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Revista sobre detentas marca o encerramento da Feira do Livro

Everson Boeck
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O último final de semana da Feira do Livro será marcado pelo lançamento de livros e revistas. Neste sábado, às 15 horas, ocorre o lançamento da segunda edição da Revista “À Flor da Pele”, resultante do trabalho com as detentas do Presídio Regional de Santa Cruz do Sul, o qual conta com o apoio Riovale Jornal, Instituto Padre Reus e Editora Alcance. Criado em 2012 pela atual coordenadora de Cultura de Vera Cruz, Marli Silveira, o projeto consiste na realização de oficinas e workshops que têm por finalidade incentivar a cultura e a arte entre as mulheres detentas. Em agosto deste ano, a iniciativa foi apresentada na Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul (Fase), em Porto Alegre.

Entrevista com a idealizadora

RJ – Como surgiu a ideia e como transcorreu o projeto nestes dois anos?
Marli –
Em março de 2012 eu atuava na Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Santa Cruz do Sul e, juntamente com outras pessoas, fui realizar uma ação com as mulheres no Presídio, tendo em vista o próprio 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Não tínhamos pretensão alguma de realizar um projeto, mas visualizando a realidade delas sentimos o quão importante era um projeto social voltado para a área carcerária feminina. Através de encontros semanais, desenvolvemos oficinas variadas, inclusive de danças, para que elas tenham atividades de descontração. Elas adoram. Já a revista é resultado das produções literárias a partir de produção de textos e contação de histórias onde elas expressam seus sentimentos. Não desenvolvemos com os homens porque é um público muito maior e mais complexo, mas não está descartado.

RJ – Como as detentas receberam esse projeto? O que esse trabalho mostrou para ti?
Marli
– Sempre tivemos uma receptividade muito boa. A maioria delas está ali por delitos envolvendo drogas. Mesmo com atividades diferenciadas, sempre trabalhamos com produção de texto porque é a melhor forma para elas se expressarem. No papel elas depositam suas angústias, seus sonhos, seus planos. Percebemos o quanto é forte a questão da família, dos filhos; percebemos o quanto é caro estar longe das mães e dos filhos. elas reconhecem seus erros. Fica muito claro que elas querem sair e recomeçar.

RJ – Cite alguns exemplos de textos que te chamaram a atenção.
Marli –
Um dos textos que me impressionou muito é “Escutar a Distância”. Veja bem, não é “à distância”. Ela se refere à distância como alguém ou algo palpável possuidor de uma sonoridade. Só pode ouvir a distância quem tem a noção exta do que é estar longe, separado, segregado do convívio social. Todos os envolvidos ficam sensibilizados. Outros textos falam sobre arrependimento, sobre desejo de uma nova oportunidade. Outros falam de saudade, de família, de perdão.

RJ – Qual tua visão do projeto lá dentro, para as detentas?
Marli
– Com muita clareza sabemos que o projeto não tem um impacto, nem a capacidade de mudar a realidade carcerária brasileira, nem o objetivo dele é este. A intenção é estarmos solidários a esta realidade e não excluir as detentas, é fazer com que elas sejam vistas, valorizadas e se sintam vivas e melhores. Claro, ficaremos felizes se ele for exemplo para outros municípios também desenvolvam esta ação. Este projeto ameniza algumas situações pontuais, mas é preciso que a sociedade repense acerca dos processos de ressocialização carcerária.

RJ – Por que a capa da revista foi mantida da edição anterior?
Marli
– O desenho da capa foi feito por uma detenta que estava o Presídio Regional de Santa Cruz do Sul quando confeccionamos a primeira edição. Por esse motivo decidimos que a capa seria mantida.

RJ – Recentemente o projeto foi apresentado na Fase. O que isso significa para ti?
Marli
– Estamos caminhando com o projeto e fazendo ele acontecer através de parcerias, pessoas e empresas que acreditam que levar arte para dentro do Presídio é importante. Muitas pessoas já trabalharam nele e muitos ainda continuam. Fico muito feliz em ver que outras pessoas acreditam nesta mesma ideia.

Everson Boeck

Marli Silveira, idealizadora e coordenadora do projeto,
com a segunda edição da revista