Grasiel Grasel
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Enquanto o Brasil segue registrando um elevado número de mortes diárias, diversos países já estabilizaram seus indicadores e iniciaram o que promete ser um longo período de retomada de suas economias. No Canadá, país no extremo norte da América, em diversas cidades os moradores já não precisam mais utilizar máscaras, como é o caso de Vancouver, da província Colúmbia Britânica, onde moram os santa-cruzenses Claudio Pereira Junior, 30 anos, e Flavia Regina Knak, 28 anos.
O casal viveu pelos últimos 10 anos em Santa Cruz do Sul, mas decidiu se mudar para o Canadá em setembro de 2019 buscando uma nova vida. Pouco depois de chegarem, no entanto, foram surpreendidos com a pandemia da Covid-19, que obrigou os dois a se adaptarem e, como ambos trabalham em mercados da região, tiveram que permanecer na linha de frente prestando um serviço essencial.
Em entrevista ao Riovale Jornal, Claudio conta como tem sido a vida de um santa-cruzense no Canadá nos últimos meses e como Vancouver já está iniciando a sua retomada ao “normal”.
Riovale Jornal – Como está a situação da pandemia em Vancouver? Ainda existem recomendações de segurança?
Claudio – Vancouver em maio entrou na fase 2 da volta ao “normal”. Sobre a pandemia, o estado de British Columbia tem se destacado no combate à Covid-19 e segundo o site do governo que monitora os casos, até 3 de julho tínhamos apenas 19 hospitalizados sendo 8 desses aqui em Vancouver. Com isso, a situação que vemos nas ruas aqui já demonstra uma certa normalidade. A população já sabe que o número de casos na região não cresce há muito tempo e que em torno de 90% dos casos identificados já foram tratados e recuperados. Porém ainda se vive dentro de um cenário de precaução, muitas lojas reabriram após quase 12 semanas de um completo lockdown e agora recebem novamente os clientes com restrições como quantidade de pessoas por vez dentro da loja, algumas oferecem máscaras para os clientes já que nem sempre se consegue manter os dois metros de distância um do outro dentro dos estabelecimentos, entre outras medidas que se aplicam de acordo com o que cada um oferece. Essa é a principal recomendação de segurança do nosso Primeiro Ministro, Justin Trudeau: voltar com segurança e de forma inteligente a normalidade sem desperdiçar todo o avanço que já tivemos no combate a essa pandemia.
RJ – Como você viu a adesão das pessoas à quarentena no país? Elas respeitavam ou era comum ver pessoas quebrando as regras?
Claudio – Não acredito que exista nenhum lugar no mundo onde exista uma completa homogeneidade de pensamento independente do tópico em questão, e o Canadá não é exceção. A grande diferença que sentimos aqui, foi de um número pequeno de pessoas com algumas convicções fortes contra algumas medidas tomadas como por exemplo o uso das máscaras. Porém, eles reclamavam ou discordavam da medida enquanto seguiam ela, então mesmo quem estava contra o uso das máscaras, por exemplo, usava. Sei que achismo não é evidência, mas eu diria que pelo menos 80% da população do país aderiu completamente às medidas recomendadas pelos médicos e especialistas do governo. Logo, não sendo 100% da população era comum sim ver pessoas “quebrando as regras”, mas nada nunca agressivo ou desrespeitoso. E como a maioria da população estava seguindo as recomendações era comum ver as pessoas se afastando automaticamente de quem não estava obedecendo. Chegava a ser engraçado às vezes, quase como ímãs com polaridades invertidas se afastando um do outro (risos).
RJ – A situação aparentemente está se normalizando mais rapidamente por aí. Qual você acredita que seja o motivo? O governo fez um bom trabalho ou as pessoas que respeitaram a quarentena?
