Colocar em prática ações que visem minimizar os danos associados ao uso de drogas psicoativas em pessoas que não conseguem ou que não querem parar de usá-las. Esse é o trabalho dos chamados redutores de danos, profissionais de saúde que, desde o início de março deste ano, iniciaram suas atividades em Santa Cruz do Sul, através do Programa da Redução de Danos – vinculado ao CAPS AD III e Capsia – iniciativa que retorna agora sob um novo enfoque: o da atenção integral ao paciente.
Como explica o coordenador do programa, Márcio Barbosa, ao invés de concentrar esforços na busca de uma total abstinência por parte do usuário de álcool e drogas, o que poderia ser improdutivo segundo esse novo enfoque, o trabalho do redutor de danos passou a ser calcado mais fortemente nos vínculos que ele estabelece com os pacientes e na realização de um trabalho de acompanhamento a longo prazo. “Para o usuário o redutor de danos passa a ser uma referência e ele encontra acolhimento dentro de uma sociedade que, na maior parte das vezes, o discrimina”, disse.
Em Santa Cruz do Sul os redutores iniciaram suas atividades no dia 5 de março, mas antes de irem a campo, passaram por uma etapa de capacitação para abordagem ao usuário. Conforme o Secretário da Saúde, Carlos Behm, após a inauguração do CAPS AD III , o Programa de Redução de Danos vem somar na atenção integral aos dependentes químicos.
Hoje a equipe que atua no programa é composta por quatro redutores e um coordenador. Todos recebem capacitação permanente junto à Escola de Saúde Pública, de Porto Alegre, onde participam de treinamento uma vez por mês. Três trabalham diretamente com pacientes do CAPS AD III e uma desenvolve suas atividades no Capsia, junto à crianças e adolescentes.
O trabalho, no entanto, não fica restrito ao acompanhamento desses usuários, mas envolve toda a rede do município – Estratégia de Saúde da Família (ESFs), Centros de Atendimento Psicossocial (CAPs), Unidades Básicas de Saúde (UBS) e demais secretarias do Município.
Nesta primeira etapa a atuação dos redutores a campo vai se concentrar no bairro Bom Jesus, onde constata-se a maior incidência de usuários de drogas nas ruas, em especial de crack. A abordagem, conforme explica o redutor de danos Daniel Ferreira da Silva, será feita de modo a pensar além do uso de drogas, mas contemplando também outras demandas. “Trata-se de um novo olhar. Precisamos entender que não estamos apenas diante de um usuário de drogas, mas de um ser humano que apresenta inúmeras vulnerabilidades, e o vício é apenas uma delas”. “Se for o momento de falar das drogas, vamos falar, mas vamos procurar acessar esta pessoa também de outras formas”, explicou.
DECOM/PMSCS/Divulgação
Equipe de redutores que atuará no municipio
Vinculado à saúde mental o programa de Redução de Danos encontra hoje um campo de abrangência mais amplo, tanto que passou a denominar-se Programa de Promoção em Saúde e Redução de Danos.
Diferente do que ocorria quando de sua concepção inicial, quando havia um grande contingente de usuários de drogas injetáveis e um dos objetivos era evitar a transmissão de doenças através do compartilhamento de seringas, hoje o perfil dos usuários mudou e a grande maioria é usuária de crack.
Muitas vezes, como explica a assistente social Anelise Aprato, Coordenadora Municipal de Saúde mental, o usuário faz uso de diversas substâncias e podemos amenizar os danos à saúde a medida que ele vai deixando aos poucos de usar uma ou outra. “Mas para isso precisamos conquistar a confiança dessa pessoa. Acreditamos que com a atenção integral a esse usuário, como o envolvimento com outras questões que vão além da saúde, mas que dizem respeito a trabalho, relacionamento familiar e estudos, poderemos obter resultados mais eficazes ”, disse.
Combate à drogadição permanece entre as prioridades do GGIM
Principal bandeira levantada pelo Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM), no ano de 2013, a implantação do CAPS AD III veio ampliar os serviços de atendimento aos usuários de droga e álcool no município. Passados três meses do início das atividades, as vagas abertas para desintoxicação já resultaram na lotação máxima da Comunidade Terapêutica Recomeçar. Isso porque os casos leves a moderados que precisavam ficar em fila de espera para serem atendidos em outros municípios, hoje encontram tratamento adequado em Santa Cruz do Sul.
No decorrer do ano passado uma série de reuniões envolvendo Ministério Público, secretarias municipais, hospitais, 13ª CRS, OAB, Defensoria Pública e órgãos de segurança pública foram realizadas com o propósito de encontrar soluções para o problema da falta de leitos no município. As negociações seguem junto à 13ª CRS e aos hospitais locais, na busca pela ampliação de vagas para pacientes graves.
Também durante o ano, três rondas sociais resultaram em diversos encaminhamentos de moradores de rua e usuários de álcool e drogas para o albergue municipal e para tratamento na rede básica de saúde. As rondas vão continuar este ano, mas além dos monitores sociais, agora acompanham também os redutores de danos, com uma abordagem diferenciada.
Para o secretário de Segurança, Cidadania, Relações Comunitárias e Esportes, Henrique Hermany, o problema da drogadição no município é uma questão a ser enfrentada com urgência por toda a sociedade para que não ganhe proporções maiores. “Hoje não existe cracolândia em Santa Cruz do Sul, o que há são casos crônicos que acabam migrando de um bairro a outro”, disse.
Como a situação mais crítica hoje está no bairro Bom Jesus, é lá que o trabalho será intensificado. Com o ingresso dos redutores de danos será feita uma busca ativa dos usuários – também de pacientes que abandonaram o tratamento – de modo que sejam acolhidos para acompanhamento pela rede de saúde.














