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A volta da naturalidade e humanidade

LUANA CIECELSKI
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Nas últimas décadas, desde o fim dos anos 1990 até os dias de hoje, o Brasil vive aquilo que algumas pessoas chamam de epidemia de cesarianas. O país chegou a ser o líder mundial no ranking dos partos cirúrgicos. Em meados de 2010, uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde apontou que a cada 10 nascimentos, 8,5 foram cesárias na rede particular, apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendar que sejam no máximo 1,5, ou seja, 15% do total de partos. 

Esse número, porém, vem sofrendo uma queda. Em 2017, por exemplo, pela primeira vez foi registrada uma redução de 1,5 ponto percentual nos números de cesárias realizadas em todo o país. Isso significa que os partos cirúrgicos representam atualmente um total de 55,5% dos partos nas clinicas particulares e 40,2% na rede pública. Não é ainda o ideal, mas a redução já é um avanço. 

Avanço? Mas por quê? A possibilidade dos partos cirúrgicos não salva a vida de muitas mães e de muitos bebês? Esse é um questionamento que muitos fazem, é claro. E a resposta para ele é: sim, ele salva. O problema é a sistematização das cesarianas que tornaram o parto normal menos frequente e deixam as mulheres, mesmo aquelas que desejam o parto natural, sem opção, sem escolha. O problema é a utilização desse tipo de parto apenas por conforto e comodidade, como vem sendo feito. 

A humanização

Para a doula Andrea Fabiane Bublitz, que é formada em Enfermagem e possui a especialização em Enfermagem Obstétrica, o que deve prevalecer sempre é a humanidade do atendimento. Esse termo, porém – humanização -, também ainda é muito incompreendido. Ele não significa apenas parto em casa ou no meio do mato. Humanizar, ela explica, é individualizar o processo, porque cada caso é um caso, cada parto é um parto, mesmo para uma gestante que já teve outros filhos. 

E dentro dessa humanização está contido o desejo pelo parto normal, se a gestante o tem. Está o desejo por menos intervenção com medicamentos ou procedimentos para acelerar o processo de parir. Está o respeito pelo tempo da mãe e da criança, respeitando as dores e contrações como algo fisiológico, algo que faz parte da natureza, algo para o qual o corpo daquela gestante foi feito e está preparado. “E nós profissionais temos que conhecer muito bem esse processo, mas apenas para que a gente possa proporcionar a experiência mais fisiológica possível. Diferentemente do que acontece hoje, quando ainda se intervém muito”, ela diz. 

Como enfermeira, ela diz que entende os profissionais em geral, porque a formação do profissional é assim. “Eu também aprendi dessa forma”, ela conta. Sua mudança, porém, se deu na prática. “Eu trabalhei durante seis anos como enfermeira em um hospital da cidade e fui percebendo que quando o tratamento dado a uma mãe era diferenciado, era mais cuidadoso, o parto também era mais “fácil”, mais tranquilo, a mãe se sentia mais confiante e satisfeita, não referia tanto sofrimento”.

A doula Andrea Fabiane Bublitz aponta a humaniza‹o como caminho

Ela percebeu então que essa individualização era muito importante. E ela ressalta que nesse sentido de humanização nada impede também que dentro do processo de parto, se necessário, se possa aplicar uma medicação, se possa auxiliar com algum tipo de analgesia ou indutor para acelerar o processo. Nada impede que uma cesárea venha a ser realizada se for identificada a necessidade. Porque a cesárea está ali pra isso. 

Então uma cesariana pode ser humanizada? “Pode, sim”, garante Andrea. “Não é a via do parto que interessa de fato, mas a forma como esse procedimento é conduzido. O que não pode é a política de dificultar a vida das mães que desejam passar pelo processo natural de parir, como vem acontecendo. O que não pode é que profissionais se aproveitem da vulnerabilidade das gestantes para induzir um desejo que não é o dela, para dar justificativas inapropriadas como a de que “o bebê está muito grande”, “o líquido reduziu”, “o líquido aumentou”, “seu quadril é muito estreito”, porque preocupada com a saúde do bebê ela vai acreditar nesse profissional e vai acabar concordando com um parto que tem hora marcada e que será resolvido em questão de uma hora – diferentemente do parto normal que pode levar mais de 20 horas e que não remunera muito mais do que uma cesárea”.

E é para ajudar as mães nesse processo que as doulas estão aí e vem ganhando força. Seu trabalho é o de ajudar as mães e pais e se prepararem, ajudá-los a compreender esse processo de gestar e parir, bem como o pós-parto. Ajudar a compreender o que acontece com o corpo delas. O que são as contrações, o que é normal e o que não é. Ajudá-las a compreender que seu corpo tem todos os recursos necessários para colocar aquela criança no mundo.  

