Tiago Mairo Garcia
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Quando parecia que a normalidade seria uma realidade, o surto do novo coronavírus voltou a agir com força na Europa, após alguns países adotarem medidas mais flexíveis para retomar as atividades. É o caso da Espanha, um dos países europeus mais atingidos pela pandemia com 247 mil casos confirmados e mais de 28 mil óbitos registrados em razão do vírus. No último sábado, 20, o país teve o último dia para o Estado de Alerta emitido pelo governo e passou a flexibilizar a retomada das atividades, porém novos casos voltaram a ser registrados na última quarta, 24, nas regiões de Huesca e Zaragoza, aumentando a preocupação de uma segunda onda da doença no país europeu.
Residente há 19 anos na cidade de Múrcia, na província de Múrcia, litoral sul da Espanha, a professora universitária candelariense Wanderléia Elizabeth Brinckmann, 59 anos, que é mestre em Desenvolvimento Regional pela Unisc e doutora em Geografia pela Universidade de Múrcia, é quem relata a preocupação com um novo surto da doença no país. Em entrevista concedida ao Riovale Jornal, a professora universitária relata o avanço da doença desde o primeiro caso registrado no dia 31 de janeiro no país, sobre as medidas de restrições e flexibilizações adotadas pelo governo, além de comentar sobre a falta de cuidado da população espanhola na retomada das atividades e destaca a sua preocupação com o constante avanço da doença no Brasil e no mundo.
Riovale Jornal – A Espanha enfrentou um surto da doença, sendo um dos países europeus mais atingidos pelo vírus. Quais as ações foram tomadas pelo governo espanhol para combater a doença?
Wanderléia Elizabeth Brinckmann – Temos que reconhecer que o primeiro grupo de medidas aqui adotadas, não foi tão drástico como no caso da China e da Itália e aí se cometeu um erro estratégico de gestão da pandemia no País porque deveria ser mais efetivo no combate ao vírus. Quando falamos em ações, podemos falar delas sob o aspecto sanitário e seguindo as orientações da OMS. Durante todo este período o lema governamental foi e segue sendo: “Este vírus o paramos juntos” de forma que se fez uma intensa campanha, apelando para a cidadania, no sentido de educar para atuar conscientemente seguindo as normas sanitárias, o distanciamento social e confinamento/quarentena. Como faltava estoque de equipamentos médicos, as máscaras, luvas e trajes de segurança que haviam disponíveis foram destinados aos agentes sanitários, médicos, enfermeiros, técnicos de saúde e o pessoal dos supermercados e agentes de descontaminação. Porém, o país não estava preparado e não havia material sanitário para todos e se instalou o caos.
Para os casos mais graves se necessitavam respiradores, máscaras, luvas e roupas adequadas e não havia suficientes para atender a demanda, os hospitais chegaram ao limite de pacientes nas UTI. Muitos contágios e mortes ocorreram porque não havia condições médico-sanitárias adequadas em hospitais, centros de idosos e faltavam materiais sanitários nas farmácias. No primeiro grupo de medidas, o governo reforçou os leitos para as Unidades de Terapia Intensiva (UTI), a criação da Unidade Covid-19 e o fechamento de todos os Centros Educativos em Madri e Catalunha. A segunda medida foi realizar o fechamento de todos os centros de idosos-asilos, bem como limitar o contato dos idosos com pessoal externo aos centros. Vendo que o número de contágios crescia, se fomentou o cuidado domiciliar dos idosos e por recomendação expressa limitou-se a saída dos idosos com enfermidades crónicas, pluripatologias ou estados de patologias congénitas de suas casas ou centros. Se efetivou o fechamento de todos os centros educativos, museus e lugares turísticos de grandes aglomerações. Somente permaneceriam abertos os locais de primeira necessidade. O teletrabalho foi implementado para todos aqueles centros e empresas que o poderiam realizar. Se restringiram os voos entre os países afetados pela Covid-19 e Espanha; foram proibidos os eventos esportivos com grande participação de público; se definiu a compra conjunta entre Estado, UE (União Europeia) e Comunidades Autónomas de suprimentos médicos; se suspenderam as férias do pessoal médico e se chamou a trabalhar médicos e enfermeiros aposentados, também aqueles futuros médicos que estavam pendentes de exames para residência médica em sua especialidade. A Espanha parou 98 dias para evitar o avanço da pandemia. Diante do impacto econômico e social causado pela pandemia da Covid-19, o Governo Espanhol aprovou dois pacotes de medidas econômicas urgentes para proteger as famílias, trabalhadores, autônomos e empresas e minimizar o impacto na economia.
