LUANA CIECELSKI
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Não há frio que abale a vontade dos estudantes santa-cruzenses de escolas estaduais. Eles querem mostrar seu desagrado em relação ao governo, à falta de repasses para as escolas, à pouca valorização dos professores e do sistema de ensino, é isso o que eles vêm fazendo através de ocupações das escolas. Até o fim da tarde de ontem, 20 de maio, já eram três as escolas ocupadas na cidade.

O primeiro a aderir ao movimento foi o Polivalente, na manhã de quinta-feira, 19 de maio. De acordo com a diretora da escola, Silvia Jaeger, a organização iniciou na segunda-feira, 16 de maio, junto com a greve dos professores. No total, são entre 70 e 80 alunos organizados em ocupação, inclusive pernoitando na escola. Durante o fim de semana eles pretendem manter essa ocupação realizando uma série de atividades dentro do colégio. Já as aulas, durante todo o dia de ontem aconteceram em caráter parcial.
A segunda a ser ocupada foi a Nossa Senhora do Rosário, da Cohab, no início da noite de quinta-feira também. Por ali, cerca de 70 alunos estão se revezando em uma ocupação durante os três turnos. As aulas tradicionais, no entanto, diferentemente do Polivalente, foram paralisadas. Outras atividades, porém, como oficinas, organizadas pelos próprios alunos, estão acontecendo, segundo uma das professoras da instituição. Na Rosário, os alunos também pretendem manter a ocupação durante o fim de semana.

Já ao meio dia dessa sexta-feira, 20 de maio, foi a vez dos estudantes da escola Estado de Goiás aderirem ao movimento. A exemplo do que ocorreu em outros colégios, foram colocadas faixas e cartazes nas grades e portões da escola e durante toda a tarde de ontem os estudantes realizaram pequenas assembleias. De acordo com a diretora, Larissa Senna da Silva, seus alunos se reuniram com estudantes do Polivalente e do Rosário para estudar qual a melhor forma de ocupação. “Eles ainda vão decidir se a ocupação será total ou parcial, e a partir disso a escola também poderá se manifestar sobre as forma de apoiar esses alunos. De qualquer forma, posso dizer que estamos nos sentindo lisonjeados com o apoio que eles alunos estão dando à educação como um todo”, disse Larissa.
Em todas as escolas não há previsão de término das ocupações. Ela só deverá ocorrer quando o Governo Estadual se manifestar de forma favorável sobre a educação. Até lá, no entanto, a Brigada Militar não deverá fazer intervenções nas manifestações. Um acordo feito entre o CPERS e o Governo do Estado na última terça-feira, determinou que os policiais teriam que respeitar os estudantes.

No RS e no Brasil
Até o fim da tarde de ontem, havia sido contabilizadas pela página no Facebook Ocupa Tudo RS, 112 escolas ocupadas. Sabe-se, no entanto, que o número não está atualizado, pois a escola Goiás, que aderiu ao movimento posteriormente, não estava incluída na lista, e assim como ela, outras escolas do Rio Grande do Sul, não foram incluídas. Além disso, a Secretaria Estadual de Educação não está se manifestando sobre a situação. O número, no entanto, dá uma dimensão do tamanho da onda de manifestações.
Mas não é só no Rio Grande do Sul que o movimento está acontecendo, apesar de aqui as ocupações estarem sendo registradas com mais força. O Estado que primeiro registrou movimentos por parte de estudantes, na verdade, foi São Paulo. Por lá, 15 escolas chegaram a ser ocupadas na semana passada. Nesse momento, no entanto, já não há ocupações.
No Rio de Janeiro, porém, o movimento também continua forte. A Secretaria Estadual de Educação do RJ divulgou durante a semana que 69 escolas estavam sendo mantidas pelos alunos. Assim como no Rio Grande do Sul, na região sudeste do país o objetivo do movimento é o apoio aos professores e o pedido de melhorias nas escolas e na qualidade do ensino.
O que defendem os alunos?
Para os alunos do Polivalente, Eliz de Castro e Jonathan Silveira, ambos de 17 anos, as ocupações nada mais são do que uma luta pelos nosso direitos mais básicos dos estudantes. “Não é só uma questão de salário parcelado. É pela qualidade da nossa educação, é por um repasse de verba maior. O que se faz com R$ 0,30 centavos? É isso que o governo manda para as escolas por aluno”. Eles explicam que a luta, apesar de acontecer em cada uma das escolas, também é pela educação como um todo. “Aqui no Poli a gente não tem muito do que reclamar em relação à estrutura ou merenda – apesar de também precisarmos de reformas no banheiro, ginásio e parte elétrica – mas a gente não ta lutando só pelo Poli, a gente ta lutando por todas as escolas, de uma forma geral.