“Nós adoecemos o processo de gravidez das mulheres, mas a gestante não está doente”, ressalta Andrea. “O processo requer cuidados e requer algum acompanhamento, sim, mas ela não precisa ser curada de nada, nem resgatada de nada, como muitos profissionais fazem parecer”, ela aponta. “O parto é a coisa mais antiga do mundo”, ela lembra. “A doula vem para empoderar a mulher, para dizer que está tudo certo que é possível ir até o fim. Porque a partir do momento que eu tenho o entendimento do que está acontecendo comigo, eu tenho mais segurança”. 

O relato de quem vivenciou

“Mesmo antes de engravidar, já sabia de que forma queria que meu filho fosse recebido: da forma mais natural possível, vivendo e sentindo o momento, deixando meu corpo e a natureza agirem. E para isso, eu sabia que precisava me informar (para tomar decisões conscientes e me sentir segura) e contar com profissionais preparados e que me apoiassem, além de ter a compreensão e o apoio do meu marido e da minha família.

Durante a gestação, preparei meu corpo com exercícios (yoga, hidroginástica, caminhadas) e minha mente com informação. Li muito e conversei com mães que optaram pelo mesmo caminho e que viveram esta experiência. Preenchi um Plano de Parto onde coloquei todos os meus desejos e, com ele em mãos, visitei a maternidade e conversei com a obstetra e a pediatra que escolhi para nos acompanhar.

Mariele Anger comeou a se preparar antes mesmo da gravidez para que o nascimento de seu filho fosse perfeito

Também tivemos, durante toda a gestação, parto e pós-parto, o acompanhamento de uma doula e enfermeira obstetra, e posso dizer que essa foi uma das melhores decisões. Ter ela ao nosso lado nos deu força e confiança, e conversar sobre todas as fases pelas quais eu passaria me deixou mais tranquila e confiante.

Com 41 semanas e 2 dias nosso filho avisou que chegaria. Foram 10 horas de trabalho de parto, 8 delas passados em casa, na companhia na nossa doula. Em casa, com pouca luminosidade, tomando banhos quentes, me movimentando… tudo isso me ajudou a controlar e até diminuir da dor. Quando o momento se aproximava, fomos para o hospital e nosso filho nasceu 2 horas depois, na banqueta de parto (tendo a lei da gravidade a nosso favor), embaixo do chuveiro, sem intervenções ou analgesia. Foram momentos intensos de dor e cansaço que foram substituídos por uma felicidade infinita e uma sensação de vitória. Nosso filho foi recebido banhado por ocitocina, o hormônio do amor, hoje em dia tão raro devido ao alto número de cesáreas eletivas. Estávamos realizados!

Depois que passei por essa experiência, passei a desejar que toda mulher possa estar bem informada a respeito da capacidade e do poder de seu corpo, e que viva seu parto de acordo com os seus valores e o mais próximo do que sempre sonhou. Acredito que todas as mulheres têm o direito de escolher o parto que deseja, e não ser induzida a uma escolha. Isso é a humanização do nascimento, garantir às mulheres o protagonismo deste momento.

O pós-parto também exige informação, pois são dias cheios de desafios. A amamentação exclusiva e em livre demanda é minha prioridade, pois acredito que nada é capaz de substituir o alimento produzido pelo meu corpo exclusivamente para o meu filho. A sensação de ver meu filho alimentado, forte e imunizado somente com o que vem de mim supera todos os desafios. Porque amamentar cansa e muitas vezes dói. Mas vale todo o esforço, pois além de alimentar, amamentar dá colo e é de graça! Mas acho importante lembrar que, para que a mulher possa se dedicar e se doar ao seu filho, ela precisa contar com uma rede de apoio que cuide dela. Os primeiros meses são de conhecimento, tudo é novidade, as dúvidas são muitas e ainda somos acompanhadas por sensações desconhecidas causadas por tantas mudanças internas. Com apoio e paciência, aos poucos vamos acolhendo essas sensações, aprendendo a ser mães, construindo confiança e curtindo cada momento”.

Kate Middleton

Um bom exemplo do quão sadio é o parto normal, é o da duquesa inglesa Kate Middleton, esposa do príncipe William. Sua disposição poucas horas após o parto foi muito comentada na mídia recentemente, quando ela teve seu terceiro filho. O mesmo aconteceu nos partos anteriores dela. 

Kate Middleton cerca de seis horas ap—s o parto de seu filho

A explicação logo levantada por uns foi a mais óbvia: “ela é da família real, tem toda a assistência possível”. Artigos escritos por profissionais da saúde, porém, logo apontanram que não é bem assim. Na verdade, no sistema de saúde inglês – considerado um dos melhores do mundo – essa é uma realidade cotidiana. 