RJ – O primeiro ministro espanhol Pedro Sánchez emitiu o Estado de Alerta seis vezes no País desde o dia 15 de março e que se encerrou no último sábado, 20. Como você, moradora do país, enfrentou esse período de isolamento e restrições na Espanha?
Wanderléia – Enfrentar um período largo de confinamento-quarentena, é bastante duro, porque nos meses seguintes não podíamos sair do apartamento, as únicas saídas permitidas eram para ir à farmácia, ao médico e ao supermercado. Porém, assumimos responsavelmente estas normas pelo bem da saúde pública, porque víamos que os hospitais se abarrotavam de pessoas contagiadas e os médicos, enfermeiros, técnicos sanitários e trabalhadores dos hospitais, das ambulâncias, e dos centros de idosos não venciam a demanda, mas seguiam lutando pelos pacientes. Os médicos nos pediam, “Por favor, fiquem em casa, pela nossa saúde e pela saúde de vocês, estamos aqui lutando para salvar vidas e necessitamos o comprometimento da cidadania, evitem sair, evitem contágios e assim ganharemos a batalha da Covid-19 e sairemos vivos desta”. Muitos deles não resistiram na luta e segundo informações, aproximadamente 12% do pessoal sanitário espanhol foi vítima da Covid-19. Foi muito duro ver médicos, enfermeiros, idosos morrerem e ver que a família nem sequer poderia estar com eles nesses momentos. Mais duro ainda é ver que entre estas vítimas estavam amigos que nos acolheram quando chegamos à Espanha. Continua sendo difícil, porque tanto meu marido, como eu, que tenho câncer, somos do grupo de risco e tanto podemos ser contagiados como podemos contagiar porque somos portadores assintomáticos do vírus. Fomos criativos tanto na dieta alimentar como nas rotinas diárias de exercícios físicos depois do trabalho. Hoje, depois de mais de três meses confinados, estamos saindo para caminhar 2h por dia, evitando aglomerações e usando máscara. Ao mercado e a farmácia vamos com máscara e luvas, respeitando as distancias exigidas pela “nova normalidade” e seguindo as normas sanitárias. Estamos cumprindo nossa parte como cidadãos éticos, conscientes e responsáveis, nossos amigos conversamos por videoconferência, nos saudamos todas as manhãs por mensagens ou chamadas ao celular. Nos organizamos e nos ajudamos mutuamente.
RJ – A Espanha teve 247 mil casos confirmados e mais de 28 mil mortes confirmadas pela doença. Na sua opinião, por que ocorreu a rápida propagação do vírus que resultou nos casos confirmados e no alto número de óbitos no País?
Wanderléia – Os motivos são vários. Porque se desconsiderou, a princípio, a gravidade do vírus; não se considerou sua letalidade e a exponencialidade dos contágios; não havia e segue sem haver, material médico-sanitário e de proteção suficiente para os agentes de saúde e para a população; se acreditou que o vírus não chegaria tão rápido e se pensava que estava muito longe daqui o foco de contaminação e por isso as medidas de confinamento chegaram tarde. Os grupos de risco não foram protegidos a tempo e a população de idosos que vivia nos asilos, não teve a devida atenção como principal grupo de risco e se seguiu permitindo as visitas de familiares e de pessoas externas aos centros, sem fazer os testes para detectar se tinham a Covid-19. Se permitiu a realização de manifestações públicas, passeatas, shows, campeonatos de futebol com a presença de milhares de pessoas sem a devida proteção. Faltou coordenação científico-técnico-político-social para evitar aglomerações e os focos de contágio cresceram exponencialmente. Não se chegava a um acordo entre mandatários políticos para evitar o fiasco e efetivar as medidas de Confinamento. Este é um vírus novo para o qual nenhum país encontrou o tratamento que resulta na falta de responsabilidade e ética por parte da cidadania e dos governos que seguem reunindo-se sem pensar que podem contagiar-se e contagiar aos demais. Não se fecharam as fronteiras a tempo e não se tomaram as medidas de confinamento adequadas e no tempo correto.

