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Vera Cruz | União de empreendedores fortalece o turismo rural

Raquela comanda o Rancho Alto junto do marido e dos filhos
Fotos: Divulgação

Fabrício Goulart
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O turismo rural de Vera Cruz tem se consolidado nos últimos anos com a diversificação das propriedades no interior. De alternativa de lazer nos meses de verão, a atividade desponta com potencial de geração de renda durante todo o ano para dezenas de famílias da região. Nesse movimento, o associativismo tem sido uma das ferramentas utilizadas para organizar o setor, ampliar a divulgação e criar novas oportunidades.

A Associação de Turismo Rural de Vera Cruz (Aturvec) surgiu a partir de uma série de capacitações que aproximaram os empreendedores. A vice-presidente da entidade, Raquela Wailand Kohls, de 46 anos, conta que os idealizadores já mantinham contato durante alguns cursos da área e perceberam que poderiam avançar de forma conjunta. “Como os empreendedores já se reuniam para as capacitações, resolvemos formar a associação, a fim de fortalecer os investimentos no setor”, explica.

A formalização abriu possibilidades para a captação de recursos destinados a ações como marketing, produção de materiais de divulgação e participação em feiras. A associação começou com cerca de dez empreendimentos. Dois anos depois, em 2026, já reúne mais de 20. Para Raquela, o crescimento demonstra que existe uma percepção cada vez maior sobre o potencial turístico das propriedades rurais.

Ainda é difícil mensurar o impacto econômico do turismo rural em números, aponta a vice-presidente. No entanto, a expansão da oferta já pode ser percebida na prática, com o surgimento de novas hospedagens, espaços de gastronomia e experiências voltadas aos turistas. “O visitante que vem circula, abastece seu carro, consome aqui. Os empreendedores contratam mão de obra local. Tudo favorece para o fortalecimento do setor e do município”, acentua.

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A diversificação e a profissionalização também mudaram a imagem tradicional de Vera Cruz como destino associado principalmente a balneários e cabanas. Hoje, o município busca atrair casais, famílias e visitantes interessados em experiências ligadas ao cotidiano rural o ano todo, inclusive no inverno. Raquela, que é proprietária do Rancho Alto Gastronomia Rural junto do marido Jackson Luis Kohls, 52, destca que um dos diferenciais está justamente na genuinidade.

“O turista vivencia experiências rurais autênticas. Não é um turismo maquiado. É o dia a dia da simplicidade rural, das conversas longas, das histórias dos antepassados, das receitas que carregam memórias afetivas”, define. A procura também tem se ampliado geograficamente, conforme a empresária. Se os balneários atendiam principalmente moradores de Vera Cruz e dos municípios próximos, hoje os empreendimentos recebem visitantes de diferentes regiões do Estado.

Aturvec cresceu e conta atualmente com mais de 20 associados

Caminhos de Dona Josefa

Uma das novidades que o associativismo está proporcionando é o projeto Caminhos de Dona Josefa, que está começando a ser divulgado pela Aturvec. A proposta não é estabelecer um roteiro fechado, mas adaptar as experiências ao perfil de grupos e agências de viagens. “Ele não é um roteiro único, engessado. Atualmente é voltado para grupos e agências de viagens. Montamos as ofertas conforme o perfil do grupo”, explica Raquela.

A presidente da Aturvec, Tânia Graciela Koch Hirsch, de 39 anos e empresária da Agroindústria Koch, observa que o turista normalmente não quer conhecer apenas um empreendimento. Ele quer viver um roteiro com diferentes lugares, experimentando a gastronomia, a natureza e a cultura, e conhecendo as histórias das famílias. “Quando trabalhamos juntos, deixamos de pensar somente em cada propriedade e começamos a pensar em Vera Cruz como destino turístico”, avalia.

Entre presença e confiança nas decisões

Apesar das vantagens apontadas, o associativismo também está encontrando seus desafios. Um deles é a participação de todos nas deliberações da entidade. Conforme Raquela, as mesmas pessoas acabam sempre participando dos encontros, o que limita as discussões. “Todos são sempre convocados. Mas, infelizmente, alguns não têm tempo”, lamenta.

A participação limitada nas reuniões, no entanto, não significa necessariamente desânimo com o trabalho conjunto. Há empreendedores que preferem deixar as decisões para quem acompanha mais de perto as discussões. É o caso do proprietário da Quinta dos Pirilampos, Diego Weigelt, de 42 anos.

Embora reconheça a importância da Aturvec para o desenvolvimento do turismo rural, ele admite que não costuma participar ativamente das reuniões. Para Diego, quem está mais presente na rotina da associação tem melhores condições de acompanhar os debates e tomar as decisões. “Eu deixo para quem entende mais, para quem está mais por dentro”, justifica.

A mobilização da entidade também garantiu uma sede própria, mas que precisa de investimento. Em agosto, a Aturvec teve a cessão de uso de uma antiga escola em Linha Dona Josefa aprovada pela Prefeitura e pela Câmara de Vereadores de Vera Cruz. Agora, é necessária a restauração. “Estamos atrás dos recursos”, afirma Tânia Koch Hirsch, presidente da associação.

