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Hospitais filantrópicos podem paralisar

LUANA CIECELSKI
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Que a situação da saúde no Rio Grande do Sul e no Brasil não vai bem, todo sabem, ou pelo menos têm uma noção. Porém, o quão difícil está manter hospitais e casas de saúde com a falta de repasses por parte dos governos estadual e federal, é algo que só os diretores desses espaços conhecem. E foi com o objetivo de divulgar esse problema para a comunidade e governantes que uma grande reunião aconteceu na manhã da última quinta-feira, 14 de março, no auditório Dante Barone da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul: o Ato em defesa das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos. 

O encontro reuniu cerca de mil pessoas, de 245 casas de saúde filantrópicas de todo o Rio Grande do Sul. Representantes do Hospital Santa Cruz, do Hospital Ana Nery e do Sindicato das Santas Casas e Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos do Vale do Rio Pardo também estavam presentes. Além da situação financeira de cada região, eles também puderam discutir sobre os reflexos dos problemas financeiros para os trabalhadores e para a população. 

De acordo com o Presidente da Federação de Santas Casas e Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos do Rio Grande do Sul, Francisco Soares Ferrer, o encontro foi extremamente produtivo e pôde-se chegar a diversas conclusões, que já eram esperadas. Soube-se, por exemplo, que 35% dos hospitais do estado não estão conseguindo manter a folha de pagamento em dia, que em 2015 o quadro de funcionários reduziu 6% (4 mil demissões), que os honorários médicos estão atrasados em 60% das instituições, que o FGTS e o INSS estão em dívida em 35% das casas de saúde e que na soma total, já  existe uma dívida de cerca de R$1,4 bilhão. 

Boa parte disso está acontecendo porque em 2015 não houve um cronograma linear de pagamentos por parte do governo do Estado e em 2016 o problema continua. Outro grande problema é a falta de repasses da União. Além disso, os hospitais se queixam da histórica defasagem nos custos da tabela de procedimentos do SUS. Atualmente a diferença entre o custo e a receita é de até 120%. 

Felizmente, de acordo com Presidente da Federação de Santas Casas, a reunião rendeu alguns frutos. Além da decisão de que a classe se manterá em uma assembleia permanente, e de que continuarão sendo buscados, com o auxílio da frente parlamentar que estava presente no evento, os R$ 300 milhões que foram prometidos pelo Governo do Estado para 2016, uma carta também foi escrita para ser entregue ao governantes. 

Essa carta contém os relatos dos representantes de cada região, os números e um balanço da situação geral da saúde no estado, além das reivindicações da classe. Ela foi entregue ao Secretário da Casa Civil, Márcio Biolchi, durante um ato que foi realizado após a reunião, no início da tarde de quinta, onde as mil pessoas presentes na Assembleia Legislativa se posicionaram em frente ao Palácio Piratini. Biolchi se comprometeu a passar a carta para as demais autoridades e dar um retorno até o dia 1º de maio, dia do trabalhador. 

Por fim, também ficou decidido que se o governo do Estado não der nenhum retorno até o dia 1º de maio, a classe fará uma paralisação na semana subsequente, em uma data ainda a ser estipulada. 

Região bem representada

Em Santa Cruz do Sul, a situação não poderia ser diferente. Em seu discurso durante o encontro, o Presidente do Sindicato das Santas Casas e Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos do Vale do Rio Pardo, Celso Jair dos Santos Teixeira, destacou que todos os 15 hospitais da região estão enfrentando problemas.  “É um momento de tristeza. Estou há 35 anos na área, e nesse tempo vivi crises muitas outras vezes, mas igual a essa jamais”, ele comentou. Ainda segundo ele, a sensação é a de ter sido esquecido pelo governo. “Antes atravessávamos crises juntos, conversando e buscando as soluções. Hoje nem querem nos receber”, criticou. 

Ele também falou sobre o julgamento que está sendo feito dos diretores das casas de saúde. “Estão nos chamando de maus gestores, mas nós não podemos aceitar isso. Maus gestores são os nossos governantes que não fazem os repasses e que não dão atenção à saúde. Nós estamos lá, todos os dias, atendendo as pessoas com ou sem condições, dilapidando as nossas estruturas para conseguir dar contar, para conseguir carregar o SUS nas costas”, manifestou.      

Agenda 2020

Indo de acordo com o que apresentaram os diretores de hospitais e presidentes de sindicatos, há algumas semanas a pesquisa Sinaleira 2020, que está analisando a situação socioeconômica das 50 maiores cidades do Rio Grande do Sul, indicou que a situação da saúde em Santa Cruz do Sul está com o sinal amarelo acesso. No caso da pesquisa, indo além dos problemas financeiros, e abordando a forma como eles podem estar repercutindo, foram sinalizados como “precisando de mais atenção”, o número de leitos disponíveis para a comunidade e a taxa de mortalidade infantil. 

Em relação ao número de leitos, de acordo com a pesquisa, existem entre 2,5 e 2,9 leitos para cada mil habitantes em Santa Cruz. A meta estipulada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no entanto, estabelece uma média de 3 a 3,5 leitos para mil habitantes.

Já em relação à taxa de mortalidade, Santa Cruz do Sul está com números considerados intermediários, ou seja, uma média de 5,7 a 12 mortes para cada mil nascidos vivos. Esse é um número menor do que as médias do Brasil e do Rio Grande do Sul, que têm mais de 12 mortes por mil nascidos vivos, porém ainda não alcançou a meta que é de menos de 5,7 mortes. 
  
Para o Presidente da Federação de Santas Casas e Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos do Rio Grande do Sul, Francisco Soares Ferrer, isso é, sim um reflexo da falta de repasses, e as possibilidades que os hospitais terão, nos próximos meses, de melhorar essas situação, serão mínimas, mesmo que o governo decida liberar os recursos que vem trancando desde janeiro de 2015. 
    
“A falta de repasses reduz os funcionários, reduz a assistência, reduz o número de atendimentos e sua qualidade, e reduz também o número de leitos. A próxima conseqüência é aumentar o número de pessoas com problemas de saúde ou que chegam a morte, infelizmente”, declarou. Como prova disso, em 2015 foram contabilizadas 46 mil internações a menos e 4,2 mil exames de diagnóstico a menos realizados pelo SUS.