Claudio – Definitivamente o estado de British Columbia se destacou no combate à Covid por ambos, tanto a eficiência das autoridades quanto devido à adesão da população às normas de prevenção. Pra nós que estamos a menos de um ano aqui e ainda vemos as coisas muito com os olhos de brasileiros, foi muito estranho ver o Primeiro Ministro Trudeau anunciando o Lockdown em um dia e no outro dia o comercio fechado e com aquelas madeiras nas vitrines, chegou a dar uma sensação pós apocalíptica assim. Porém, ao mesmo tempo, deu uma sensação de confiança e proteção, porque nos discursos o governo nunca veio apenas com a regra, eles vinham com a nova medida de prevenção seguida de um anúncio de suporte econômico, social e psicológico se necessário.
RJ – Houve algum momento em que você se sentiu mais preocupado ou com medo durante a quarentena?
Claudio – Na verdade, no começo de tudo eu fiquei um pouco apreensivo devido ao fato de Vancouver ter a segunda maior Chinatown do mundo, então o fluxo de chineses para Vancouver é muito alto e a nossa linha do metrô é a que liga o aeroporto ao centro, então começamos a ver cada vez mais chineses com a gente e todos eles de mascaras. Lembro de um dia ao ver eles eu pensei “nossa, parece que o negócio é sério”, mas essa preocupação durou no máximo uma semana, logo começaram a surgir mais informações sobre o vírus e já se percebeu um movimento preventivo muito forte em todo o país. Nossa preocupação se voltou imediatamente para o Brasil com nossos familiares e amigos, e desde então estamos monitorando mais a situação aí do que aqui.
RJ – Você trabalhava em um serviço essencial no período mais severo da quarentena, como foi vivenciar esse momento trabalhando?
Claudio – Flavia e eu trabalhamos em um supermercado no coração de Vancouver e os serviços alimentícios não pararam todos. Foi e está sendo algo de fato marcante especialmente para nós, porque não e só o fato de uma pandemia, nos recém chegamos no país, ainda estamos tentando nos adaptar ao que seria normal aqui e de repente nem os nativos estão entendendo mais o que seria normal ou não no Canadá com essa situação, então, trabalhar durante esse período foi psicologicamente fundamental para nós. A maioria dos amigos e todos os familiares ficaram no Brasil, os poucos novos amigos que tínhamos aqui estavam isolados, então esse pouco de uma “rotina normal” foi fundamental para talvez não entrarmos em uma possível depressão etc. Agora, em linhas gerais, trabalhar nesse período também foi importante pra reafirmar nossa escolha em nos mudar para o Canadá, pois estando na linha de frente todos os dias podemos ver o comprometimento das pessoas com o bem-estar social e a confiança nas autoridades às quais têm o papel de nos dar o suporte essencial.
RJ – Se pudesse dizer algo aos santa-cruzenses que ainda estão tendo que seguir restrições mais pesadas, o que diria?
Claudio – Complicado falar não estando aí. Passei meus últimos 15 anos nessa cidade linda e tenho meus amigos e família residindo na região. Digo para que tenham força. Somos brasileiros, estamos apenas a nove meses no Canadá então nós não esquecemos como é a economia e a situação política atual do Brasil. Temos amigos empresários preocupados com o comércio fechar e temos consciência de que o Brasil não consegue dar hoje o suporte que o Canadá pode oferecer aos empresários aqui. Mas sigam as recomendações de distanciamento, de isolamento físico, cuidado redobrado no contato com olhos, boca e nariz. Não faz muito tempo que ouvimos de um familiar um pouco mais do interior “isso do vírus é um exagero, isso não chega aqui”, na nossa última conversa a duas semanas atrás o discurso já mudou e eles já veem amigos ou conhecidos contaminados e o número de casos crescendo. Fiquem seguros, se a segurança for levada a sério o período de dificuldade será menor e logo todos veremos isso tudo como história.
Para saber mais sobre como é a vida de um imigrante no Canadá, você pode seguir o perfil de Claudio no Instagram: @sonic.cpj














