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A grande mãe das meninas

Bernadete em seu local cativo, a m‡quina de costura

Viviane Scherer Fetzer
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Há 22 anos ela dedica seu tempo diariamente para resolver os problemas de suas “filhas”. Ela mesma começa a usar o termo a partir da relação que cria com as meninas que encontram conforto, casas mobiliadas e segurança na rua Dona Flora e também na rua Boa Esperança. São lugares próximos da Universidade ou do trabalho aqui em Santa Cruz, facilitando e evitando que tenham que se deslocar diariamente de suas cidades. A ideia de abrir a pensão surgiu após ter abrigado meninas que vieram a Santa Cruz para estudar em uma época em que não havia tantas linhas de ônibus como hoje. Ela viu ali uma oportunidade de ter sempre companhia e de se envolver com uma atividade após a aposentadoria além da área da costura. Área essa que ela não deixou de lado. Quem a conhece, com toda certeza, já a encontrou sentada em frente à máquina de costura, que fica na garagem de uma das casas, fazendo um remendo aqui, uma costura lá e interagindo com todos que passam pela rua. Mãe de Cláudio e esposa de Átila Jacó Aretz (in memorian), avó de Fábio e Lucas. Bernadete Henn Aretz, tem 65 anos, veio de Sinimbu para Santa Cruz para trabalhar com a costura. Após a aposentadoria e enquanto seu marido ainda trabalhava nas fumageiras ela deu início a um projeto que não tinha ideia de que se tornaria tão grande e que faria tanta diferença na vida das mais de 900 meninas que já dividiram o mesmo teto em algum momento desses 22 anos em uma de suas cinco casas. 
A primeira casa, que existe até hoje, foi construída atrás da residência do casal, com seis quartos. Assim que começou a divulgação de vagas, todas já estavam preenchidas em 1996. Dessas seis meninas ela não imaginou que chegaria a ter em todas as cinco casas que administra quase 60 meninas em um mês. “A maioria delas vem de outras cidades e acaba me tendo como uma referência aqui, pedem ajuda, acabam aprendendo a fazer as coisas de casa comigo porque muitas vem sem saber fazer e como dividem uma casa, precisam ajudar a manter essa casa em condições de se morar”, conta Bernadete. Ela também lembra que já fez muito serviço pesado e que já aguentou muita coisa também. Assim como toda mãe ela não tinha só as pensões para cuidar e em todos esses anos sempre conseguiu conciliar muito bem a sua família com a grande família de meninas que tem. “Já levei muito tufo (calote), mas aprendi também a bater o pé e deixar bem claro que aqui as coisas são como eu digo, mesmo que as vezes ouça o que não precisaria, porque algumas gurias não tem respeito e não podem ser contrariadas”, uma paciência toma conta dela para explicar que nem tudo são flores nesse cuidado com as gurias. 
Os primeiros anos em que recebeu as meninas ela teve muita dificuldade porque não falava português. “Entendia pouca coisa e aos poucos fui aprendendo e me acostumando com o que elas falavam”. Ela conta com um pouco de seu sotaque alemão que “uma das gurias uma vez chegou me pedindo escumadeira e escorredor de massa, eu não fazia ideia do que era e disse pra ela ir até minha cozinha e procurar lá, porque se fosse de cozinha eu tinha que ter”, sorriu com a lembrança. Assim como aprendeu o português também ensinou muito do alemão para as meninas, uma das primeiras expressões que ela fala é “Alles gut” e aguarda a resposta na mesma língua que falou, e assim as meninas respondem com um “Alles” para agradar e ao mesmo tempo tirar um sorriso de Bernadete. 

 

