Início Especiais Eles pintam, costuram e bordam

Eles pintam, costuram e bordam

LUANA CIECELSKI
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Pra quem olha de fora, as mãos de alguém que está fazendo crochê parecem fazer movimentos estranhos. Mas para o artesão ou artesã, tudo faz muito sentido. São algumas correntinhas, uma laçada na agulha, passa por dentro do ponto anterior, o fio é puxado, mais uma correntinhae pronto. Está feito mais um ponto. Faltam só mais algumas centenas para que o cachecol esteja pronto. Com o tricô e suas agulhas grandes e compridas, não é muito diferente.

Esse é o trabalho de, pelo menos, 100 mil pessoas no Rio Grande do Sul, que estão cadastrados no Programa Gaúcho do Artesanato. É também o trabalho de diversos santa-cruzenses, inclusive o de Maisa Esteves, que há 20 anos trabalha como artesã. Especialista em patchwork, crochê e origami, ela é uma das trabalhadoras da Casa do Artesão, que funciona junto à sede do FGTAS/Sine, na Rua Marechal Floriano, 907.Ela está ali desde agosto de 2015, quando o espaço foi inaugurado.

 Maisa Esteves:

Para Maisa, a rotina de um artesão é tranquila. Mas isso não significa que é fácil. Ela tem a vantagem de poder trabalhar em casa na maior parte do tempo e faz seus próprios horários, mas em compensação também são comuns e frequentes os problemas físicos causados pelos movimentos repetitivos, como dores nas mãos e braços, dor na coluna e também olhos cansados do esforço.O mais difícil, no entanto, é a competição com a indústria. “As fábricas fazem produtos em grande escala e comercializam por um preço mais baixo. E isso dificulta pra nós”, conta Maisa. No entanto, os artesãos não desanimam.

Isso porque, de acordo com a própria artesã, para a maior parte das pessoas que trabalha com o artesanato, a satisfação de ver a peça, o quadro, o objeto pronto, é a maior recompensa. É preciso entender que a descrição do início do texto, da agulha passando por entre os fios, não é um bicho de sete cabeças para um profissional da área, mas também não é fácil. Além das dores já citadas, fazer uma peça artesanal exige suor. Então, um bom resultado é o que eles mais esperam. “Depois que a gente vê pronto, a gente já fica feliz. Se vier o retorno financeiro, é melhor, claro, mas se não vier, já alcançamos o que queríamos”, Maisa observa.

Apoio é bom e necessário

Para o responsável local pelo Programa Gaúcho do Artesanato, Jorge Elias Wolman, essa dificuldade nas vendas e a falta de reconhecimento do trabalho artesanal, são problemas bem reais, e por isso, ele não perde tempo em defender: “Pode até ser mais barato ali fora, mas não há comparação entre uma peça feita em uma fábrica e uma peça feita por um artesão”, ele diz. “Além disso, as peças artesanais são sempre únicas, porque mesmo que o profissional tente fazer algo em escala, cada peça depende de sua inspiração”, pontua.

 Produtos expostos na Casa do Artes‹o

Mas ele também sabe que só elogiar não basta. Por isso defende que os artesãos também devem receber incentivos para realizar suas atividades. E ele garante que é o que vem tentando fazer, e que a Casa do Artesão é uma das maiores conquistas, por exemplo. Segundo ele, ela possibilitou um local permanente para os artistas mostrarem seus trabalhos e também valorizou suas atuações em Santa Cruz. Porém, para Jorge, a maior forma de valorizar o artesão – já que a Casa mesmo abrindo inscrições periodicamente (confira no boxe) não pode mostrar o trabalho de todos – é através da Carteira de Artesão, também oferecida pelo FGTAS.

Como se faz a carteirinha?

Para solicitar a primeira via da Carteira de Artesão, o interessado deve ter em mãos uma foto 3×4, uma cópia da Carteira de Identidade e uma do CPF e uma cópia do comprovante de endereço. Além disso, deve pagar uma taxa de R$ 22,00. Essa taxa é isenta para pessoas que tenham mais 60 anos, indígenas e apenados do regime fechado.

Apresentados todos os documentos, uma data é marcada para que seja realizado um Teste de Habilidade Artesanal. O artesão terá então que apresentar três peças prontas de cada técnica artesanal que ele queira colocar em sua carteira e também desenvolver uma peça inteira diante de um avaliador.

Esse teste é a realizado, de acordo com Jorge, em uma sala dentro da sede do FGTAS/Sine, onde o artesão pode montar a estrutura necessária para confeccionar a peça sem ser interrompido. Durante e após a confecção são avaliadas a habilidade, a criatividade, o domínio da técnica e o acabamento do trabalho. O avaliador faz um relatório que é enviado para a Casa do Artesão em Porto Alegre, onde a Carteira do Artesão é confeccionada.

A Carteira de Artesão serve como uma identidade profissional, dá direito de contribuir para a Previdência Social, isenta o artesão do ICMS e permite a emissão de notas fiscais, de forma que ele possa transportar seus produtos para onde quiser. Também permite a participação em feiras e exposições e dá direito a descontos na compra de matéria prima. Jorge lembra ainda que a carteira é valida no Brasil e também em outros países do mundo, caso o artesão tenha interesse em comercializar seus produtos no exterior.

Casa do Artesão está com inscrições abertas
A cada seis meses, em média, a Casa do Artesão procura abrir espaço para novos profissionais exporem seus trabalhos, e a partir da próxima segunda-feira, 2 de maio, inscrições para profissionais que queiram utilizar o espaço estarão abertas. Para se candidatar a uma das 10 vagas é preciso estar com a Carteira de Artesão atualizada e apresentá-la no momento da inscrição.
    
Conforme esclarece Jorge, o processo de inscrições seguirá até a sexta-feira, dia 13 de maio, na própria na Agência FGTAS/SINE. Na manhã do dia 16 de maio, será realizado um processo seletivo com os inscritos. Com o objetivo de verificar a técnica dos candidatos e a qualidade dos produtos, cada um deles deverá apresentar de entre cinco e dez peças artesanais feitas por ele. O resultado será divulgado às 16horas do mesmo dia, na Casa do Artesão. Na oportunidade, ocorrerá a primeira reunião com os novos expositores.
    
Aos interessados, Jorge esclarece ainda que a loja é toda organizada e o funcionamento coordenado pelos próprios artesãos que se revezam no atendimento. A venda dos produtos também é toda controlada através de etiquetas anexadas às peças e que contém o nome do vendedor e o valor que ele colocou em seu produto, e também através de um caderno de controle dessas vendas.

O coordenador lembra ainda que a Casa do Artesão é um espaço oferecido de forma totalmente gratuita para os inscritos, que não precisam contribuir com aluguel ou luz. O único acordo existente entre eles, é o de que 10% do preço do produto é encaminhado a um caixa reserva da loja, que é utilizado para melhorias dentro do espaço, como instalação de prateleiras e compra de produtos que sejam de benefício de todos. Os artesãos que já estão atuado na Casa do artesão não precisarão sair para que os novos participem.