inclusive arcou com o translado do corpo, também decretou luto oficial de três dias. “Belchior é dono de uma trajetória artística da mais absoluta importância para a cultura do Estado. Sua carreira o levou ao patamar de um dos maiores ícones da Música Popular Brasileira, promovendo o nome do Ceará em todo o Brasil e no mundo”, dizia a nota divulgada pelo governo cearense.