Luana Ciecelski
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Em março de 1987, aconteceu o primeiro curso de formação para mulheres da Brigada Militar. De lá pra cá, o número de mulheres presentes nos batalhões foi aumentando gradativamente e hoje, no Comando Regional de Policiamento Ostensivo do Vale do Rio Pardo (CRPO/VRP), o time feminino compõe cerca de 10% do efetivo. Duas dessas mulheres que dedicam suas vidas à atividade policial, são a Capitã Scheila Gaira, que atua junto ao CRPO/VRP e como instrutora do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), e a Soldado Karoline Dias da Silva que trabalha na Patrulha Maria da Penha de Santa Cruz do Sul.
A Capitã Scheila ingressou na Brigada Militar há cerca de duas décadas, aos 18 anos. Segundo ela, prestou diversos concursos e acabou passando para a BM, “quase sem saber o que era ser um policial militar”, brinca. No entanto, com o passar do tempo acabou se apaixonando pela profissão. “É uma atividade empolgante, não existe uma rotina nem mesmo para quem trabalha com a parte administrativa. Cada dia é um dia e isso é muito fascinante”, comenta ela.
O mesmo pensa a soldado Dias. Natural de Cachoeira do Sul, Karoline entrou na Brigada Militar em 2012, aos 21 anos, e também acabou se entregando ao trabalho. “É uma profissão apaixonante. Ou tu ama demais ou tu não vai se adaptar. Já não é fácil de entrar porque são várias etapas, e depois sempre é uma rotina diferente, sempre tem uma coisa nova”, conta a policial. Mas os anos que passaram entre a entrada de Scheila e a chegada de Karoline mudaram muito a realidade.
Na época em que entrou, Scheila conta que poucas mulheres escolhiam essa profissão e o treinamento feminino ainda era realizado de forma exclusiva, separado do treinamento dos homens. “Era comum que a comunidade, e às vezes alguns dos colegas olhassem de forma diferente. É normal enfrentar dificuldades quando se é minoria em qualquer órgão, em qualquer trabalho. Há 20 anos, a recepção e a forma de enxergar a mulher dentro da corporação era muito diferente”, comentou ela.
Hoje, apesar do preconceito ainda existir, o treinamento entre homens e mulheres já acontece de forma mista e a concorrência pelo número de vagas não difere entre os sexos. “No meu caso, os direitos e os deveres eram iguais. Nós (mulheres) passamos por todas as provas que eles (os homens) passaram, tanto física quanto intelectual. Tudo foi feito junto”, explica a soldado Dias. Além disso, as pessoas já estão mais acostumadas a ver mulheres, e o convívio com os colegas do sexo masculino é bastante tranquilo.
Entretanto, aquele olhar diferenciado ainda acontece, principalmente em cidades menores. Segundo Karoline, em outro município, onde atuou anteriormente como policial, era comum o olhar interrogador. “Não chegava a ser de preconceito, mas sim de interesse, curiosidade. ‘É uma moça na polícia?’, eles perguntavam. Eu respondia ‘Sim, os tempos mudaram!’”, relata.
Trabalho de mulher também
Se mulheres não possuem força física, uma qualidade comum entre os homens, elas possuem outros atributos que podem fazer toda a diferença. “A gente vem desbravando e mostrando que não é só força física. Para trabalhar com o ser humano a gente precisa saber dialogar, tem que estar preparado psicologicamente, tem que ser pacífico e saber mediar conflitos. Muitas vezes esse é o trabalho das mulheres na polícia”, explica Scheila.
Nos setores administrativos, as mulheres também possuem em seu favor a organização e a atenção, característica feminina e que lhes dá vantagens em algumas situações. “Homens e mulheres trabalhando juntos se complementam. Eles possuem os atributos nos quais são melhores, mas nós também possuímos aqueles nos quais nos sobressaímos”, explica Karoline. E a capitã Scheila complementa: “Nós somos mulheres e por isso, não nos basta fazer apenas o que eles fazem. A gente sempre faz um pouquinho mais”, declara.
No entanto, a capitã Sheila explica que durante o treinamento todas as policiais aprendem técnicas, que as mantêm tão capazes quanto um homem de defender e render uma pessoa em caso de necessidade. “Nós aprendemos a usar a força do oponente contra ele. Então se me falta força, com a força que ele vem contra mim é que eu consigo empregar as técnicas de defesa”, explica.
No caso da soldado Dias, uma função ainda mais importante é exercida. Estabelecer uma proximidade com as vítimas de agressões e de violência doméstica. “Elas se sentem mais à vontade para se abrir com uma policial do sexo feminino, do que com uma guarnição com dois homens”, explica.
Quanto ao risco, ambas estão cansadas de saber que ele existe, no entanto, isso não preocupa as policiais. Para a soldado Dias, importa saber que a função é vital para a sociedade. “Queremos fazer a diferença”, diz ela. Já para a capitã Scheila, o risco também não é motivo de preocupação porque elas se sentem preparadas. “Faz parte da profissão e fomos treinadas para enfrentar situações adversas, então vamos trabalhando”, explica.
Horários e família
No entanto, se existe uma dificuldade em ser policial e mulher, ela está no conciliar dos horários de trabalho com os horários da família. “O trabalho de um policial é 24 horas, e ele pode ser chamado a qualquer momento”, explica a capitã, “então a gente cria formas de adaptações e aos poucos, a família acaba aprendendo a se organizar junto com a nossa rotina”, explica.
Casada com um policial militar que também é capitão e com uma filha de 3 anos, a capitã explica que em muitos momentos é difícil, mas não impossível se há o apoio da família. “Há dias em que ligo às 7 horas pra minha mãe, dizendo que ela tem que estar na minha casa às 8 horas”, conta. Além disso, apesar de sua filha ainda não frequentar a escola, essa já é uma preocupação da mãe, por saber que atrasos são possíveis, e que situações em horários, às vezes pouco convenientes podem surgir.
Karoline lembra também que em feriados e períodos de festas, como Natal e Ano Novo, os policiais trabalham normalmente, mesmo que em escalas. “A gente precisa que a família e os amigos compreendam que a gente não vai estar presente, mas que é por uma boa causa”, observa.
Felizmente, Scheila também não sente falta de apoio nem mesmo da filha pequena, pois ela vê na mãe uma heroína. “Ela acha um máximo eu ser policial. Eu acho muito engraçado que ela sempre comenta que ‘eu sou filha da polícia’. Também já teve ocasiões em que ela pegou a fardinha dela, com a qual ela já desfilou uma ou duas vezes (no desfile cívico) e diz pra mim: ‘olha, eu também sou da polícia’!”, relatou.
Luana Ciecelski

Capitã Scheila e a Soldado Dias fazem parte do time feminino da Brigada Militar