Lá os partos têm como referência não os médicos, mas as ‘midwifes’, enfermeiras obstétricas. Elas é que fazem o trabalho de conduzir o nascimento dos bebês e o fazem muitas vezes nas próprias residências das gestantes. Os médicos entram em ação apenas se e quando houver uma complicação. 

Tipos de parto disponíveis em Santa Cruz

Praticamente tudo aqui que for desejo da gestante é possível fazer hoje em Santa Cruz do Sul, especialmente porque as instituições de saúde estão mais abertas. Além da cesárea e do parto normal com analgesia, que são os mais comuns, já são aceitos também os partos com o mínimo possível de intervenção, nas mais diversas posições e locais, incluindo, por exemplo, o chuveiro. 

Ainda não há registro, porém, de partos que tenham sido feitos em banheiras ou piscinas, os partos na água, porque para esse tipo de parto é necessário um treinamento e uma habilitação diferente por parte dos profissionais. 

Material informativo do MinistŽrio da Saœde ajuda a divulgar algumas das posi›es de parto

Direitos da gestante

– A mãe deve ter todas as suas queixas e reclamações ouvidas e dúvidas esclarecidas;
– Ninguém, isso inclui a equipe do hospital e acompanhante, tem o direito de intimidá-la ou recriminá-la quando gritar, chorar de dor, ou tiver qualquer outra reação;
– A parturiente tem direito a um acompanhante durante todo o processo do parto, de sua livre escolha, seja homem ou mulher, parente ou não parente; 
– Converse com a equipe sobre a necessidade de lavagem intestinal e raspagem dos pelos pubianos, isso nem sempre é necessário;
– O mesmo vale para o soro com medicamentos para indução do parto. Esse soro só é necessário em ocasiões especiais;
– O melhor parto e mais seguro para a mulher é o parto normal e toda mulher tem direito. A cesárea é uma cirurgia que tem chances maiores de complicações e só deve ser feita em casos extremos; 
– Se a mãe quiser, poderá ingerir líquidos e se alimentar durante o trabalho de parto. A equipe hospitalar indicará a hora de fazer jejum;
– Nem sempre é necessária a episiotomia (corte feito no períneo para aumentar a passagem do bebê e evitar o rompimento da pele da vagina). Pergunte ao médico se no seu caso realmente é imprescindível;
– Caso precise de um parto cesárea, é importante que a mulher saiba os motivos da necessidade desta cirurgia. Ele só deve ser realizado quando for para o bem da sua saúde ou do bebê;
– Depois do parto, a mãe tem o direito de ter o bebê ao seu lado e de amamentar em livre demanda. A separação só precisa ser feita se um dos dois necessitar de cuidados especiais.

Benefícios do Parto Normal 

São inúmeros, mas para citar alguns dos principais: 

– Contato imediato com o bebê, o que fortalece o vículo entre a mãe e o filho;
– Recuperação mais rápida e fácil, sem restrição de movimentos e mais contato com o bebê;
– O contato do bebê com as bactérias e os micro-organismos existentes no canal vaginal estimula o sistema imunológico do recém-nascido, fazendo com que o parto normal seja responsável por evitar doenças futuras como asma, obesidade e doenças autoimunes;

Além disso, no parto normal estão descartados alguns dos riscos presentes na cesárea:

– Chance três vezes maior de morte tanto da mãe quanto do bebê;
– Maiores chances de hemorragia, infecção, trombose, além dos riscos relacionados à anestesia;
– Cesáreas agendadas também aumentam em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios nos bebês, porque seus pulmões podem ainda não estar 100% prontos.

Esse vídeo divulgado pelo Blog do Planalto, também ajuda a compreender melhor esse benefícios. 

Imagens do v’deo divulgado pelo Blog do Planalto, que fala sobre o parto normal

Doula, pra que te quero?

O que é: um profissional com formação especializada para atendimento e orientação de mães antes, durante e após o parto, acompanhando-a inclusive no momento do nascimento do bebê.
Como funciona: elas acompanham a grávida e sua família orientando sobre os processos emocionais e fisiológicos da gestação. Em cima disse é elaborado um Plano de Parto onde são colocadas às preferências da mulher em relação ao parto, como local, pessoas presentes, procedimentos pelos quais que gostaria ou não de passar, posições preferenciais, ingestão ou não de líquidos e alimentos, etc.
Quando procurar: em qualquer período da gestação, mas preferencialmente entre a 16ª e 20ª semana para que todo o acompanhamento e preparação possa ser feito.
Onde procurar: há clinicas particulares que oferecem o profissional e há também profissionais autônomos que atuam em Santa Cruz do Sul.