Fotos: Luana Ciecelski

Espaço inaugurado em 1969 homenageia os primeiros colonizadores da região
LUANA CIECELSKI
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Inaugurado em janeiro de 1969, o Monumento ao Imigrante, localizado no cruzamento entre as ruas Galvão Costa, Marechal Floriano e Tiradentes, bem no Centro de Santa Cruz do Sul, foi construído com cacos de ladrilho por Hildo Paulo Müller durante cerca de um ano. Pensada pelo Lions Clube junto com a Prefeitura de Santa Cruz, seu principal objetivo era homenagear aqueles primeiros imigrantes que chegaram à região, e com sua dedicação e esforço começaram a construir a Santa Cruz do Sul que temos hoje. No entanto, o que poucos sabem é o trabalho que essa homenagem deu.
A começar pelos milhares de pedacinhos que foram necessários para montar o mosaico que até hoje encanta quem passa pelo local. De acordo com a historiadora Maria Luiza Rauber Schuster, é sabido que Hildo, na época funcionário da Souza Cruz, fez em casa moldes de papelão para cada um dos pedacinhos e depois de desenhá-los na cerâmica, os cortou utilizando como ferramenta apenas uma turquesa e um esmerilho. “Imagine as mãos dele ao fim desse processo, deveriam estar em frangalhos, porque esse material corta e fazendo tudo isso com uma turquesa apenas, quebrando cada um daqueles pedacinhos… foi um trabalho imenso”, comentou Maria Luiza.
O filho de seu Hildo, Pedro Augusto Müller, que na época tinha cerca de 14 anos, acompanhou esse processo e diz lembrar bem das noites em claro que o pai passou. Segundo ele, filho de uma família que fazia moinhos na Alemanha e autodidata, o pai já tinha um histórico como artista. “Ele fez à mão o convite para a 1ª Festa Nacional do Fumo (Fenaf) e depois, durante a festa fez também os carros alegóricos Souza Cruz”, conta ele mostrando um álbum de documentos históricos relacionados ao seu pai, onde é possível ver os carros com carteiras de cigarro quase da altura de pessoas, feitos à mão. Junto às carteiras, em pé e em cima do carro iam as soberanas da festa.
“Então eu me lembro bem de quando o pessoal do Lions Clube chegou lá em casa e disseram: a gente quer fazer uma homenagem ao colono aqui em Santa Cruz e queríamos ver contigo se é possível. Meu pai respondeu que ele ia ver o que poderia ser feito, mas que era possível, sim. E ai começou tudo”, conta Pedro. Enquanto Hildo montava o mosaico, em casa, nas horas vagas, fins de semana e madrugadas, pedreiros e funcionários da prefeitura montaram a estrutura na praça.
Ao fim do trabalho, o Monumento ao Imigrante tinha – como ainda tem – 11 metros de largura por 3 metros de altura, e uma imagem que retrata a lavoura, espaço de trabalho do colono, a chaminé da indústria que representa o desenvolvimento, as colinas que circundam a cidade e o próprio colonizador que jogou as sementes na terra e a transformou, abrindo caminho para o crescimento e o desenvolvimento que segue em ritmo acelerado. Além disso, a estátua instalada em frente ao quebra cabeça traz o agricultor segurando sua enxada, mais uma representação do esforço dos colonizadores e daqueles que cuidaram dessa terra.
Segundo Pedro, seu pai fez tudo isso sem receber quase nada. “Na época ele cobrou cerca de 1500 cruzeiros, o que hoje corresponderia a cerca de R$ 7 mil. Era muito pouco pro trabalho que deu, mas se formos parar pra pensar o nome dele vai ficar ali por centenas de anos ainda. Muito depois que todos nós morrermos o nome dele vai estar ainda. Então, o dinheiro nem sempre é tudo”, analisou.
Além do fato de deixar sua marca na história, Hildo também gostava do que fazia. Prova disse, é que ao fim de sua vida, em 1995, monumentos feitos por ele, nos mesmos formatos do encontrado em Santa Cruz estavam espalhados por diversos municípios do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, como Tubarão, Canguçu e Encantado. Todos eles são Monumentos ao Imigrante retratando as histórias dos municípios onde foram instalados. Todos são muito parecidos e exigiram igual trabalho. Juntos, eles comprovam o carinho que Hildo tinha pelos imigrantes e a verdadeira homenagem que ele quis fazer a esse povo colonizador em cada pedacinho de cerâmica cortado.

Em centenas de pedacinhos de cerâmica, o agricultor semeia a terra
Em 2015, a revitalização
Com o passar das décadas e das sucessivas administrações municipais, o monumento que é um dos pontos turísticos do município, foi recebendo novas pinturas e revestimentos diferentes dos utilizados à época de sua construção. No entanto, em 2015 ele deverá voltar a ser como era quando Hildo o finalizou. Aliado às intervenções que estão transformando o trânsito do entorno e o próprio monumento em uma praça de lazer para a comunidade, o painel que homenageia os primeiros imigrantes alemães, será revitalizado pela prefeitura.
Uma das ideias, de acordo com o prefeito Telmo Kirst, é refazer a pintura nas cores originais. Para isso, eles contarão com o auxílio do próprio Pedro Augusto, filho de Hildo. “Ele vai nos orientar sobre como proceder para trazer de volta as características originais deste importante marco histórico de Santa Cruz do Sul, valorizando ainda mais esta obra de arte”, disse.
Conforme Pedro, a busca pelas cores originais da estrutura sobre a qual está disposta a paisagem deverá ressaltar seu colorido. “A moldura e o fundo em tons escuros acabam matando a imagem. A cor original era um rosa claro, eu me lembro bem, e ele ressaltava a obra”, explicou Pedro. Segundo ele, também é preciso ter em mente que o trabalho de seu pai é uma obra de arte. “Tu não vai em um leilão na Europa e compra um quadro do Van Gogh pra chegar em Santa Cruz e mandar pintar ele outra vez ou mudar alguma cor da obra porque tu não gostou. Se fizer isso, a obra perde o valor. Com o monumento do imigrante é o mesmo”, pontuou.














