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Uma viagem sob duas rodas

LUANA CIECELSKI
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“Fazer turismo usando uma bicicleta como meio de transporte”. É assim que Guilherme Cavallari, ciclista e escritor define o cicloturismo. É assim que o professor do Curso de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Santa Cruz (Unisc), escritor e poeta, Demétrio de Azeredo Soster parte em direção ao Uruguai. Tendo como companhia apenas sua bicicleta Cannondale MTB, ele parte de Santa Cruz do Sul nessa sexta-feira, 13 de janeiro. 

Em seu trajeto, Demétrio passará – descendo a BR-471 – por Encruzilhada do Sul, Pelotas, Rio Grande, indo em direção ao Chuí, no extremo sul do Rio Grande do Sul, passando, nesse percurso, pela Estação Ecológica do Taim. Depois é entrar no país vizinho e se aventurar ainda mais pelo litoral deste. Punda del Diablo, Cabo Polonio (Rocha) e Montevidéu estão no seu trajeto em direção à Colonia del Sacramento. Chegando lá, ele parte novamente. Dessa vez atravessando o país vizinho em direção a Rivera, onde chegará na fronteira com o Brasil novamente. 

 Registro feito por Demétrio durante sua viagem até Encruzilhada do Sul e de lá para cá, feita no dia 30 de outubro

Na parte brasileira da viagem, Demétrio tem mapeado todo o trajeto. Sabe exatamente onde vai passar a noite, onde estão os postos de gasolina, restaurantes, locais de hospedagem, etc. Na parte uruguaia da viagem, seu objetivo é se aventurar mais. Apesar de ter buscado diversas informações sobre o trajeto, nesse trecho ele pretende se surpreender. “Quero deixar essa parte do Uruguai mais para o acaso”, ele explica. 

Para poder viver bem isso, ele está levando um conjunto de equipamentos. Além da bicicleta carregada com água, barrinhas de cereais feitas por ele mesmo e suplementos de sais minerais – para repor o sal perdido com o suor -, também vão embarcar na viagem uma rede e um saco de dormir. “Eu vou ficar em hotel e hostel sempre que possível, até pra poder desfrutar de um sono melhor e de um banho, mas eu quero deixar um pouco mais de aventura (nesse trecho). Até porque o propósito de viajar tem muito a ver com isso”.
 
Demétrio não vai com pressa. Sua média de velocidade durante o período de preparação para essa viagem era de 20 quilômetros por hora e ele pretende manter essa média durante cerca de 7 horas diárias, totalizando uma média de 140 quilômetros percorridos por dia. Essa, no entanto, é só uma média. Em seus planos, alguns dias deverão ter mais de 160 quilômetros de pedaladas. Levando em consideração que, no fim da jornada terão sido mais de 2 mil quilômetros, Demétrio pretende levar entre 15 e 20 dias na estrada. 

O trecho mais pesado deverá ser aquele em que o professor terá a Lagoa Mirim de um lado e o Oceano Atlântico de outro, porque nesse local o vendo reina. “Eu li uns 15 livros de cicloturismo, e em todos os relatos, de todos os que passaram por ali, é dito a mesma coisa: é um trecho ruim por causa do vento. Mas eu estou muito tranquilo com isso”.

Além dos percalços do caminho, outra grande expectativa é em relação ao emocional. Foi ele um dos principais motivadores da viagem. A decisão por fazer a viagem se deu em função de um ano de 2015 difícil. “Perdi meu cachorro, quebrei meu braço e, em dezembro, minha mãe morreu”, relatou ele em seu blog – O Peregrino

Demétrio também sentia há algum tempo uma necessidade grande de realizar uma viagem de autoconhecimento. “Quando eu era adolescente eu viajava muito. E eu sentia muita alegria, nem era tanto por chegar ao destino, mas pelo simples fato de estar na estrada. Eu quero recuperar isso, porque isso vai me levar ao encontro de alguém que ficou um pouquinho pra trás”, explica. “Eu ‘tô’ muito curioso para saber quem volta.” 

O professor universitário também queria viver algo diferente, algo que o desafiasse, em que ele pudesse exercer sua autonomia, uma experiência em que ele pudesse unir jornalismo, com escrita e também com aventura. E ele já vem fazendo isso. Por meio do próprio blog, mas também por meio de colunas em jornais da região – como o próprio ‘Riovale Jornal’. Mas os relatos não vão parar por aí. Depois de voltar de sua aventura, Demétrio pretende escrever um livro narrando sua viagem e não descarta a hipótese de trabalhar em um roteiro de filme ou documentário.