RJ – O país vem flexibilizando as regras de confinamento por regiões há algum tempo de maneira que nem todas elas chegam nas mesmas condições. No momento, qual é a situação na região onde você vive?
Wanderléia – Atualmente estamos, todas as Comunidades Autónomas, Múrcia incluída, em fase 4 (Fase Avançada de desescalada), ou seja, se permite a mobilidade social entre Comunidades Autónomas e Províncias. Estão liberadas as saídas e viagens interprovinciais e entre os países da União Europeia. Indústrias, empresas, bares, restaurantes, shoppings, por lei, podem abrir com 50% de clientela, seguindo sempre com as medidas sanitárias adequadas, máscaras e álcool gel para limpeza de mãos, e luvas para tocar alimentos e bebidas e o distanciamento de 1,5 metros entre mesas e clientes. Se abrem os comércios, as oficinas, as dependências governamentais e os setores de administração pública voltam a funcionar presencialmente, as pessoas dos grupos de risco seguem trabalhando de casa.
RJ – A Espanha está preparada para uma retomada da normalidade?
Wanderléia – Voltar a “normalidade” tal e como a conhecíamos já será impossível, porém teremos que recomeçar pouco a pouco e assumindo o que vem pela frente, tendo a saúde como principal meta, a reconstruir o País. Na minha opinião, ainda não estamos preparados para a “nova normalidade” como dizemos aqui, porque enquanto a população não respeitar as normas e medidas sanitárias que seguem em vigor, o vírus seguirá propagando-se. Na Espanha, hoje, tem nas ruas e nas praias, pois aqui estamos em verão, um tumulto total. São pessoas aglomerando-se nos lugares públicos sem nenhum respeito a sua vida e a vida dos demais. Igual nas universidades, agora começou o vestibular (EBAU) aqui, e os jovens esqueceram a distância, as máscaras. Entendo que o reencontro pede abraços, porém é preciso manter a máscara posta e as distâncias enquanto a cura e a vacina estão sendo buscadas. Para voltar a essa desejada “nova normalidade” será necessário responsabilidade social, respeito à vida, cumprir as normas e comprometer-se com a saúde pessoal e comunitária.
RJ – Você teme que a Espanha possa ser atingida novamente por um novo surto do coronavírus?
Wanderléia – Não é temor, é uma realidade. A Espanha teve novos focos de Covid-19 nesta primeira semana de fase 4 nas regiões da Galícia, País Basco, Catalunha, Valência e Múrcia e se os casos seguirem aumentando, voltaremos a fase 2 do Estado de Alarme. Os focos também ocorrem na Alemanha, França, Inglaterra e China. Hoje, o Sindicato Médico de Atenção Primária de Aragón (FASAMET) pediu ao Governo que proporcione ao pessoal sanitário as medidas de proteção (EPI) em quantidade e qualidade adequadas, frente aos novos focos da pandemia registrados em três comarcas de Huesca e uma de Zaragoza. Também em toda Espanha se pede o mesmo. O país segue buscando um tratamento, tal e como os demais países da União Europeia para a Covid-19. Na Espanha, se descartou totalmente o uso da hidroxicloroquina por não confirmar sua efetividade no tratamento da enfermidade e por causa de seus efeitos colaterais nos pacientes internados na Europa. Seguimos em busca do tratamento adequado, da vacina e da cura para este vírus mutante.
RJ – Como você está vendo a proliferação da doença pelo mundo?