Os alunos garantem que também estão pensando nas gerações que ainda estão por ir para as escolas. “Nossos irmãos, nossos filhos daqui alguns anos”, lembra Eliz. Mas estão pensando no futuro profissional de muitos daqueles que são estudantes hoje. “Eu, por exemplo, quero ser um educador no futuro. E o que eu vou ter então? Uma sala de aula estruturada? Um bom salário? Qual vai ser a minha motivação? Nesse momento não tem nenhuma”, Jonathan lamenta.
Outra revolta dos alunos é em relação às diferenças existentes entre as escolas públicas e as particulares e as dificuldades enfrentadas, por exemplo, durante um Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). “No Poli a gente não se limita a um mundinho fechado. A gente aprende muito. Os professores de filosofia e sociologia, por exemplo, nos estimulam a pensar e questionar. Tanto é que estamos ocupando a escola, e podemos dizer que, em parte é por causa disso. Mas a gente sabe que não é assim em todos os lugares. A gente sabe que a gente tem um privilégio grande. Mas não deveria ser assim. Todos deveriam ter isso”.
Por esses motivos e também pelos impostos que são pagos e não retornam para a educação, é que decidiu-se ocupar a escola. Mas os alunos também não vão ficar à toa, sentados, de braços cruzados. Conforme explicam Eliz e Jonathan, durante todos os dias de ocupação, inclusive no próximo final de semana, estarão sendo desenvolvidas atividades em prol da escola e dos alunos. “Serão limpezas, oficinas, workshops, leituras. É uma grande aula de cidadania”.
Os alunos também esclareceram que as escolas, entre elas o Polivalente, estão aceitando todas as formas de apoio, inclusive na forma de doações de alimentos para as merendas, material de higiene, etc. Porém, o que eles esperam mesmo, é que em breve, a escola não precise mais de doações ou rifas para se manter. Que a escola receba do governo o que é de direito seu. Então eles voltarão, tranqüilos às aulas.
Uma primeira reunião já estava marcada e aconteceu na última terça-feira, 17 de maio. Na data, porém o Secretário Estadual da Fazenda, Giovani Batista Feltes, não se fez presente. “Só que ele é o secretário mais importante pra nós nesse momento. É ele que pode nos dizer se o que nós queremos poderá ser pago ou não”, explicou Colliari.
A reunião de terça-feira, ainda de acordo com Colliari, no entanto, não foi de todo sem proveito. “Já que estávamos lá, aproveitamos para dialogar”, disse. Além do acordo relacionado à Brigada Militar, determinando que ela deverá respeitar as manifestações do jovens, ficou determinado que a questão relacionada ao IPE (plano de saúde do Estado) – os professores pedem o benefício com pleno atendimento e sem aumento de descontos – seria encaminhada à Assembléia Legislativa. Ficou acordado também que não serão mais permitidos investimentos por parte de Organizações Sociais (OSs) nas escolas. “Isso nos preocupava, porque qualquer empresa poderia se sentir dona dos nossos estabelecimentos de ensino”, explicou.
Os professores buscam ainda, no entanto, o fim do parcelamento de salários, o reajuste de 13,1% nos vencimentos, além do cumprimento da lei do piso — que, segundo o sindicato, está com uma defasagem de 69,44%. Eles também pedem merenda para todos os alunos e o repasse de verbas atrasadas para as escolas, que, como é o caso de Santa Cruz do Sul, vem sendo mantidas através de rifas e pagamentos efetuados aos Conselhos de Pais e Mestres (CPMs).














