Início Geral Exclusão social é fator decisivo

Exclusão social é fator decisivo

Jéssica Ferreira
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O atentado em Paris contra o jornal “Charlie Hebdo”, cometido em nome da punição dos que ofenderiam Maomé, é condenado por uma parcela dos islâmicos franceses. Afinal, uma série de ocorrências negativas pode advir do atentado terrorista. Depois do ataque, aconteceram episódios de violência na capital francesa e em outras cidades do país, protagonizados por jovens muçulmanos de nacionalidade francesa, atingidos fortemente pelo desemprego, pela exclusão e pela discriminação. Estes problemas sociais que atingem os muçulmanos franceses podem se ampliar devido ao atentado. Em entrevista ao Riovale Jornal, o professor de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), formado em Ciências da Informação e da Comunicação e Novas Tecnologias pela Universidade de Paris em 2008, Josmar Reyes, comenta sua visão sobre o massacre do “Charlie Hebdo”, que deixou 12 mortos e 11 feridos.
 
Riovale Jornal – Sobre o ocorrido, qual sua visão e reação? Você conversou com amigos seus sobre isso?
Josmar Reyes – Em relação ao atentado, ao massacre, à carnificina que ocorreu na França, a principal reação é de absoluto espanto. Ouvi várias versões distintas de amigos brasileiros que estão por lá ou que já moraram lá, e a reação de todos também é de espanto, mal-estar e de perplexidade perante o fato. Por outro lado, há reações de outros que pela dimensão da fatalidade se alienaram, ou então, há inúmeras reações também de solidariedade.
Acredito que de uma forma, se possível, possa se tirar algo de bom nisso, isto é, a solidariedade entre as pessoas e a plena consciência de que existe uma necessidade urgente de mudanças. No mesmo sentido fazer uma reflexão em relação aos valores, às atitudes, enfim, que pensem em “que cidade queremos construir?”. 
Muitos dos meus amigos participaram da marcha republicana e isso foi um momento de solenidade, conforme visto em todas as coberturas jornalísticas, foi um ilustre momento de união da sociedade em torno do ocorrido.
Tudo que ocasionou o atentado, a palavra-chave é a “liberdade de expressão”, e deve-se ter uma atenção especial a isso, não se pode fechar os olhos para algo que está acontecendo. Até mesmo porque muita coisa pode acarretar ainda, justamente devido ao acontecimento ter sido na França e ter percorrido o mundo todo, ou seja, depois desse atentado muitos outros já aconteceram em outros lugares e todos de certa forma estão ligados. 
Há outros exemplos desses atentados. Na verdade existe uma união do ponto de vista ideológico dos mesmos, porque eles são oriundos das mesmas “facções” e o que acontece é isso. Tanto é que a marcha republicana foi marcada num primeiro momento por essa união de todos esses representantes de um número bastante significativo de países, em relação ao valor da liberdade.
 
RJ – Em sua visão em relação aos cartunistas, como será daqui para frente?
Josmar – O que penso nos cartunistas, em termos gerais em relação aos jornalistas, à sociedade, mídia, particularmente vejo que isso causou um temor, uma retração, e uma dificuldade de expressão que é evidente, porque as pessoas ficam com temor depois dessa reação inacreditável.
Mas eu acho o seguinte, vemos que, por exemplo, os atentados dirigidos por fundamentalistas, em nome das religiões (quais quer que sejam), eles querem atingir uma ideologia, ou seja, aconteceu esse massacre, essa carnificina em relação a alguns cartunistas agora, mas acontecem atentados assim há tempos já, como as guerras da Palestina e Israel. Porém a paisagem são os cartunistas, mas o que aconteceu logo depois? O ataque ao supermercado judeu. Ou seja, a intenção era atingir a questão religiosa.  Os cartunistas representaram o ataque às religiões assim como, por exemplo, o Judaísmo representa o ataque ao Islamismo. E não é apenas questão religiosa, por trás também há questões políticas e ideológicas. Então, eu acho que não são apenas os cartunistas que correm riscos. O que eles querem é intimidar quem se opõe às ideologias e às questões religiosas. 
 
RJ – Qual a situação dos mulçumanos franceses em sua visão?
Josmar – Uma das coisas intrigantes no massacre é que os três assassinos eram franceses. Quer dizer, eles entram nessas facções, mas significa que o mal-estar se dá por não receber uma integração da sociedade francesa. Tanto é que se fala em muçulmanos, mas antes de serem muçulmanos, eles são cidadãos franceses, ou seja, eles mataram cidadãos tão franceses quanto eles, isto é, a questão da religião vai além da situação de cidadania e nacionalidade.
O que vemos na França e deveria ser repensado, é a exclusão social a estes que já foram, ou são filhos, netos de estrangeiros e não são considerados cidadãos franceses igualmente como outros, apesar de passaporte ou carteira de nacionalidade. Então, de certa forma, podem-se ver até mesmo esses assassinos como vítimas da sociedade. 
 
RJ – Você está de malas prontas para Paris, o que espera encontrar por lá?
Josmar – Eu já acompanhei e já vivi situações de tensão e paranoia. Eu morava na França nos anos 90 quando houve um atentado no metrô de Paris. Na época tinha um conflito entre a França e a Argélia, com problemas políticos graves. Esse atentado matou uma série de pessoas e deixou muitas feridas. Na França, já aconteceram vários ataques terroristas. Por exemplo, ocorreu um atentado em que haviam colocado uma bomba dentro de uma lixeira. Logo em sequência, foram tomadas medidas drásticas. Por exemplo, esse acontecimento acarretou que não houvesse mais lixeiras fechadas. Hoje na França todas as lixeiras são visíveis e transparentes. 
Também em relação ao controle de fronteiras, eu passei por outra situação. Fiz uma viagem logo depois da Guerra do Golfo em janeiro de 1991, de Nova York para Tel Aviv, com escala em Milão. O controle de passagem pelo aeroporto é absolutamente rigoroso. Então, são séries de medidas que adotam para total segurança, e o que está instalado é um clima de paranoia e de medo, mas a vida continua, as pessoas continuam viajando, claro, correndo riscos. Estamos sujeitos a algo acontecer, mas a vida continua. 
Eu penso o seguinte: ou a pessoa se isola de tudo, ou continua. Eu tenho amigos, por exemplo, que decidiram que por um tempo não vão mais entrar em metrôs. Sei que corro o risco de encontrar inúmeras situações negativas, sei que o clima por lá é de tensão e medo, porém, enquanto isso não mudar, vamos continuar correndo riscos.
 
Jéssica Ferreira
Josmar morou na França e viaja com frequência para o país europeu: “Clima por lá é de tensão e medo”