Wanderléia – Vejo que a pandemia tende a crescer. Temos atualmente 100 milhões de contaminados em todo o mundo e segundo a OMS, ainda não chegamos ao pico da doença numa parte considerável de países, Brasil incluído. O mundo não está preparado para atuar em casos como este, que nos afeta. A exponencialidade dos contágios é tão alta e a irresponsabilidade dos governantes se faz notar quando não se cumprem as normas e se permitem aglomerações que são focos candentes de contágio. O vírus migra porque o mundo é uma aldeia global e nos movemos de um país para outro levando tanto o bom como o ruim de cada sociedade em nossos trajetos. Tanto é assim, que começou a liberação aqui na Espanha e a gente se tumultuou, tendo os agentes da lei precisando vigiar, intervir e chamar a ordem e ao sentido comum, devido às aglomerações humanas em diferentes lugares, sem respeitar as medidas sanitárias e o distanciamento social exigido. Se segue apelando ao bom senso e a responsabilidade e ver se podemos confiar na sociedade. Se podemos confiar em nós mesmos, em nossos representantes, nos mandatários políticos, comprometendo-se todos com a defesa da vida e da saúde.
RJ – Como você está vendo o avanço da pandemia no Brasil?
Wanderléia – Tenho acompanhando pela internet e pelos canais de TV online, o avanço dos casos de Covid-19 no Brasil, em especial os casos que proliferam no Vale do Rio Pardo e Taquari, com focos em Lajeado, Santa Cruz e Candelária. Me preocupa a falta de seriedade e responsabilidade, tanto da população como dos mandatários, ao não assumirem o risco com a proliferação da pandemia e o pouco caso que se faz quanto ao uso das medidas sanitárias e de proteção. Milhares de mortes estão ocorrendo e há aumento nos contágios sendo preciso que as pessoas levem a sério e se tomem as medidas humanas, sanitárias e econômicas necessárias ou vamos chegar a um caos sanitário sem precedentes. Recordamos que nosso país não possui as condições de hospitalização e tratamento preventivo adequados, faltam respiradores e equipamentos médico-sanitários na maioria de nossos hospitais e a vacina contra a Covid-19 não existe nem no Brasil nem no mundo. Não temos e não se aplicam os testes PCR para identificar os contagiados e seus grupos de proximidade na maioria das cidades brasileiras e não se respeita a quarentena. Segundo estudos de outras fontes, o número de mortos no Brasil seria sete vezes maior que os dados contabilizados. Hoje, o Brasil é um dos principais focos de contágio da Covid-19 na América Latina neste momento, e ainda assim, parte da população segue pensando que é uma “simples gripe”. Como se entende uma atitude destas em um país como o nosso, na região do Vale do Rio Pardo, em minha cidade, Candelária? E o mais duro é ver as fake news que correm pelas redes sociais dizendo que os enterros a céu aberto no país são uma mentira. Que falta de humanidade. Quero que saibam, estes que divulgam estas barbaridades, que entre os mortos do Pará e da Amazônia por Covid-19, tenho amigos e antigos alunos, os quais não nomeio por respeito a dor das famílias. E sinto uma dor muito grande pelo sofrimento destas famílias e dos parentes de meus amigos. É duro passar a fase aguda da doença entubado num hospital sem nenhum familiar devido à letalidade e exposição do vírus, é duro morrer sozinho e ser enterrado numa fossa comum. A minha saudação para todo o pessoal médico-sanitário que está aí e meu apoio incondicional neste momento de luta pela vida e para todos aqueles que defendem e protegem a vida com sua tarefa diária como os farmacêuticos, policiais, supermercados, agentes de limpeza e descontaminação, trabalhadores dos serviços essenciais que seguem em seus postos pela impossibilidade de fazer trabalho em casa para atender nossas necessidades básicas.
RJ – Com base nos métodos adotados na Europa, na sua opinião, o que os brasileiros devem fazer para controlar a doença?
Wanderléia – Importantíssimo o País investir na saúde preventiva com a população, e os governantes levar a sério a pandemia; cumprir as normas de distanciamento social, para não se contagiar e não contagiar aos demais familiares, vizinhos, amigos. Seguir as normas sanitárias, cuidar-se, proteger-se, higienizar-se porque assim estaremos protegendo aqueles que estão na linha de frente na luta contra a Covid-19, como médicos e demais agentes de saúde. Porque até este momento, este vírus não tem cura e exigir que se apliquem os testes PCR, primeiro aos agentes de saúde, e depois para toda a população para poder prevenir e evitar, desta forma, o aumento no número de contaminados.