Mas antes disso, Demétrio precisa chegar em Rivera. E lá ele terá duas opções: ou volta com sua bicicleta para Santa Cruz do Sul ou sua mulher o buscará de carro. Tudo vai depender de como será o trajeto até lá. Essa decisão ele só tomará quando estiver próximo do destino final. Dependerá de sua vontade, de seu aproveitamento até então.

A Operação Banda Oriental (como está sendo chamada a aventura), porém, é apenas uma das longas viagens que Demétrio tem em mente. Antes mesmo de começar a pedalar para o Uruguai ele já sabe, por exemplo, que vai querer ir de bicicleta também para a Argentina e pretende percorrer a pé os mais de 800 quilômetros do Caminho de Santiago (França e Espanha). 

Preparação foi imprescindível

Mas para realizar uma viagem desse tipo, não basta ter vontade – apesar de ela ser um item fundamental. É preciso preparação. No caso de Demétrio, ela começou no fim de 2015, mas se tornou mais intensa e oficial em abril de 2016, quando o professor também lançou o blog “O Peregrino”. Ele começou com um acompanhamento nutricional, buscando melhorar a alimentação e perder alguns quilos e seguiu com outros acompanhamentos médicos que garantiram um bom físico para que as pedaladas pudessem ser realizadas. 

Além do corpo, a mente também foi preparada para a viagem por meio de diversas leituras. Primeiro, foram leituras mais técnicas, buscando compreender o que era o cicloturismo. Em seguida vieram os relatos de viagens sob duas rodas. Entre eles estão as obras ‘Transpatagônia: pumas não comem ciclistas’ de Guilherme Cavallari, ‘Trilhando sonhos: 365 dias de bicicleta pela América do Sul’ de Thiago Fantinatti, ‘O ciclista mascarado: uma aventura de bicicleta na África Central’ de Neil Peart, ‘O mundo sem anéis: cem dias de bicicleta’ de Mariana Carpanezzi, ‘Homem livre ao redor do mundo sobre uma bicicleta’ de Danilo Perroni Machado e ‘Diários de Bicicleta’ de David Byrne. 

Outro momento de preparação imprescindível foram os pedais realizados pela região. Demétrio começou indo até Rio Pardo, percorrendo algo em torno de 35 quilômetros. Depois disso, sua pedalada mais longa o levou até Encruzilhada do Sul e de lá, de volta para Santa Cruz, o que totalizou 206 quilômetros. Somando todas as viagens realizadas ao longo de 2016, porém, Demétrio percorreu mais de 1500 quilômetros. “As estradas da região eu conheço todas”, comenta. E todas essas viagens menores lhe foram úteis. Em todas ele aprendeu muito sobre a estrada, sobre a bicicleta, sobre os equipamentos necessários, sobre as vestimentas mais adequadas, sobre alimentação e ingestão de líquidos. 

Ao longo desse processo, Demétrio também foi melhorando seus equipamentos. Depois de algumas viagens com sua “La Negra”, uma Caloi 500, ele adquiriu a “La Negra 2”, a Cannondale MTB de 16 quilos com a qual está indo para Uruguai.“La Negra 2” aos poucos foi equipada para uma viagem de longa distância. Alforges, roupas de ciclismo, faroletes, capacete, espelho retrovisor e bagageiro foram alguns dos itens adquiridos. Demétrio também realizou curso de manutenção de bicicleta e vai levar consigo ferramentas que podem ser usadas em eventuais problemas mecânicos. “Eu ‘tô’ muito preparado. O corpo tá pedindo por essa viagem”.

ROTEIRO

Demétrio sai de Santa Cruz, desce até o Chuí, de onde segue para Montevidéu e Colonia del Sacramento, para depois seguir para Rivera

CICLOTURISMO
Para ser um cicloturista, não há a necessidade de percorrer uma distância mínima ou máxima ou ter equipamentos específicos. Aliás, como aponta Guilherme Cavallari em seu livro “Manual de Montain Bike e Cicloturismo”, bolsas, alforges, trailers e afins só foram criados e começaram a ser usado mais recentemente. O cicloturismo, porém, pode ser dividido em duas modalidades: cicloturismo esportivo e cicloturismo autossuficiente. O primeiro é aquele que se utiliza da estrutura existente no caminho a ser percorrido, como postos de gasolina, hotéis, restaurantes, etc. O segundo é aquele que não se utiliza dessas estruturas. O cicloturista, nesse caso, leva consigo todos os equipamentos necessários para acampar, se alimentar, etc. No caso de Demétrio, como é possível observar, ambas as modalidades serão realizadas. Na maior parte do caminho será esportiva, mas em alguns momentos, quando não houver disponibilidade de estruturas sociais, Demétrio utilizará seus próprios equipamentos.