Experiências diferentes encontram objetivos comuns

A história da Quinta dos Pirilampos começou por acaso. Em 2022, quando Diego Weigelt e os pais compraram uma propriedade de 2 hectares em Alto Dona Josefa, no interior de Vera Cruz, a primeira tarefa foi limpar o terreno, tomado pelo mato. Foi durante o trabalho que eles encontraram três pés de café carregados de frutos. A descoberta despertou a curiosidade da família. Sem experiência anterior com a cultura, os três começaram a experimentar o produto e buscaram informações sobre a variedade. A partir disso, passaram a multiplicar mudas e ampliar o cultivo.

Hoje, são 803 pés de café na propriedade. Em 2024, a produção resultou em uma primeira experiência comercial: 20 pacotes de 250 gramas. O produto foi batizado de “café impossível”, em referência à ideia de produzir uma variedade especial no Rio Grande do Sul. A vivência, porém, fez Diego perceber que havia algo além da venda. “A gente queria levar as pessoas lá para conhecerem o que é um pé de café”, explica.
A partir daí, a propriedade passou a ser pensada também como espaço de visitação e experiência. Hoje, o café é o ponto de partida para uma experiência que reúne diferentes elementos. O visitante participa de workshops, conhece produtos da gastronomia portuguesa e tem acesso à natureza em um espaço diferenciado e integrado à proposta.

Diego (D) recebe turistas junto da família

Da lavoura ao turismo

Se a história da Quinta dos Pirilampos mostra uma propriedade que encontrou no café uma nova possibilidade de negócio, a trajetória da Agroindústria Koch revela outro caminho de transformação no meio rural de Vera Cruz. A família começou a construir essa história em 1987, quando Romeu, hoje com 62 anos, e Roseli Koch, 59, adquiriram uma propriedade no interior do município e tinham no cultivo do tabaco sua principal atividade. Contudo, mantinham o conhecimento tradicional de produzir alimentos para o próprio consumo, entre eles o melado.

Em 2000, antigas estufas de fumo foram transformadas para dar lugar à agroindústria. A partir dali, a família passou a substituir, aos poucos, o tabaco pela produção de alimentos. Hoje, três gerações estão envolvidas na atividade. Romeu permanece ligado principalmente à lavoura; Roseli e a filha, Tânia, atuam na produção; Telmo, 45, o genro, responde mais diretamente pelas vendas e pelo relacionamento com os clientes; e Samuel, 14, o neto, começa a participar das ações de marketing e divulgação.

O melado continua sendo um dos produtos que melhor representam a trajetória da agroindústria. Entretanto, o que antes era preparado dentro de casa passou por um processo de profissionalização, com padronização, controle de qualidade, embalagens, rotulagem e adequação à legislação. O turismo entrou na história com a criação do Refúgio da Família Koch, um espaço de natureza, convivência, gastronomia e hospitalidade rural.

Na propriedade, o visitante pode acompanhar a produção da cana-de-açúcar, entender sua transformação, conhecer equipamentos, sentir os aromas e perceber o trabalho manual envolvido em cada etapa. “Quando o visitante conhece quem produz, entende que aquele produto não saiu simplesmente de uma fábrica. Ele é resultado de uma família, de uma propriedade rural e de um conhecimento que foi sendo construído ao longo de décadas”, avalia Tânia.

Tânia aposta na tradição da produção de alimentos

“Ninguém vai crescer de forma isolada”

O prefeito de Vera Cruz, Gilson Becker (PSD), mostra-se animado com o crescimento do turismo rural no município. Para ele, a criação da Associação de Turismo Rural de Vera Cruz (Aturvec) representa um novo passo nesse processo, ao reunir empreendedores com o objetivo de criar roteiros, conectar atrações e ampliar o fluxo de visitantes.

A ideia de não se limitar a um único empreendimento vai além, na visão do gestor público. Becker cita como exemplo a possibilidade de integrar atividades de ciclismo às propriedades rurais, permitindo que os visitantes façam paradas em agroindústrias e outros pontos de interesse ao longo dos roteiros. “Ninguém vai crescer de forma isolada, tem que criar todo um ambiente”, aponta.

O desenvolvimento do turismo rural também está relacionado, segundo o prefeito, aos investimentos realizados para melhorar as condições de vida no interior. O município vem ampliando o abastecimento de água, o acesso à internet e a infraestrutura viária. Atualmente, há obras de pavimentação em 12 localidades do interior.

O chefe do Executivo Municipal acrescenta que a integração deve ultrapassar os limites de Vera Cruz, estabelecendo conexões com municípios vizinhos. Ele cita Gramado e Canela como um exemplo de cidades que trabalham conjuntamente na promoção de eventos e atrações turísticas. “É um mercado bastante crescente. Acho que nós temos bastante a avançar”, avalia.