Viviane Scherer Fetzer
[email protected]
Santa Cruz do Sul conta com um Comitê Municipal de Prevenção do Suicídio, desde 2015, formado por algumas entidades da cidade. A iniciativa surgiu a partir dos elevados índices de suicídio, bem como de comportamentos suicidas no município. Segundo dados do Hospital Santa Cruz, de 1º de janeiro de 2016 a 18 de maio de 2016, foram registradas 49 tentativas de homicídio. Desse número 23 casos foram encaminhados ao Centro de Atenção Psicossocial II (CAPS II) e os outros 26 foram direcionados a outros serviços de atenção à saúde. Dos 23 encaminhados ao CAPS II, 15 eram mulheres e 8 homens, sendo que 18 ainda fazem acompanhamento.
O Comitê desenvolve estratégias com entidades municipais para a prevenção desse problema de saúde pública, com o objetivo de contextualizar as problemáticas envolvidas e apresentar medidas preventivas que possam ser implementadas nas mais diversas esferas de atenção multi setorial. Participam do Comitê, o Hospital Santa Cruz, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), a Secretaria Municipal de Educação e Cultura (Smec), a 6ª Coordenadoria Regional de Educação (6ª CRE), a 13ª Coordenadoria Regional de Saúde, a Brigada Militar, o 7º Batalhão de Infantaria Blindado (7º BIB), a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf). Como o dia 10 de setembro é marcado pelo Dia Internacional da Prevenção do Suicídio, o Comitê optou por realizar diversas ações para chamar atenção da comunidade incluindo um ato na Praça Getúlio Vargas, no dia 10, para passar mais informações sobre o assunto. O mês será chamado de Mês Amarelo, para que as pessoas conheçam um pouco mais sobre o assunto.
O suicídio ainda é cercado de mitos e tabus, que contribuem para a criação e reforço de preconceitos. Por possuir diversas causas é incorreto relacioná-lo a uma única causa. Conversamos com a psicóloga do CAPS II, Marliza Schwingel.
Riovale – Que tipo de efeito pode provocar a divulgação de imagens e áudios sobre suicídio nas redes sociais?
Marliza Schwingel – O que temos percebido das pessoas é que visualizar alguma imagem do ato do suicídio, faz com que não consigam tirar aquilo da cabeça, porque traumatiza. Não estamos acostumados a ver um ser humano deste jeito, isso choca muito. A situação de fragilidade de vida é tão traumática que a pessoa fecha os olhos e não consegue parar de ver a figura. Então pedimos para que as pessoas não façam isso, porque são coisas que não estamos acostumados a fazer. É uma prevenção, não divulguem imagens ou vídeos em respeito às pessoas e à família, mas ao mesmo tempo não se provoque isso.
Riovale – A existência de sites que fornecem instruções para praticar o suicídio, representa um perigo especialmente para quem está propenso ao suicídio? Por quê?
Marliza Schwingel – Sim. Todo mundo gosta de se sentir pertencente a alguma coisa, a algum grupo. As pessoas buscam, principalmente o jovem, ele quer pertencer a algum lugar. O depressivo que não consegue se colocar em nenhum grupo, porque se acha o estranho, que não se sente pertencente ao grupo, ele se sente mal, ele está fora e se ele achar um grupo no qual ele se sinta bem, ele vai pertencer a ele. Os que fazem mutilações no corpo envolvem uma questão psíquica, porque a pessoa sente como se não existisse, então ela se mutila para ver que existe mesmo.
Riovale – Esse comportamento nas redes sociais e na internet, no sentido de instruir ao suicídio e divulgar imagens e áudios relacionados ao suicídio, a senhora atribui a que fatores?
Marliza Schwingel – Falando sobre quem estimula podemos dizer que é uma atitude perversa. São psicopatas, porque eles querem ver o outro sofrer. E aí eles vão instigando porque o normal é não querer ver o outro sofrer. Dizemos que são predadores que estão ali esperando até achar a vítima, aí eles começam a aproximação encontrando os pontos em comum, dizendo que a pessoa pertence àquele grupo. São psicopatas porque eles querem se deliciar com alguma coisa que não é boa, eles têm prazer naquilo e não conseguem ter pena do que está acontecendo, estão distanciados de qualquer sentimento de afeto.
Riovale – A discussão sobre o suicídio deve ser colocada em pauta? Isso pode trazer soluções e evitar que mais pessoas se suicidem?
Marliza Schwingel – Sim. Na nossa opinião poder falar sobre isso ajuda, porque daí a pessoa sai do imaginário e do mundo dela. Porque no mundo dela ela não vê outra alternativa a não ser acabar com a própria vida. Porque o sofrimento é tanto que ela quer acabar com ele e uma forma de acabar, na visão dela, é acabar com a vida. Mas numa ilusão de que depois que ela se mata, ela vai levantar do caixão sem a dor. É como alguém que diz que tem vontade de sair pelo mundo para acabar com os problemas, mas a pessoa precisa lembrar que os problemas vão junto. Existe uma ilusão de que dá para separar, de que vida e sofrimento é a mesma coisa, mas não é. Então dá para olhar para esse sentimento sem tirar a vida. Por isso é necessário falar sobre suicídio, rever essa situação. O falar tem que ser feito, o silêncio aprisiona demais a pessoa, ela se isola tanto que acaba pensando que está certa.
Riovale – Onde a pessoa pode buscar ajuda e apoio?
Marliza Schwingel – A pessoa pode procurar a rede básica de saúde. Ou procurar um amigo em que confie e contar que esses pensamentos não saem da cabeça e esse amigo precisa estar antenado. Tem um ditado que fala “cão que late não morde” e as pessoas transformam para “quem fala que vai se matar, não se mata”, mas isso acontece sim. Não dá para prevenir 100%, mas eles sabem que têm um espaço no serviço de saúde que pode recebê-los. O que pode ser observado nas pessoas são os 4D’s, levantados por Botega e Werlang, no livro Comportamento Suicida. A pessoa começa a demonstrar desamparo, desespero, desesperança e depressão.
Riovale – A simplificação do entendimento do ato de suicídio, muitas vezes atribuindo culpa à pessoa que o pratica, é um erro? Por quê?
Marliza Schwingel – Acho que precisa ser muito corajoso para conseguir fazer isso. Porque no momento em que enfrenta a própria morte, a pessoa enfrenta todos os problemas que ela tem e no que isso vai implicar e mesmo assim ela faz. Não estou dizendo que todos os corajosos possam se suicidar, mas quero dizer que a pessoa pensa muito antes de fazer. E normalmente as pessoas culpam o suicida por ele ser fraco, por não ter aguentado, por não ter pensado no resto, mas não é isso, ele pensou e não encontrou outra saída.
Riovale – Quais atividades desenvolverão no mês de setembro?
Marliza Schwingel – O Comitê pensou em várias ações. Vamos montar um cartaz e distribuí-lo pelos ônibus da Stadtbus, Sayonara e TC Catedral, chamando atenção para o suicídio. Outra ação será uma faixa que ficará exposta na esquina da Rua Marechal Floriano com a Júlio de Castilhos, nos dias 3 e 10 de setembro. Vai ser feito um trabalho com uma escola estadual e com uma escola municipal. Vamos realizar atividades com os funcionários das Estratégias de Saúde da Família. Pedimos para que a Prefeitura Municipal projete luz amarela no Palacinho durante o mês. E no sábado dia 10 de setembro, que é marcado pelo Dia Internacional de Prevenção do Suicídio vamos estar na Praça Getúlio Vargas distribuindo fitas amarelas e conversando com a comunidade para prevenir o suicídio.














