Início Geral Comércio vendeu mais do que em 2015

Comércio vendeu mais do que em 2015

LUANA CIECELSKI
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O ano de 2016 não está sendo o mais favorável para a economia, mas ao que tudo indica, também já houve piores. Ou pelo menos essa é a sensação que teve o presidente da Câmara de Dirigente e Lojistas (CDL) de Santa Cruz do Sul, Lauro Mainardi, após as compras de Dia dos Pais. 

Consumidor deve continuar comprando, porém com parcimônia

É verdade que a expectativa não foi alcançada – os comerciantes gostariam de ter vendido pelo menos 10% a mais do que em 2015 – porém, as vendas já foram um pouco mais altas. Cerca de 5%. “Resgatamos um pouco daquilo que foi perdido no ano passado. Não foi tudo o que queríamos, mas já é um alento”, disse Mainardi. 

Em parte, de acordo com o presidente do CDL, esse aumento também se deve pelas campanhas comerciais que vem sendo feitas. “A gente tem essa campanha continuada do CDL que vinha desde dezembro, no Natal, e que foi agregando lojas, oferecendo brindes e fazendo sorteios de prêmios”, disse Mainardi. 

O comércio também tem a aproveitado as mudanças de temperaturas para fazer as primeiras liquidações de inverno. “A gente acredita que tudo isso chamou a atenção para o comércio, sim, e que foi bom para os clientes também, esperamos que eles tenham aproveitado”. 

Para compreender o papel dessas promoções e campanhas como formas de driblar a crise, o Riovale Jornal foi buscar a opinião de um especialista no assunto. Mestre em Economia pela UFRGS e Professor de economia na UNISC, Jonattan Rodriguez Castelli, falou sobre o cenário atual e sobre como devem agir comerciantes e consumidores.
As liquidações são essenciais para que o consumo possa ser ampliado, levando em conta o cenário de crise econômica, que desestimula o consumo? Por quê?
Sem dúvida, as liquidações servem como um importante estímulo para a ampliação do consumo. A crise econômica pela qual o Brasil passa impactou negativamente a demanda agregada. A redução do crédito, combinado a uma taxa de juros mais elevada (a fim de combater a inflação) deterioraram a renda real de parte dos brasileiros, o que reduz o consumo, de maneira geral. Nesse sentido, liquidações possibilitam que, com a mesma renda, o indivíduo consiga comprar mais. Isso favorece tanto os consumidores quanto os vendedores, pois suas receitas podem se elevar, além de eliminarem uma parte dos seus estoques e, consequentemente, diminuir seus custos para manter esses bens estocados. Por estarmos no final do inverno, essa estratégia se torna ainda mais sensata para aqueles produtos de caráter mais sazonal e que dependem do clima para terem uma demanda maior. 
Além das liquidações, quais estratégias o comerciante pode adotar para não sair muito prejudicado?
Uma estratégia válida é manter sólidos contratos com seus fornecedores, de forma a reduzir os custos de transação da empresa e, inclusive, buscar descontos na compra de mercadorias. A cooperação entre as empresas, mesmo entre concorrentes, também é fundamental. Uma ação, nessa perspectiva, é a realização de vendas coletivas (no estilo das realizadas pelo site Peixe Urbano). O uso intensivo da internet como plataforma comercial, também é uma oportunidade que emerge, possibilitando à empresa atingir um público mais amplo do que o local.  Momentos de crise podem trazer à tona oportunidades para aqueles que souberem aproveita-las. Ser inovador e criativo, nesse período, é o caminho. Além das promoções, estratégias de marketing, programas de fidelização do cliente e de crédito diferenciado, podem ser uma saída.  
E o consumidor? Qual deve ser sua postura e seu comportamento para não prejudicar a si mesmo e, ao mesmo tempo, não prejudicar o ciclo de consumo em geral?
O consumidor deve ser parcimonioso nesse momento. Não assumir dívidas que estejam muito além de sua capacidade financeira. Contudo, isso não significa parar de consumir, pois esse tipo de atitude poderia reduzir a demanda agregada, caindo-se assim, no que o economista inglês John Maynard Keynes denominou de “Paradoxo da Parcimônia”. Essa é uma situação em que, diante de uma crise econômica, os indivíduos poupam mais, reduzindo, assim, a receita das empresas que, por sua vez, demitem trabalhadores e diminuem sua produção, terminando por, enfim, agravar ainda mais a situação econômica. Portanto, o consumidor deve continuar comprando bens. Porém, aproveitando-se das oportunidades de promoções e liquidações que surgirem, para que sua renda pessoal seja melhor gasta. Evidentemente que aqui não se está pregando que o consumidor se “atire” em todas promoções com as quais se deparar, mas sim monitorá-las com atenção e usufruir daquelas que atendam suas necessidades. 
Neste contexto do consumo e da crise, como Santa Cruz do Sul se posiciona? A situação em nossa cidade é muito diferente do cenário nacional?
Como sabemos, a saúde econômica do País e do Estado do RS vem piorando. O PIB brasileiro decresceu 5,4% entre o primeiro trimestre de 2015 e o primeiro trimestre de 2016. O RS, nesse mesmo período, sofreu uma queda de 4,3% de seu PIB. Infelizmente, os últimos dados consolidados para o munícipio de Santa Cruz se referem ao ano de 2013, o que prejudica a análise para a região. Esses dados, no entanto, indicam uma melhoria de 22,6% do PIB nominal santa-cruzense, devido, principalmente, ao desempenho da indústria do fumo (estimulada, provavelmente, pela transferência das operações de fábrica da Universal Leaf Tabaco de Santa Catarina para Santa Cruz do Sul). Contudo, deve-se destacar que outros setores tiveram um desempenho negativo. O setor varejista da cidade, por exemplo, teve uma queda de 7,16% no volume de suas vendas entre maio de 2015 e maio de 2016. Esse resultado preocupante alinha-se ao contexto econômico nacional (e estadual) e à queda de renda da população. Dessa maneira, a situação do munícipio de Santa Cruz não é tão diferente do cenário nacional. O recente bom desempenho do PIB municipal, baseado na indústria do fumo, pode não refletir a situação de outras atividades econômicas do munícipio. O importante agora é tentar analisar mais a fundo os diferentes setores da economia santa-cruzense e buscar uma maneira para que os ganhos da indústria do fumo estimulem outras atividades econômicas locais e assim se retome o crescimento econômico da região.