Confraterniza‹o de semestre com as meninas de algumas pens›es em 2012

22 anos

Nos 22 anos em que administra as pensões, Berna, como é chamada carinhosamente pelos conhecidos, já passou por poucas e boas com as gurias. E a preocupação dela com suas ‘filhas’ talvez seja o grande motivo pelo qual a pensão nunca tenha deixado de existir. Entre uma conversa e outra com quem é de outra cidade e já se formou, ou com quem teve uma oportunidade de trabalho em Santa Cruz, sempre surge o nome da Berna. Ela não teve filhas, mas se contabilizarmos todas as que passaram pelas pensões, sem contar os períodos de disciplinas de férias, chegamos a um número extenso. Porque no começo os quartos eram individuais, depois surgiu a proposta por parte das meninas mesmo de dividir, e assim, as casas que tinham seis quartos, as vezes chegavam a ter 10 moradoras. 
São cinco casas administradas por ela. “Em todos esses anos ajudei muitas meninas, ouvi muita reclamação, resolvi muitos problemas, ‘puxei as orelhas’ como os pais pediam, ensinei muita coisa, sofri com elas pela distância de suas casas, acabei sendo sim, uma segunda mãe e as vezes até mesmo a mãe que tentava educar, porque umas vinham pra cá e achavam que podiam fazer tudo, aí eu tinha que mostrar que as coisas não eram bem assim”, emocionada fala sobre a relação com as meninas. Muitas das já formadas ainda mantêm contato com a dona das pensões, indicam conhecidas e quando conseguem dão uma passada para tomar um chimarrão e comer uma cuca. Por ser conceituada entre quem conhece e de muita confiança por quem já morou em qualquer uma das casas, a propaganda do boca-a-boca sempre manteve as casas cheias. “Em algumas épocas diminuiu um pouco a quantidade de meninas, mas não reclamo e só agradeço por ter conhecido todas e feito parte de algum jeito da vida delas”. 

Cuidados

Além de cuidar das meninas dos portões para dentro é Bernadete que cuida desde o começo da manutenção das casas. “O Jacó depois que se aposentou me ajudava todo dia e em todas as férias a gente ia juntos pintar as casas, enquanto ele pintava as paredes e arrumava o que estava estragado, eu pintava as janelas, portas e fazia os pequenos detalhes na pintura”, relembra emocionada. Ela também aproveitava as férias para fazer uma limpeza geral, do forro ao chão, de parede a parede. “Tem casas em que se entrar uma vez por semestre sei que não vou ter que colocar a mão em nada, mas têm outras que se eu não for toda semana e não der uns puxões de orelha nas gurias nunca estão limpas, elas não cuidam e parece que não estão nem aí, porque aquilo ali não é delas, elas só usam durante o tempo em que ficarem”, conta. Isso mudou, segundo ela, nos últimos anos, em que o respeito e a preocupação das gurias com o que não é delas é diferente. “Antes eu dava até as panelas para elas cozinharem, mas agora elas precisam trazer as suas, porque se não deixam tudo cheio de gordura e até com comida dentro por uma ou mais semanas”, reclama. 
Dificuldades
Berna conta que sua vida nunca foi mil maravilhas. Que há pouco tempo ouviu que ela é a ‘mãe de todos’, tanto de sua família, quanto das meninas. Ela sempre administrou todas as casas, seu marido Jacó ajudava e fazia parte de todos os momentos de decisão. Os dois estavam sempre juntos em alguma atividade que envolvia as pensões, desde varrer a calçada até ajudar as meninas no que fosse preciso. Jacó com uma ‘saúde de menino’ como dizia o médico faleceu por um infarto fulminante em setembro de 2016. Foi quando Berna achou que não conseguiria mais seguir em frente. 
“Eu pensava em como ia seguir sem ele pra me ajudar, não ia ser fácil, e hoje ainda não é, mas a minha fé me ajudou a entender que eu devia seguir em frente. Foi difícil e ainda é difícil pensar nas coisas em que ele me ajudava, nos horários em que a gente parava pra conversar sobre as ‘curias’, mas tem uma história que aprendi que me fez pensar muito sobre seguir, é aquela em que Deus dá a algumas pessoas cruzes para que elas carreguem até certo lugar, elas acham as cruzes pesadas e começam a cortar pedaços para facilitar o trajeto, quando elas chegam em um arroio e precisam cruzar ele acabam ficando ali, porque não têm como. Mas, uma dessas pessoas, que demorou mais tempo para chegar até ali com a sua cruz inteira, coloca ela sobre o arroio e atravessa utilizando como ponte. Eu sou essa pessoa, que carrega a cruz pesada até o fim e consegue cumprir o que me foi determinado”. 
Hoje ela tem a ajuda de seu filho, dos netos, do irmão, da cunhada, do cunhado, dos amigos e das gurias e aos pouquinhos vai resolvendo tudo. “As gurias precisam da pensão e eu gosto muito de cuidar de tudo isso, não me vejo parando de cuidar das casas, das ‘curias’, dos meus netos, já é costume acordar as 6h da manhã, varrer as calçadas e juntar as folhas de todas as pensões, dar uma conferida se está tudo certo e só depois ir para a máquina (de costura)”, comenta. Ela salienta que não sabe qual é o propósito dela aqui, mas que faz o possível para que as gurias sejam bem atendidas e não passem por dificuldades e que, no que for possível, ela está ali entre a casa da máquina e a sua pronta para ajudar. E como sempre diz “onde cabe uma, cabe mais uma, ou a gente acha um lugar, até na minha casa mesmo, mas sem teto ninguém fica”.